Medo: a base genética do big rider

No início do ano passado, Fred d’Orey, na minha opinião uma das pessoas mais inteligentes e embasadas do surf brasileiro, emplacou uma coluna extremamente polêmica na edição de janeiro da revista Fluir[4].

 

No texto, Fred atacava e comparava os big riders aos gladiadores do passado, deixando explícita sua opinião ao duvidar da existência de big riders soul surfers, direcionados somente ao puro prazer da experiência, sem esperar nada em troca, muito menos fama e dinheiro…

 

Arriscar-se, colocar-se a beira do abismo, viver no limite, encarar o medo… Quando observamos as diversas estatísticas existentes sobre o assunto, a questão atinge níveis cada vez mais complexos. A crescente popularidade dos esportes de aventura, muitas vezes considerados de alto risco, é cada vez mais patente.

 

De 93 até 99, o número de praticantes de snowboarding cresceu 113%, e atualmente estima-se que 6,5 milhões de pessoas sejam adeptas deste esporte nos EUA. Taxas de crescimento não muito distintas transitam pelo universo do surf, do skate, do mountain bike, etc.

 

O BASE jump, modalidade na qual o praticante salta de prédios, pontes, penhascos e antenas com apenas um pára-quedas, já fez 46 vítimas fatais nos seus 18 anos de existência[6]. Em 97, a U.S. Consumer Products Safety Commission informou que 48 mil americanos foram atendidos nos hospitais, devido aos acidentes relacionados à pratica do skateboarding, 33% a mais do que as queixas de 96!

 

No mesmo ano, as visitas provenientes dos acidentes com snowboarding aumentaram 33%, e com o montanhismo 20%! Em contrapartida, o declínio no interesse pela prática dos esportes convencionais, como o baseball, o vôlei, e o basquete, é cada vez mais evidente[6].

 

De forma geral, de alguns anos para cá as pessoas estão se arriscando mais, se colocando com mais freqüência em situações limítrofes e potencialmente perigosas. Entretanto, não é somente o advento do tow-in, do BASE jump e do extreme snowboarding que nos indicam e nos possibilitam fazer tal afirmação.

 

Nos aspectos econômico e social também tem sido possível observar essa tendência. Os americanos, por exemplo, têm se arriscado muito mais em investimentos financeiros de alto risco[6]. As taxas de demissões voluntárias cresceram 14,5% na última década, e a maioria dos demissionários partiu para aventuras profissionais incertas e arriscadas[6].

 

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Nos últimos anos, a Harvard Business School apresentou um crescimento de 12% no número de alunos recém formados, que migraram para áreas profissionais duvidosas e instáveis[6].

 

Mas, afinal de contas, de onde vem essa tendência de viver com medo? De onde vem nossa necessidade de se arriscar e de viver no limite? Será essa uma tendência dos novos tempos? Ao que tudo indica, não. Na sua grande maioria, as gerações que nos antecederam passaram a vida com medo, vivendo na incerteza do amanhã, com a insegurança do que está por vir.

 

No passado remoto, entretanto, o medo tinha outras origens: o medo de predadores, de terremotos, da falta de comida… Nas gerações do século passado, as guerras mundiais, as pestes, as epidemias… Depois, o pavor da guerra fria.

 

“Com todos esses medos, essas angústias e essas inseguranças, a prática do skateboarding poderia não se apresentar como algo tão extremo”, afirma Dan Cady, professor de cultura popular da Universidade do Estado da Califórnia[6].

 

“Atualmente, as pessoas procuram por riscos, estão se arriscando mais porque todos os dias os riscos são minimizados em nosso mundo”, afirma Joy Marr, uma praticante de corridas de aventura[6] de 43 anos. Será que existe alguma base científica que suporte esta afirmação? Talvez…

 

Por mais violento que o mundo possa parecer, a qualidade de vida do ser humano tem crescido sensivelmente nos últimos anos. Devido aos avanços da ciência, a expectativa de vida tem aumentado exponencialmente em quase todo o mundo. Atualmente, temos 57% menos chance de morrer de doenças do coração.

 

Já epidemias como sarampo, pólio, catapora, varíola, rubéola e tuberculose estão praticamente erradicadas na maior parte do mundo (exceção feita aos países extremamente pobres). A guerra fria faz parte do passado.  Tudo isso pode produzir uma entediante sensação de segurança em algumas pessoas, e isso as impulsionaria para experiências mais arriscadas.

 

Alguns psicólogos freudianos ainda divulgam a esdrúxula teoria de que as pessoas que procuram voluntariamente por riscos são conduzidas por sentimentos subconscientes de culpa, ou seja, Carlos Burle droparia ondas gigantes apenas como forma de autopunição!

 

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Outros psicólogos, como o norte-americano Frank Farley e seus colaboradores, da Universidade Temple, foram um pouco mais além e, através de análises de personalidades, detectaram um tipo conhecido como tipo T. As pessoas enquadradas no tipo T seriam mais propensas a procurar pelos riscos, pelas novidades e pelas fortes emoções.

