
Esse texto é dedicado a todos os surfistas que crêem, e que em algum momento de suas vidas confiaram-na ao grande Deus Pai Oceano.
Os primeiros raios de sol singravam o céu de Oahu, no mesmo momento em que hordas de surfistas se aglomeravam de forma ritualística na pequena e mítica baía de Waimea. Dentro em breve, este local, outrora considerado kapu (tabu), receberia a primeira das muitas homenagens feitas em memória a Eddie Aikau. O Oceano Pacífico contradizia seu nome e ofertava ondas de vinte e cinco pés para o evento.
Na água… Clyde Aikau, irmão de Eddie, buscava um melhor posicionamento no line up da baía, quando notou uma enorme tartaruga marinha ao seu lado. Encantado com a visão do singelo gigante, seguiu-o remando por alguns metros, quando percebeu que tinha se posicionado muito para fora da linha de arrebentação. No momento em que decidiu voltar, uma enorme série de ondas adentrou a baía e Clyde foi presenteado com a melhor da série.
Feliz com a coincidência, Clyde volta ao line up, pensativo, sorrindo, recordando-se com ternura do fato. Uma vez mais na linha de arrebentação, visualizou novamente o dócil animal. Desta feita, ainda mais para fora da baía. Clyde, ouvindo sua intuição, atende ao chamado da criatura e posiciona-se junto a ela, outra vez, e… mais um presente para a família Aikau.

Segundo Clyde, a tartaruga o teria guiado durante todo o evento, indicando as melhores ondas, as melhores atitudes… Ao término do evento Aikau vence em honra de Aikau. Convicto, Clyde afirma que o comportamento da tartaruga nada mais era do que a manifestação do espírito de Eddie! O grande homem do mar manifestava-se agora através do sereno animal das profundezas polinésias.
Esta pequena história verídica simboliza o que talvez seja o maior de todos os arquétipos humanos: o sentimento religioso. Para alguns, este sentimento é melhor expressado através de um conjunto de rituais organizados, de uma doutrina, uma religião… Para outros, a emoção religiosa por si só já é suficiente, bastando uma tartaruga para amplificá-la.
Não se sabe ao certo a origem das religiões, mas acredita-se que elas estejam ligadas às nossas questões mais íntimas: Quem sou eu? Por que existo? De onde eu vim? Para onde eu vou? O que é a morte? Será mesmo o fim?
Desde o período paleozóico, já é possível observar ações ritualísticas que delatam a crença em algo sobrenatural. Enterrar os mortos ofertando-lhes flores e amuletos são os primeiros indícios da preocupação do homem com a continuidade do ser. No entanto, relatos confiáveis sobre as primeiras formas organizadas de religiões são posteriores à invenção da escrita.

Entre os povos que nos concederam os registros mais antigos de mitos religiosos podemos destacar os egípcios, os sumérios e os persas. Desde então, começaram a aflorar religiões altamente organizadas e estruturadas a partir de um vasto conjunto de princípios. O Hinduísmo talvez seja a mais antiga delas, pois se estima que os seus belos textos sagrados, Os Vedas, tenham sido escritos há mais de três mil e quinhentos anos19!
Outrora, nossa cultura surf também já esteve permeada pela religião, principalmente o surf primitivo. Embora o surf nas ilhas havaianas não fosse especificamente um ato religioso, sua prática estava indubitavelmente atrelada, integrada e envolvida com os cultos aos deuses e aos espíritos da natureza7. O ritual existia até mesmo na arte de manufaturar uma prancha de surf, ainda na escolha da árvore que a geraria.
Uma vez escolhida a árvore em questão, o artesão de pranchas depositava um peixe vermelho em seu tronco, para logo então derrubá-la com um machado de pedra. O peixe então era enterrado entre suas raízes e oferecido aos deuses com uma prece em agradecimento pelo presente. A subseqüente construção da prancha era um ato de extrema habilidade manual, que requeria a utilização de inúmeras ferramentas, como pedras, madeiras e pedaços de corais7.
Uma vez terminada, a prancha de surf era de pouca utilidade na ausência das ondas, logo, os havaianos desenvolveram ritos para “chamar” o swell, batendo no oceano com algas e entoando cânticos chamativos7.
