Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. E se Gregor Samsa, personagem central do livro A Metamorfose, de Franz Kafka, fosse surfista? Imaginemos:
Gregor Samsa acordou sobressaltado. Tivera um sonho pavoroso: sonhara que havia se transformado numa barata gigante e asquerosa, e que agora era rejeitado por todos. Suspirou aliviado assim que acordou e percebeu que tudo aquilo fora apenas um sonho disparatado. Acho que exagerei no caldo de mocotó ontem à noite, pensou. Enquanto sacudia as estranhas sensações produzidas pelo amontoado de imagens, pelo enredo sem lógica, mas extremamente convincente (afinal, por mais que o sonho seja uma história sem pé nem cabeça, enquanto estamos dormindo, ele sempre nos parece coerente), do insólito sonho, percebeu que tinha sede; ah, mocotó arretado! Além de sede, sentia calor, muito calor.
Entreabriu os olhos, mas não enxergou nada; o quarto estava como ele gostava; completamente escuro. Deve estar quase na hora de ir para a faculdade. Ai, que preguiça; que vontade de matar aula e pegar onda! Mas, nem pensar; as provas finais estão chegando, e eu preciso tirar nove, senão levo bomba em Processo Civil! E aquele professor miserável implica comigo só porque eu sou surfista e, ao invés de prestar atenção na aula, fico só azarando as gatinhas da sala…
Êita sonho esquisito… Virei barata! Vê se pode! Tava eu lá, um baratão gigante, mamãe chorando, papai todo estressado, até o professor Flávio entrou na dança… Acho até que tem um livro assim, como é mesmo o nome? A Metamorfose, se não me engano, só que o cara virava uma cobra, ou um sapo, ou um monstro verde, tipo o Hulk, sei lá… Acho que eu preciso ler mais… Bom, vamos nessa, que a hora é essa!
Quando foi se espreguiçar, levou um susto: não sentiu os membros; nenhuma sensação nas mãos, nos pés, nas pernas, nos braços, nada! Aliás, sentia um estranho formigamento que percorria seu corpo. E a sede que apertava sua garganta.
Tentou olhar para baixo e examinar os membros, mas não conseguiu; sentiu o pescoço duro, sem mobilidade; tentou se apalpar, mas os braços realmente não respondiam aos comandos do cérebro. Começou a ficar preocupado; será que eu estou ficando paralítico? Deus me livre!
A estas alturas, a luz do sol principiava a se infiltrar pelas frestas da persiana e expulsava lentamente as trevas noturnas. Ouviu um murmúrio vindo de trás da porta, mas o som era muito baixo; seria sua mãe, chamando-o para a aula? Achou que sim, e foi responder: já vou, mãe.
Ficou apavorado com o som que saiu de sua boca: uma série de guinchos agudos, ininteligíveis; nenhuma palavra articulada, mas um som que ele já ouvira antes, porém não conseguia identificar; só sabia que aquela, decididamente, não era sua voz. O que está acontecendo comigo? Porque eu não consigo mexer os braços? Porque eu não consigo falar? E esse calor, e essa sede?! Que doença será essa?
Resolveu que tinha que levantar-se. O cérebro ordenou novamente aos braços e pernas que se movessem; novamente, a desobediência dos membros. Mas agora ele estava decidido a sair daquela cama. Talvez estivesse sonhando ainda, aquele tipo angustiante de sonho, em que tentamos correr, mas não saímos do lugar, ou tentamos falar e não conseguimos abrir a boca. Esse tipo de sonho deve ter algum significado. Quando eu acordar, vou fazer uma pesquisa, só para saber… Percebendo que seus membros amotinados não se moveriam, começou a sacudir o corpo, balançando-se freneticamente, convulsivamente, até que caísse no chão, até que acordasse do desvario.
Caiu, mas não acordou. Sentiu dores por todo o corpo, já que não conseguiu mover os braços para amortecer a queda. Sentiu-se impotente, inválido. Indefeso. Começou a se debater numa tentativa desesperada e vã de levantar-se; foi quando olhou para a porta aberta do armário. O que viu fez seu coração gelar: ali, refletido no espelho, no lugar onde deveria estar um surfista, um universitário de dezenove anos, o filho querido de Dona Nair, havia…
Um golfinho!
Isso mesmo: Gregor Samsa estava transformado em um golfinho! Mas, como era possível? Ninguém saberia; como é possível alguém ser transformado em barata? Como é possível ninguém morrer numa certa nação? Ou uma cegueira branca assolar a população de outro país? Como é possível padres levitarem movidos por chocolate? E, o mais intrigante, que sede ardente é essa, que calor é esse?
Gregor Samsa, o surfista, nada sabia destas coisas; não sabia se isso era possível, nem se esta era a primeira vez que tal fato acontecia, nem se seria a última; a única coisa que sabia no momento era que ele foi dormir gente, e acordou golfinho.
Contemplou o seu novo e estranho eu no espelho, ao mesmo tempo estarrecido e admirado de suas novas formas.
Foi quando percebeu que aquela transformação bizarra poderia ser a realização de seus mais delirantes sonhos.
Sim! Como golfinho, poderia desfrutar, com total liberdade, de quantas ondas desejasse! Com aquele corpo delgado, com aquelas poderosas nadadeiras, dominaria completamente qualquer pico da região. Da região, nada: do planeta! Agora, ele é que seria o verdadeiro local, em qualquer praia. Nunca mais teria que se submeter à vontade daqueles trogloditas bombados otários, que se achavam os donos do pedaço. Expulsaria a focinhadas, mordidas e rabeadas, qualquer um que se aventurasse em seus domínios. Surfaria as melhores ondas na Joaca, em Saquá, Itacaré…
Quanto será que um golfinho consegue nadar? Surfaria Jeffrey´s, G’Land, Chicama, Pipe… Nada, para que ir até o crowd? Desbravaria ondas perfeitas e desertas, nunca dantes navegadas nem surfadas, nos cantos mais inóspitos do globo…
Subitamente, se deu conta de que havia um problema em realizar seu novo projeto de surfe: da mesma maneira que um corpo humano não é feito para habitar os mares, corpos de golfinhos não são exatamente os mais apropriados para a vida em terra firme: se Gregor não conseguia nem mesmo ficar de pé, como seria capaz de pegar um carro e dirigir até a praia? Não conteve um sorriso ao imaginar o espanto do guarda de trânsito ao multar um golfinho por dirigir em velocidade acima do permitido…
Mas o sorriso durou pouco. Foi substituído por uma angustiosa sensação de falta de ar. Quanto tempo um golfinho suporta viver fora d’água? Gregor estava prestes a descobrir. Seus pulmões ardiam, sentia o mundo girar; diante de seus olhos, pontinhos brilhantes borboleteavam, anunciando que sua mente estava prestes a mergulhar na inconsciência. Para sempre. Adeus, mãe, pai, perdoem qualquer coisa; adeus Letícia, meu amor; eu azarava todas, mas eu gostava mesmo era de você… será que no céu tem onda? Será que eu vou para lá? Será que… será… se…
O surfista metamorfoseado em golfinho expirou, sozinho no seu quarto semi-iluminado pelos raios de sol que anunciavam, após tanto tempo, um belo dia.
Foi assim que, numa insólita manhã de inverno, Gregor Samsa, o surfista, deixou este mundo. Até hoje, seus pais buscam pistas do psicopata que teria seqüestrado seu amado filho, deixando em seu lugar o cadáver ressecado de um golfinho.