 

Farley chega mesmo a dividir os indivíduos do tipo T em ‘tipo T físico’ (atletas radicais), e ‘tipo T intelectuais’, aqueles guiados por fortes emoções advindas das novas descobertas científicas. Nesta categoria, poderíamos incluir o físico alemão Albert Einstein, que assim como Resende, Burle e Eraldo, viveu no limite grande parte de sua vida!

 

Tem que ser muito louco e corajoso para estudar 20 horas por dia durante toda a vida e mudar os rumos da humanidade. Talvez muito mais do que para descer Maverick’s…

 

É possível também que essas personalidades tipo T mudassem seus enfoques de vida caso fossem estimuladas de forma diferente pelo meio ambiente… Já imaginaram como seria engraçado o Resende recebendo o prêmio Nobel de Medicina e o Einstein ganhando o Big Trip?

 

Farley chega mesmo a caracterizar o comportamento de nações. Para ele, os EUA seriam uma nação tipo T, propícia aos riscos e aventuras. Já o Japão seria uma nação mais conservadora e não muito chegada às fortes emoções. Mas, a grande novidade mesmo chegou com os biólogos moleculares, outra turminha do tipo T que passa a vida a procura de fortes emoções científicas.

 

Esses caras estão encontrando a base molecular (genética) que pode explicar o comportamento humano! Isso mesmo, malucos por herança genética, e não devido a recompensas financeiras. Mas, para melhor compreendermos o que isto significa, temos que entender alguns conceitos básicos.

Primeiro: Einstein, eu, você e o Eraldo somos seres humanos. Logo, fomos e sempre seremos formados por células. No interior delas existe o nosso código genético, bilhões de informações contidas em 23 pares de cromossomos que, se fossem escritas, ocupariam 100 mil páginas!

 

São nessas informações que estão guardadas todas as nossas características. É lá que estão as informações e as seqüências de montagem de todas as nossas proteínas que fazem parte dos músculos, da cor dos olhos, das enzimas, etc…

 

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A segunda coisa importante a ser compreendida é que o cérebro comanda nosso corpo e emoções. Ele é composto de bilhões e bilhões de células especiais, conhecidas como neurônios, que se comunicam entre si através de impulsos elétricos e da liberação de substâncias químicas específicas conhecidas como neurotransmissores[8].

 

Dependendo da substância liberada, você ficará feliz, aborrecido, excitado, chateado, deprimido, etc… Mas, para que os neurotransmissores sejam eficazes, eles precisam ser reconhecidos pelos neurônios. Sendo ainda mais detalhista, os neurônios têm receptores feitos de proteína, e que funcionam como fechaduras. Cada substância química funciona como uma chave que tem o seu receptor específico[8] (a fechadura). Tá difícil de entender amigo leitor? Espero que não. Continue lendo que isso é muito legal, olha só…

 

Existe uma substância em nosso cérebro conhecida como dopamina. É ela que, uma vez liberada e captada pelos receptores dos neurônios, produz a sensação de novidade, de excitação e de emoção. Logo, se a pessoa nascer com uma tendência genética que a faça produzir um maior número de receptores neuronais para a dopamina, essa pessoa será muito mais propensa às ações advindas deste neurotransmissor…

 

Será mais excitável, procurará por fortes emoções e estará sempre à caça de novas aventuras e novos desafios. E foi exatamente isso que Einstein[2,3,5] e Benjamin[1,2,3] descobriram! Esses biólogos moleculares, geneticistas, pegaram um bando de indivíduos e aplicaram neles alguns testes psicológicos com intuito de determinar o tipo de personalidade de cada um.

 

Mais passivo, mais calmo, mais agitado, mais ligadão, etc. Depois disso, gastaram uma boa quantidade de dinheiro para mapear os seus cromossomos e tentar localizar algum gene especial. E não é que eles conseguiram?! Todos aqueles indivíduos que apresentavam personalidades mais dinâmicas, fortes e propensas à busca de fortes emoções, tinham, no cromossomo 11, cadeias de genes muito mais longas para a construção dos receptores D4DR, aquele que identifica e se liga com a dopamina[1,2,3,5,6,7,9,10,12].

 

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Logo, é provável que uma vez o indivíduo sendo mais sensível à dopamina, sua personalidade seja mais propensa a vivenciar riscos e aventuras. Talvez, Fred d’Orey esteja parcialmente certo. É possível que nossos big riders sejam gladiadores.