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O surf era também o ponto central do maior festival havaiano existente. Era uma celebração anual chamada de Makahiki. O Deus Lono era o patrono deste festival, e todas as celebrações eram realizadas em sua homenagem. Do meio de outubro até o início de fevereiro os ilhéus paravam com todas as suas atividades e uniam-se para relaxar, dançar, festejar e praticar esportes 7.
Entre os inúmeros deuses havaianos, entretanto, não existe nenhuma menção especial a um deus do surf. Já no Taiti, existe um deus conhecido como Huaouri e relacionado diretamente com as práticas do surf7. Infelizmente, sua contraparte havaiana permanece desconhecida e esquecida, muito embora a existência de ao menos um templo destinado ao surf na ilha do Hawaii reforce a idéia de que esta divindade de fato deva ter sido cultuada no arquipélago havaiano7.
Porém, voltando a um contexto mais mundial e generalista, é interessante notar que na história da religião, basicamente dois aspectos são muito enfatizados e desenvolvidos. O primeiro deles versa sobre uma miríade de divindades e de criadores que deteriam o poder sobre todas as coisas e sobre todos os seres e, através da veneração, da oração e da devoção aos criadores, poderíamos obter a libertação eterna do sofrimento terreno.
O cristianismo e o islamismo são exemplos dignos de menção. Do outro lado da moeda, podemos citar as religiões, ou mesmo algumas tradições filosóficas que enfatizam a natureza divina do próprio homem. Segundo essas tradições, o homem faz parte de um universo perfeito e altamente organizado, porém, devido a inúmeros motivos ilusórios, não tem plena consciência desse fato. O despertar para esta realidade maior poderia ser obtido através de um árduo processo de auto conhecimento. Parte do hinduísmo, as inúmeras formas de budismo e o taoísmo chinês são algumas dessas tradições.

Como é possível perceber, embora existam algumas exceções à regra, no Ocidente a ênfase religiosa foi sempre direcionada ao exterior, para um suposto salvador… Para Deus. Já no oriente, é possível observar o enfoque dado ao indivíduo. Para a grande maioria dos orientais, a suprema verdade habita o interior de todos os seres, e somente mergulhando profundamente e sem medo nos mistérios de nossa mente ilusória poderemos obter a transcendência desejada.
Em nosso ocidente, a descoberta do pensamento e da filosofia oriental é algo novo. Durante o século XVIII (muitas vezes denominado “Era da Razão”), nossa ciência e tecnologia geraram uma forte corrente intelectual conhecida como Iluminismo. A ciência foi vista como triunfo da razão humana e muitas pessoas chegaram mesmo a esperar que ambas gerassem avanços não apenas na indústria e na economia, mas também na moralidade e na felicidade, o que de fato não aconteceu. Gradativamente, então, os ocidentais passaram a procurar no oriente as respostas para suas inquietantes perguntas. O surf também bebeu nesta fonte.
A era pós-revolução minimodel coincidiu com a era Vietnã e pós-Vietnã. Pela primeira vez o surf absorvia um movimento cultural mundial, o peace and love (paz e amor), e o reinterpretava conferindo-lhe um caráter híbrido, que misturava a pluralidade comportamental da juventude contemporânea com a singularidade característica dos movimentos que ocorreram no seio de nosso esporte. As grandes imagens psicodélicas apossaram-se do surf…

Os cabelos foram ficando compridos à medida que as pranchas foram diminuindo de tamanho. Timothy Leary, o terapeuta que utilizava LSD em suas análises da consciência, era lido e idolatrado por alguns. O yôga e o budismo começaram a fazer parte do vocabulário dos surfistas e os ideais orientais foram comparados aos ideais do surf. Tudo isso podia ser observado nos anúncios contidos nas revistas especializadas:
“Há uma divindade que partilha nossos fins, embora possamos esboçá-los”.
Rick Surfboards
“Karma – o modo de vida de cada um é animado do interior”.
Bing Surfboards
O surfista e shaper Dick Brewer também ficou conhecido por ser um franco defensor da utilização das drogas como meio de expansão do espírito e da consciência14. Nessa época, os experimentos com os mais diversos tipos de drogas estavam em voga. “Sexo, drogas e rock’n’roll” era a tônica da juventude mundial. “Sexo, drogas, rock’n’roll e surf” era o lema de muitos surfistas também. As músicas do Led Zeppelin, de John Mayall e de Jimi Hendrix foram escolhidas para a trilha sonora desse período de intensas experimentações e muitas vezes foram fundidas aos mantras sagrados dos budistas tibetanos.
