Marcelo Andrade radicaliza nos bastidores

Após um ano de mandato como diretor-executivo da ABRASP (Associação Brasileira de Surf Profissional) – maior entidade do surf brasileiro, presidida por Pedro Müller -, o carioca Marcelo Andrade diz estar satisfeito com a repercussão obtida nos circuitos Super Trials e Super Surf.

 

No entanto, algumas mudanças serão feitas, principalmente nas competições regionais, proporcionando melhores condições para os surfistas de cada estado. Outra mudança significativa será no Super Trials, que além do aumento do nível de premiação, passa a chamar Brasil Tour.

 

Em relação ao circuito feminino, a única mudança ocorrida, porém significativa, será também o aumento de valores das premiações das etapas, assunto que as atletas sempre cogitavam nas reuniões. De acordo com Marcelo, um dos principais objetivos de sua equipe será a criação de uma melhor estrutura para todos os surfistas e a consequente evolução do surf brasileiro. Veja a seguir, os melhores trechos da entrevista exclusiva concedida ao Waves.Terra.

 

 

Faça uma avaliação dos circuitos Super Trials e Super Surf do ano passado e quais são as melhorias que a nova diretoria da ABRASP pretende executar?

 

O Super Surf do ano passado correspondeu as nossas expectativas. Todos os picos em que o circuito passou foram excelentes em relação às condições do mar, tivemos muita sorte. E a premiação, apesar de não ser por enquanto a ideal, o atleta campeão de cada etapa ganhou um automóvel, que é um valor significativo. Existem ajustes para ser feitos e o Super Surf de uma maneira geral é um circuito que se consolidou. Já tem um nome forte no mercado, sendo muito importante para o surf brasileiro. Estamos no caminho certo e superou nossas perspectivas se tornando um circuito já amadurecido.

 

Em relação ao Super Trials, achei necessária a mudança do circuito para Brasil Tour por acreditar que cada vez mais estava existindo uma acomodação dos patrocinadores em relação aos campeonatos com premiação no valor de R$ 15 mil reais. Ou seja, nesses eventos existem os mesmos números de atletas comparado com outras competições que tem um valor elevado de premiação.

 

Também tivemos a percepção de que os circuitos regionais estavam se deteriorando e em algumas regiões não existiam pela pura falta de apoio. Na minha concepção, existiam muitos defeitos no Super Trials para os surfistas e para a própria entidade. Além do que, é um circuito que não tem mídia nenhuma. Podemos observar que as pessoas não lembram quem foram os campeões dos eventos. O Renato Galvão foi o campeão do circuito em 2003 e não obteve nenhuma repercussão a respeito. Esses fatores e outros que acontecem fazem parte de uma realidade que não pode existir em uma divisão de acesso para a elite do surf brasileiro.

 

 Qual o principal objetivo para a criação de um novo circuito?

 

A idéia do Brasil Tour foi justamente fortalecer a segunda divisão, aumentar o nível de premiação. Já fechamos um programa com a Sportv, estamos fechando com a revista Fluir, a Rede Globo tem o compromisso conosco de cobrir os campeonatos. Ou seja, estamos buscando melhorar em todos os sentidos. Queremos iniciar uma nova caminhada de um novo produto que tende a amadurecer como o Super Surf. Não temos como precisar, mas pode levar 3 ou 4 anos para acontecer, mas achamos que é uma solução a curto prazo e estamos bastante confiantes nesse projeto.

 

Há alguns anos atrás, os circuitos regionais, como o carioca por exemplo, somavam pontos para o circuito brasileiro e nesse momento, esses circuitos quase não existem, e quando realizados, as etapas somam pontos para o Super Trials. Existe alguma nova medida para modificar essa situação, ou seja, buscar o fortalecimento dos circuitos regionais?

 

O circuito regional carioca, paulista e gaúcho estão fechados e estou muito feliz com os resultados. O circuito nordestino que já não existia e vinha sofrendo com a falta de apoio está praticamente fechado. Existem empresas que já me procuraram para fechar quatro etapas no Nordeste. Temos a intenção de fortalecer os circuitos regionais como o carioca que sempre obteve sucesso de público e mídia. Vários talentos são extraídos desses circuitos e temos como objetivo engrandecer mais essas competições. E se todas as estratégias e os planejamentos fossem concluídos, ou melhor, se conseguirmos o sucesso esperado dentro dos circuitos de cada estado, o surf brasileiro estará tendo melhores resultados em todos os sentidos para os próximos anos.

 

Alguns surfistas criaram uma certa polêmica em relação aos atletas que pertencem a outros estados e que participam dos circuitos regionais se tornando seus adversários na disputa pelos títulos; como exemplo, os nordestinos radicados no Rio de Janeiro. O que realmente aconteceu?

