Esta temporada tem sido repleta de novas experiências no México e o nível de adrenalina está lá no alto. Estive em Puerto Escondido no mês de setembro e logo que cheguei o primeiro swell entrou, com ondas grandes e bastante correnteza. Foram quatro dias de muito surfe em condições pesadas. Estava me sentindo bem, em sintonia com o mar. Consegui pegar boas ondas, além de tomar série na cabeça, nadar 20 minutos pra sair da água. Nada que não acontece em todo dia de ondas grandes em Zicatela.
Depois desses quatro dias, o mar deu uma baixada e as esquerdas do “far bar” começaram a funcionar. Estavam com uma força incrível e altos tubos. Rolou ainda um campeonato de bodysurf, desde moleque sempre curti me jogar nas fechadeiras de “jacaré”, e sempre que perco a prancha quando estou surfando, é o bodysurf que me ajuda a sair mais rápido do mar.
Resolvi me inscrever, pilhado pelo Kalani Lattanzi, que me deu uma assessoria como coach. Depois disso ele ainda ganhou o campeonato, esse moleque é um monstro!
Durante a festa de entrega de prêmios, por volta da meia-noite, rolou um terremoto muito longo e forte. Todos ficaram muito assustados e logo surgiu um alerta de tsunami. Evacuaram o local onde estava rolando a festa, fui para casa e fiquei olhando o mar do terraço. Caso ele recuasse, já estaria pronto para agir.
Graças a Deus aqui em Puerto ficamos todos bem, foi só um susto. Mas um pouco para o Sul a coisa foi feia, com muitas mortes e famílias desabrigadas. Mais doses de adrenalina a caminho, já que a previsão apontava ondas grandes pela frente. Esse swell veio ainda maior que o passado. O segundo dia foi o maior, estava um pouco apreensivo, acordei muito cedo, ainda escuro coloquei a minha música tradicional de dias grandes, “Eu quero ver o oco”, dos Raimundos, já para sentir o coração começar a vibrar forte.
Não gosto de ficar olhando muito o mar em dias realmente grandes, porque o medo acaba me consumindo. Dou uma olhada para saber mais ou menos onde está o pico e as correntes e já vou logo pra água. Esse dia fui um dos primeiros a entrar, logo que cheguei no outside já subiu uma bomba, uma pirâmide, mas com a parede muito longa. Não pensei muito, já me posicionei e fui. Um dropão, mas quando vi, ela fechou inteira. Sai nadando pra buscar minha prancha que a água levou quase atá a rua. Voltei para o outside e estava me posicionando quando veio “a onda”, que foi a maior do swell e a mais difícil da minha vida.
Queria muito aquela chance e essa foi a oportunidade perfeita pra isso. Como ainda era bem cedo, ainda não havia nenhum local na água. A série apontou no horizonte, eu estava mais para o outside do que a maioria das pessoas, pois estava chegando ao pico.
Veio a primeira, um argentino estava mais embaixo foi nela, quando ela passou a segunda veio bem mais pra fora, onde eu estava. Eu estava com sangue nos olhos, era a minha vez. Esperei tantos anos por isso e minha chance tinha chegado. Remei com toda minha força, não pensei, apenas fui. Quando fiquei em pé, senti que estava muito no lip, me agachei jogando meu peso pra frente pra fazer a prancha descer, foi quando ela descolou com o terral, na minha mente só vinha o seguinte pensamento: “Você não pode errar ou vai pagar o preço.” Consegui, com o poder que o medo me deu, completar o drop.
Estava tão focado no que eu tinha que fazer para acertar aquele drop, que a adrenalina dominou meu corpo e depois de completar a onda, sai do mar para falar com meus amigos que estavam olhando. Meu corpo todo tremia descontroladamente, eu já tinha cumprido minha missão, nem queria mais voltar pra água. Havia surfado a onda da minha vida.
Quando saí do mar, não tinha certeza de como tinha sido a onda, lembrava que eu remava e ela parecia muito grande. Depois só lembro da concentração para acertar o air drop. Depois do maior dia ainda vieram mais dois dias de ondas grandes. Isso foi no meio de setembro, de lá pra cá o mar ficou bem pequeno, com muita tormenta, e outro terremoto que desta vez atingiu em cheio a cidade do México. Essas foram as notícias deste primeiro mês que estou em águas mexicanas. Fico por aqui até novembro.