Porém, apesar do colorido e dos sinceros ideais pacifistas e religiosos dessa época, algum preço teve de ser pago. Hendrix viria a morrer em 1970, talvez reflexo da “demasiada expansão da consciência” e da tumultuada busca pelo auto conhecimento. A visita ao oriente e a sua rica espiritualidade foi feita de forma abrupta, superficial e, até certo ponto, irresponsável. Porém, uma coisa é certa para muitos surfistas: o surf sempre teve algo de sagrado, sendo o oceano muitas vezes venerado como uma verdadeira divindade.
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Se você é surfista, é bem provável que tenha alguma crença, ou talvez até seja adepto de alguma religião. É certo também que alguns de nós podemos achar tudo isso uma grande tolice sem fundamentação. Podemos até mesmo afirmar não crer e não ter fé em nada… Contudo, isso sugere algumas explicações.
A palavra fé vem do latim “fides”, que significa “fiar-se de”, “ter confiança”. Essa confiança pode muitas vezes ir além da religião. No momento em que optamos pelo surf como estilo de vida, nos entregamos a ele confiando plenamente que este caminho possa nos conceder alegria e felicidade. Temos fé que esta foi a opção certa.
Já a crença é o conjunto de afirmações que fazem parte de uma doutrina religiosa, constituindo seus dogmas e suas promessas. O universo surfístico também é repleto de dogmas: “O Hawaii é a Meca do surf!”, “Não há nada que um bom dia de surf não cure!” “Essa onda é minha! Eu sou local do pico!”, isso para citar somente alguns.
Dogmas religiosos têm nos acompanhado por milênios, e nos últimos anos têm intrigado até mesmo alguns dos mais renomados e céticos cientistas. Recentemente, o radiologista Andrew Newberg e o psiquiatra Eugene d’Aquili conduziram uma experiência fantástica. Procurando por uma base biológica da fé religiosa, os pesquisadores submeteram freiras franciscanas e budistas tibetanos a exames de tomografia computadorizada.
Os exames foram feitos durante as orações das freiras e durante as meditações dos monges budistas. Os resultados foram desconcertantes! As imagens cerebrais mostraram reduções das atividades elétricas da região do lobo parietal de ambos os grupos estudados. Essa região é responsável pela nossa orientação espacial, nos ajudando a distinguir distâncias, ângulos e até mesmo a diferenciar os limites impostos pelo nosso próprio corpo no espaço. Sem ela torna-se impossível nos situarmos espacialmente, física e mentalmente.

Ainda segundo os pesquisadores, a diminuição dessa atividade no cérebro poderia ser a responsável pela produção das sensações de unidade com um todo maior, de transcendência espiritual, experiências místicas comumente relatadas pelos religiosos mais fervorosos16.
Uma outra parte do cérebro que parece ser afetada é o sistema límbico. Esta área esta associada às nossas emoções, e quando estimulada eletricamente pode produzir alucinações, sensações extra-corpóreas, além de aumentar nossa percepção do senso divino e do sagrado. Ainda segundo Newberg e d’Aquili, este fato poderia esclarecer a nossa necessidade de rituais, tão comuns nas práticas religiosas. Símbolos, cânticos, mantras, movimentos, gestos e imagens sagradas se diferenciam das ações cotidianas e poderiam ajudar o cérebro a perceber tais eventos como mais ricos e significativos16. Talvez os singelos atos de retirar a prancha do rack, caminhar descalço pela areia, passar calmamente a parafina percebendo seu odor característico, possam ter significados altamente relevantes para os nossos circuitos cerebrais.
Não me canso de imaginar como seria uma tomografia computadorizada do cérebro de um surfista em ação: um homem, um tubo. O tempo correndo de forma diferente… Sublimes e fugazes segundos… Tão rápidos e ao mesmo tempo tão intermináveis… O ápice do sagrado em nossas vidas.
Mas não é só na área da saúde que as filosofias orientais têm sido pesquisadas. A física, mãe de todas as ciências, também tem degustado seu néctar. Desde o advento da teoria da relatividade e da mecânica quântica, nosso mundo tem sido encarado de uma outra forma. Alguns eventos absolutamente previsíveis no macro mundo material não puderam ser reproduzidos em escalas muito pequenas, tais quais as encontradas nas partículas atômicas.

