Ricardo Silva

Mentawai em alta tensão

O sonho de todo o surfista é viajar para as ilhas Mentawai, Indonésia, na presença de amigos. Esta foi a nossa missão. Durante duas semanas, exploramos este paraíso dos alucinados pelas ondas.

Conseguimos reunir um grupo dos oito melhores amigos e um agregado, que viajou com uma galera desconhecida. E ainda por cima o cara era engraçado.

Partimos para a trip e como todo mundo sabe a ansiedade era grande em conhecer a Indonésia e ainda por cima o pico mais inusitado, ilhas Mentawai.

Eu e meu amigo Boy como já estávamos em nossa segunda trip nas Mentawai ficamos como guias para os outros amigos. No nosso primeiro dia da trip surfamos uma onda mais tranquila e muito perfeita na região de Playgrounds. Ela tinha até 2 metros clássicos e a galera delirou.

E assim começou nossa trip, surfávamos o dia todo e a noite era regada de histórias, muita cerveja e gargalhadas. Pensei na minha infância: comecei a surfar na Praia Grande no litoral Sul paulista, depois frequentei o litoral Norte com uns 17 anos e agora estou com a minha galera, nas Mentawai. Era um sonho.

Surfamos a região de Rifles, que além de ser casca grossa estava a beira do insuportável de crowd. Ficamos uns cinco dias nesta área, depois fomos para Macarronis e estava de gala. Este pico é alucinante e bem casca também.

Surfamos por três dias esta onda que é alucinante e ao mesmo tempo casca porque é raso, as pessoas acham que lá é perfeito, que vão botar pra baixo e que vão quebrar mais não é bem assim.
Em minha quinta temporada na Indonésia aprendi que temos de respeitar, pois por um vacilo sua trip acaba e não adianta ser herói. Tem que chegar com humildade e surfar conforme se sente seguro. Vi vários caras se machucando no coral. Lá é punk.

Isso sem contar o medo de terremotos e Tsunamis. Logo quando voltamos vi que entrou um Tsunami por lá e fiquei em choque e muito triste, pois aquele lugar é especial para mim. Em minha opinião é a melhor esquerda das Mentawai e saber desta tragédia me deixou chateado.

Voltando a trip, depois de Macarronis, seguimos para Thunders porque havia baixado o swell e lá sempre tem uma vala. Ao chegar lá fiquei impressionado. Quando surfei em 2007, a onda era relativamente funda e quando voltei ao Brasil na mesma semana teve um terremoto por lá.

Desta vez, notei que o coral havia levantado muito, não digo igual a Asu porque lá foi bizarro mais Thunders foi atingido também. A onda continuava perfeita só que agora muito rasa.

Ficamos por ali uns dois dias e quando o swell chegou voltamos para Macarronis. Surfamos de novo de gala. O crowd estava presente para variar, inclusive de brasileiros. Era um rabeando o outro e ninguém respeitava a fila. Ridículo de ver me deu vergonha de ser brasileiro ali. Mesmo assim deu pra pegar altas.

Dai no dia seguinte partimos para HT´s e no caminho pegamos uma tempestade que quase todo mundo começou a vomitar. O barco parecia de papel perto daquelas ondas e para ajudar um dos motores quebrou. Resultado: o capitão disse que demoraria 12 horas até HT´s, que chegaríamos somente às 12:00.

Para ajudar, poderíamos surfar até as 15:00 porque com um motor só o barco demoraria 20 horas até o porto de Padang. No meio da travessia o vento zuncava maral, mais algo me dizia que lá ia estar terral. Dito e feito. Quando nos aproximamos da baía já avistei com o binóculo o vel das ondas por traz. A galera foi ao delírio, mas acho que mais de adrenalina do que de feliz, porque HT´s com swell não é pra qualquer um. Quem já surfou lá sabe do que estou falando.

Mas daí a notícia triste. Um novo crowd no pico com oito barcos parados. Além disso, estava chovendo o que impedia de filmar e fotografar a onda mais aguardada da trip.

A boa notícia pelo o menos para mim era que no pico aonde vinham as séries, mesmo de 2 metros,  haviam três caras esperando e o resto mais para o rabo da onda. Peguei minha 6.5 round pin de estimação e fui na fé. Fiquei com eles esperando minha vez. Surfei sete ondas, mas todas inesquecíveis.

Dropei dois tubos secos, daqueles de fazer air drop. Em minha última onda estourou minha cordinha, meu irmão que perrengue. Tomei três ondas da série na cabeça sem prancha e vi estrela. Mergulhei achando que dava pra ir fundo, enfiei a mão no coral com tudo, cortou todos meus dedos. Naquele momento pensei: a gente está surfando 2 metrão de onda com 1 metro de água em baixo de nós. Fiquei em choque.

Nesta hora é preciso conhecer as manhas. Consegui manter a calma e superei com magnitude o momento. Ainda conseguiram filmar e fotografar uma onda minha da série, pena que não foi uma de tubo e ai a chuva apertou, mas tudo bem eu estava em êxtase.

Estava preparado e de cabeça feita para voltar para Bali, que alias quando cheguei nem quis surfar de tão cabeção que eu estava das Mentawai.

Quero agradecer a todos que participaram da trip e colaboraram para fazer nosso filme. Também quero mandar um aloha para o Andy Irons que faleceu bem quando estávamos terminando a edição do filme e colocamos uma lembrança para ele.

Tive o privilégio de assistir ao vivo e a cores ele surfando em Asu em 2004 e foi inesquecível o show que ele deu em ondas de 2,5 metros perfeitas. Aloha Andy!

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