 

Mas, como os antigos guerreiros, eles também parecem não ter muita opção, uma vez que podem estar sendo levados para a arena por uma tendência genética, o que os tornaria prisioneiros da busca pelo prazer. Neste caso, esses meninos não estariam almejando fama e auto-afirmação, somente alimento para seus cérebros. Isso pode gerar profundas reflexões filosóficas…

 

Algumas tradições orientais, como o budismo, afirmam que o homem pode transcender suas limitações humanas através da meditação, que o levaria ao auto-conhecimento, ao nirvana, à iluminação, ao encontro com sua verdadeira essência. Segundo o budismo, nossa mente esta sempre ofuscada pela ilusão do cotidiano. Nunca vivemos o presente…

 

Estamos sempre com a cabeça nos problemas do passado ou do futuro. Comemos sem saborear, olhamos sem ver, pensamos sem razão. Por este motivo, o budismo preconiza algumas técnicas que te fazem viver o presente com plenitude… Respire… Apenas respire… Mantenha a atenção plena em tudo o que você fizer…

 

Surfar picos como Cortez Bank, Waimea e Maverick’s está longe de ser uma prática budista, entretanto, nesses momentos, somos nós mesmos… Nada passa na mente a não ser a plenitude do momento. Surfistas de alma são capazes de sentir isso até mesmo nas situações mais rotineiras do surf, como aquela valinha no meio da Barra…

 

O surf tem muito de budismo, de alma. Mas, será que o big surf seria espiritualmente correto? Será correto arriscar a vida, esse bem tão precioso, em troca de simples quantidades de dopamina? Não sei, creio que ninguém sabe. Quem somos nós? O que estamos fazendo aqui? De onde viemos? Para onde vamos? Talvez, um dia seremos cobrados pela nossa irresponsabilidade frente à preciosa vida que nos foi concedida e tão displicentemente colocada no sutil jogo da morte…

Talvez o sentido da vida seja somente a frieza da bioquímica cerebral. Na dúvida, continuo tateando pela resposta… Na bagagem para a temporada havaiana, uma sunseteira 10 pés e os sutras budistas. Que os deuses havaianos me iluminem a mente e me façam encontrar o verdadeiro caminho.

 

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Notas:

 

Pesquisas científicas mostram que o surf recreacional é um esporte extremamente seguro. Em 77, o risco de se acidentar de forma branda praticando surf era de 1 para 17.500 dias surfados. Em 83, 3,5 para 1000 dias surfados. E em 2000, 2,47 para cada 1.000 dias surfados.

 

Esportes como o skateboarding, snowboarding e wakeboarding tornam-se muito mais seguros na medida em que o praticante segue normas básicas de segurança e se inicia em uma escola.

 

Cursos de final de semana não capacitam nenhum campeão desses esportes a se tornar um professor. A arte da docência extrapola a própria performance técnica. Todo iniciante deveria procurar por professores credenciados por órgãos competentes e ligados à prática pedagógica, e de preferência formado em Educação Física.

 

Desenvolvimento motor, psicologia esportiva, cinesiologia e biomecânica, primeiros socorros e nutrição esportiva não se aprendem no mar. Prática e teoria, a solução para um aprendizado seguro, honesto e divertido. Aloha!

 

 

Prof.Ms. Marcello Árias
Coordenador da UNIPRAN – Universidade da Prancha
Professor do Centro Universitário Monte Serrat – UNIMONTE/Santos

 

Referências Bibliográficas

 

1) Benjamin, J.; Li, L.; Patterson, C.; Greenberg, B.D.; Murphy, D.L. & Hamer, D.H.- Population and Familial Association Between the D4 Dopamine Receptor Gene and Measures of Novelty Seeking. Nature Genet. 12 (1996): 81-84.
2) Cloninger, C.R.- Curr Opin Neurobiol.4 (1994): 266-273.
3) Cloninger, C.R.;Adolfsson, R. &  Svrakic, N.M.- Mapping Genes for Human Personality. Nature Genet. 12 (1996): 3-4.
4) d`Orey. F.- Seriam os Big Riders Gladiadores? Fluir. Janeiro/2002. Ano 18. N° 1.Edição 195.
5) Ebstein, R.P.; Novick, O.; Umansky, R.; Priel, B.; Osher, Y.; Blaine, D.; Bennett, E.R.; Nemanov, L.; Katz, M. & Belmaker, R.- Dopamine D4 Receptor (D4DR) Exon III Polymorphism Associated With the Human Personality Trait of Novelty Seeking. Nature Genet. 12 (1996): 78-80.
6) Greenfeld, K.T.- Life On The Edge. Is Everyday Life Too Dull? Why Else Would Americans Seek Risk As Never Before. Time Magazine, U.S. Edition. September 6 th, Vol. 154 (10), 1999.
7) George, M.; et al.- in The Temperament and Character Inventory (TCI): A Guide to its Development and Use. (eds. Cloninger, C.R. et al.) 137-140 (Center for Psychobiology of Personality, ST Louis 1994)
8) Julien, R.M. -” A Primer of Drug Action: A Consice, Nontechnical Guide to the Actions, Uses, and Side Effects of Psychoactive Drugs. Worth Publishers, Ninth Edition, New York, 2001.
9) Menza, N.A.; et al.- Neurol. 43 (1993): 505-508.
10) Menza, M.A.; et al.- J Neuropsychiat Neurosci. In the press.
11) Raw, I.; Mennucci, L. & Krasilchik, M.- A Biologia e o Homem. EDUSP – Editora da Universidade de São Paulo, 2001.
12) Sigvardsson, S.; et al.- J  Child Psychol Psychiat. 28 (1987): 929-940.

 

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