O resultado foi que os artigos científicos dos atuais físicos passaram a se assemelhar em muito com os antigos textos sagrados orientais. A semelhança foi tamanha que alguns cientistas de grande prestígio na física moderna, como Fritjof Capra e Amit Goswami, iniciaram belos trabalhos de comparação entre as leis que norteiam a mecânica quântica e os sutras budistas ou os upanixades védicos 4,9. Pelo visto, os antigos mestres sabiam mesmo do que estavam falando.
E por falar em antigos mestres, Sidarta Gautama, o Buda, me vem logo à cabeça. Gautama teria vivido na Índia, seis séculos antes de Cristo. De origem real, diz a lenda que abdicou de seu palácio e seus prazeres e partiu em busca do auto conhecimento. Anos de meditação e auto análise o teriam presenteado com a iluminação, termo usado pelos orientais para explicar um tipo de supra consciência atingida por aqueles que conseguem extinguir os pensamentos de suas mentes4, 5, 6, 9, 18, 19.
Pode parecer estranho para nós a frase “extinguir os pensamentos”. Contudo, não é de hoje que a neurofisilogia sabe que somos escravos de nossa mente. Tudo o que pensamos, acreditamos, ansiamos, etc, foi gravado em nossos cérebros15. Para cada novo conceito aprendido, milhares de células nervosas, os neurônios, se interconectam e tecem relações eletroquímicas que perduram por toda a vida. O que você é atualmente é fruto de todos os programas que foram gravados em seu cérebro, e aquilo que você chama de “eu”, nada mais é do que milhares de pensamentos desconexos competindo por um lugar em sua mente.
Será mesmo que somos nossos próprios senhores? Iludimo-nos rotineiramente com a falsa idéia de que pensamos, quando na realidade somos pensados o tempo todo. Vivemos com a cabeça no passado, lembrando da onda de ontem, dos amores pretéritos e da longínqua infância. Quando não habitamos o passado, antecipamos o futuro de forma caótica, imaginando a onda do amanhã, os futuros amores ou mesmo a temida velhice.
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Enquanto isso, o presente anseia por atenção, esforça-se em vão para que seja reconhecido como realidade. E esta é a nossa vida… Metade recordada do passado, metade imaginada no futuro… E quase nada no presente real.
Buda costumava afirmar que as pessoas não conhecem seu “eu” verdadeiro, pois são guiadas por falsas concepções da verdade, o que ele chamou de Maia (ilusão). Para o Budismo, assim como para a maioria dos tipos de yôga existentes, nada do que vivenciamos é permanente, a existência é repleta de sofrimentos produzidos pela ilusão dominante e o eu que tanto afirmamos, na realidade não existe.
Para obtermos uma verdadeira libertação desta vida ilusória, intrincados sistemas de averiguação da verdade foram desenvolvidos no oriente: controle das posturas corporais, total consciência dos ritmos respiratórios, concentração em um único objeto, para, finalmente, obter o último estágio, a meditação, que poderia ser definida como uma total quietude da mente, onde os incessantes fluxos de pensamentos seriam extintos, dando origem a um vácuo pleno de consciência, palco de apresentação da verdade mais íntima… Do contato com o divino… Este seria o Nirvana, o mais alto grau de percepção que um ser humano pode atingir 3, 19.
Como é bom estar presente! Vivenciar plenamente o momento atual! Mas, como isso é raro! Para nós, surfistas, resta ainda a esperança da onda solitária, do final de tarde bucólico, do sagrado free surf com os amigos mais íntimos, do sorriso sincero do companheiro ao te ver passar em êxtase na onda do dia… Sagrado seja o surf búdico de cada dia… Sagrada seja a divina meditação ondulacional dos reef breaks, dos point breaks ou da valinha nossa de cada dia… É, o surf é muito mais do que fama, grana, WCT e prestígio! Bem aventurados os que se apercebem desta suprema verdade.
Na meditação do surf, quase nada passa pela mente. Porém, diferente da meditação de Buda, onde a atenção plena está no presente, o surf clama por uma atenção estranha: na maioria das vezes o surfista mantém sua mente vazia, mesmo que por alguns ínfimos segundos, mas… No futuro! Dois ou três segundos à frente da realidade atual. A leitura da onda assim o pede… Precisamos saber o que acontecerá com a onda, mas não racionalizamos este fato, e sim o intuímos. E no balanço do mar, antecipando o futuro, deleitamo-nos com o presente.
As ciências da mente também têm se aproximado bastante das idéias centrais do Budismo. Renomados neurocientistas, como V.S. Ramachandran e Susan Blackmore, têm produzido fantásticos textos que, na maioria das vezes, convergem em direção ao âmago das questões mais relevantes da espiritualidade do homem. O improvável casamento entre a ciência e a religião começa a dar seus primeiros passos e uma nova era, repleta de significados, parece se descortinar diante de nossas faces1.9.

Em janeiro deste ano rumei para mais uma temporada em Puerto Escondido, no México. De fato, esta viagem não foi contemplada com ondas muito boas. Mas, Puerto é sempre Puerto. Fiz amizades, conheci pessoas fantásticas e meditei bastante também. Entretanto, o que mais me marcou nesta trip foi o fato que passo agora a relatar:
Em um dia de pequenas ondas, caminhei com duas recentes amigas australianas para o canto esquerdo da praia de Zicatella, a famosa La Punta. Meu objetivo era colocar as duas gurias em pé sobre um longboard. Caminhando pela praia, no meio do caminho, notamos inúmeras pessoas olhando para o mar, observando as evoluções de uma enorme tartaruga marinha. Imediatamente percebi que aquele comportamento não era normal e entrei com meu longboard para verificar o problema mais de perto.
Como eu imaginava, o pobre animal estava seriamente ferido na cabeça e lutava contra a arrebentação tentando voltar para o fundo e morrer em paz. Não hesitei e, colocando-o em cima de minha prancha, tentei afastá-lo o máximo que pude da arrebentação. Com o coração apertado, despedi-me com lágrimas nos olhos e voltei para a praia.
Fiquei com as meninas por umas duas horas em La Punta e, para minha surpresa, ao retornar pela areia para Zicatella, encontro minha amiga tartaruga estendida e rodeada por dezenas de turistas e pescadores curiosos. Isso ocorreu por volta das cinco horas da tarde. Abandonei minha prancha na areia, já imaginando como seriam minhas próximas horas. E foram muitas, quatro ao todo… Quatro horas que fiquei abraçado ao sublime gigante cascudo, tentando acalmá-lo, energizá-lo e protegê-lo dos curiosos. A noite caiu… Uma enorme lua cheia reinava suprema no céu mexicano e o gélido terral já lambia minhas costas… Com frio, extremamente cansado, mas feliz, decidi não abandonar minha amiga tartaruga e esperar o momento da mítica morte abraçá-la para somente então voltar para casa.

Lá pelas nove horas da noite, minha companheira levanta a cabeça e me fita fundo os olhos… Como que implorando um último pedido, solicita minha ajuda para que a recoloque em sua casa, o Oceano Pacífico. Trabalhamos duro em conjunto para cumprir a difícil tarefa, visto que o animal devia ter 150 quilos! Sem machucá-la, consegui colocá-la ao alcance das ondas, que em poucos segundos a transportaram para seu lar, onde deve ter morrido em paz. Jamais esquecerei esta cena! Caí de joelhos na noite, exausto, pensativo, envolto em uma tristeza reconfortante… Não somos nada, pensei… E levantando… Mudei de idéia… Somos tudo. Voltei para casa absolutamente exausto.
Na manhã seguinte, fui acordado por meu amigo Josil, de Ubatuba (grande surfista, diga-se de passagem, e grande amigo também!). Já passava das dez horas da manhã. Josil insistiu para que fossemos surfar, mesmo as ondas estando pequenas (um a dois metros, já com muito vento). Totalmente desencanado, apanhei uma pranchinha 6’6″ do Josil e caminhamos calmamente debaixo do sol escaldante do México. Quando chegamos na praia, os fotógrafos já se retiravam da areia e uma multidão de bodyboarders se aglomerava no outside. Josil olhou e com um sorriso maroto emendou: “Desanimador, muchacho!” Caímos por obrigação…
Uma vez no outside, resolvi ficar em um lugar onde não existia ninguém por perto, mas também não tinha onda… Bem em frente da bolha. Mas… Não é que veio uma?! E logo em minha primeira onda, um tubo de cinco, seis segundos! Seco! Minha segunda onda… Tubo! Seco! Terceira, quarta, quinta… Vivia um dia muito especial… Não entendi o que se passava até que pensei em minha querida amiga cascuda. Talvez seu espírito estivesse me presenteando.
Talvez a lei do Carma estivesse agindo… Vivi plenamente a continuidade de um dia repleto de serenidade, espiritualidade e convicção religiosa. Esses dias ficarão tatuados em minha alma por toda a eternidade.
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A fonte da compaixão e da benevolência tem aos poucos impregnado o coração dos ocidentais, e o nosso surf pode sim ser um dos inúmeros caminhos que levam a Deus. Um fato muito intrigante é o recém-sucesso de vendas de um monge budista tibetano, o Dalai Lama21.
Este mestre tem tocado profundamente o coração das pessoas, sejam elas religiosas ou céticas. Talvez, seu segredo seja a ausência de dogmas, a ausência de afirmações dotadas de arrogância e de verdades absolutas. Em resumo, suas palavras podem ser assim descritas:
Deus habita o seu interior… Deus manifesta-se nos seus pequenos atos do cotidiano… Basta percebê-lo em cada onda surfada, em cada sorriso amigo e em cada sagrada tartaruga que cruzar o seu caminho.
Paz
Referências Bibliográficas
1-Blackmore, Susan.- The Meme Machine. Oxford Press, 1999.
2-Blavatsky, Helena Petrovna.- A Doutrina Secreta – vol. 1. Cosmogênese – Ed.
Pensamento. São Paulo, 1973.
3-Boyer, Pascal.- Religion Explained. Basic Books. EUA, 2001.
4-Capra, Fritjof.- O Tao da Física. Cultrix. São Paulo, 1999.
5-Da Silva, Georges. & Homenko, Rita.- Budismo: Psicologia do Autoconhecimento – Ed.
Pensamento. São Paulo, 1998.
6-Das Surya, Lama.- O Despertar do Buda Interior – Sabedoria Tibetana para o
Ocidente. Rocco. Rio de Janeiro, 2001.
7-Finney, Ben & Houston, James.D. – Surfing, A History of Ancient Hawaiian Sport –
Pomegranate Artbooks. San Francisco, 1995.
8-Gaiarsa, J. A. Como Enfrentar a Velhice. Ícone. São Paulo, SP,
1986.
9-Goswami, Amit.- O Universo Autoconsciente. Rosa dos Tempos. Rio de Janeiro, 2001.
10-Heyerdahl, Thor. – A Expedição Kon-Tiki – José Olympio Editora. 7º Edição. Rio de
Janeiro, 1994.
11-Irwin, Willian. – The Matrix and Philosophy. Open Court. EUA, 2002.
12-Jammer, Max.- Einstein e a Religião. Contraponto. Rio de Janeiro, 2000.
13-Jung, Carl Gustav. O Homem e Seus Símbolos. Editora Nova Fronteira,
Rio de Janeiro, 1964.
14-Kampion, Drew & Brown, Bruce. – Stoked – uma história da cultura do surfe –
Benedikt Taschen Verlag Gmbh. First published by General Publishing Group, Inc. Los Angeles, 1998.
15-Lent, Roberto.- Cem Bilhões de Neurônios – Conceitos Fundamentais de
Neurociência. Atheneu. São Paulo, 2001.
16-Newberg, Andrew & D’Aquili, Eugene.- Why God Won’t Go Away. Ballantine Books.
EUA, 2001.
17-Ramachandran, V.S.- Fantasmas do Cérebro. Cia das Letras, 2002.
18-Spiro, Melford.- Buddhism and Society – A Great Tradition and Its Burmese
Vicissitudes. University of Califórnia Press, 1982.
19-Stevenson, Jay.- O Mais Completo Guia Sobre Filosofia Oriental. ARX. São Paulo,
2002.
20-Tse, Lao.- Tao Te King – Tradução e notas, Huberto Rohden. Alvorada. São Paulo,
1985.
21- Alguns dos títulos publicados no Brasil de Sua Santidade, o Dalai Lama:
Uma ética para o novo milênio. Editora Sextante
A arte da felicidade, um manual para a vida. Editora Martins Fontes
Minha terra, meu povo. Editora Palas Atenas
A arte de lidar com a raiva. Editora Campus
Transformando a mente. Editora Martins Fontes
O caminho da tranqüilidade. Editora Sextante
Vídeos
Sete anos no Tibete
Kundun
Compaixão no Exílio
O Ponto de Mutação
Gerry Lopez – 50 anos do rei de Pipeline – Cosmmos Produção Editorial e Romeu Andreatta Filho.