 

Os campeonatos estaduais são abertos apenas para os atletas de seus respectivos estados, apenas esses surfistas podem marcar pontos para o somatório final que define o campeão do circuito. A ABRASP não pode se envolver, já que quem coordena o circuito é a entidade de cada região. Posso citar como exemplo o Heitor Alves que é nordestino e está residindo no Rio de Janeiro há algum tempo e participando de todas as competições dentro e fora do estado. Sendo um dos melhores surfistas brasileiros, no ano passado se tornou campeão carioca por antecipação. Se estiver registrado dentro do estatuto da OSP (Organização dos Surfistas Profissionais) – entidade que tem o poder de organizar o circuito carioca; uma cláusula que tem como aprovar a presença de um atleta de outro estado nesse circuito já que ele é radicado nessa região, nenhuma pessoa poderá contestar o título.

 

Alguns surfistas reclamaram e criticaram essa circunstãncia dizendo que como o surfista pertence a outro local, o mesmo jamais poderia somar pontos na competição de outro estado. Se essa cláusula existir, nenhum surfista poderá confrontar a lei da entidade. O que a ABRASP está fazendo é buscar melhorar a situação desses atletas que procuram nos grandes centros urbanos uma melhor oportunidade. E alguns não tem uma condição de vida ideal, falta um patrocinador, moradia adequada, ou seja, uma estrutura padrão. Estamos tentando viabilizar um circuito mais forte para que esse surfista possa morar no seu estado de origem com condições viáveis e além de estudar, ele poderá ficar mais próximo de sua familia.

 

 Um dos grandes projetos realizados pela ABRASP foi a mudança dos critérios de julgamento, valorizando as manobras contemporâneas como os aéreos. Qual a sua opinião, já que alguns surfistas do Super Surf disseram estar sendo prejudicados com a nova mentalidade?

 

O critério de julgamento foi modificado para influenciar o atleta a arriscar as manobras. Notamos que como o julgamento era muito parecido de surfista para surfista, os atletas faziam aquela bateria com manobras sem grande impacto para agradar aos juízes e passar para a próxima fase. Eles faziam manobras radicais, mas nada que pudesse impressionar como um aéreo que tirasse toda a prancha da água e retornasse completando a onda. Para se chegar ao nível dos melhores surfistas do mundo e ter um campeão mundial, tem que ter uma educação mais rígida a ponto de melhorar a performance.

 

Tenho percebido que muitos atletas estão se sentindo prejudicados pela nova diretriz. Reconhecemos que os critérios estão muito rígidos, porém, é para o bem do surf brasileiro e estamos querendo que o nível do profissional que está participando dessas etapas, esteja próxima ou superior em comparação aos surfistas de outros países. Caso seja sua intenção, que esteja bem preparado para conseguir bons resultados nos circuitos internacionais como o WQS (World Qualifying Series) e WCT (World Championship Tour).

 

As surfistas sempre reclamaram do nível de premiação dos circuitos. Quais serão as principais modificações que serão realizadas para esse ano?

 

No final do ano, as surfistas resolveram que não queriam modificar nada em seus circuitos. A única modificação que ocorreu foi em relação aos eventos com premiação de R$ 5 mil reais que acabaram. Será de R$ 10 mil, R$ 15 mil e R$ 20 mil reais para o Brasil Tour. O crescimento do surf feminino é notado a cada dia e as empresas estão tendo outro conceito relacionado a esse fato e acreditamos que esse ano será melhor para as surfistas.

Alguns atletas da nova geração e também os que estão há bastante tempo competindo no Super Surf estão sem patrocínio. O empresário não está investindo ou o próprio mercado está desorganizado?

 

O surfista está a procura de dois mercados como futuro patrocinador: o de surfwear e o de fora do segmento. O primeiro está diminuindo cada vez mais, já que existem muitos surfistas para poucas empresas. E o segundo, são as empresas de fora do esporte que estão entrando no circuito. É muito difícil imaginar que a curto prazo essas empresas estarão patrocinando com exclusividade algum surfista, porém, já existem alguns exemplos. Em relação ao surf feminino, algumas empresas ainda interpretam com desconfiança seu crescimento. As empresas do surf que não tem uma linha feminina forte ainda não estão investindo em patrocínio de atletas.

 

E as empresas que possuem uma linha específica estão investindo nas grandes surfistas, as mais conhecidas, atletas com um currículo mais expressivo. O mercado além de competitivo está muito complicado. Está tão difícil para quem deseja vender os circuitos como para o atleta que está a procura de um patrocinador. As empresas usam muito a imagem do surf e investem pouco no mercado. Existe muita empresa de surfwear que não possui uma equipe e sequer um atleta. Notei também que a maioria dos eventos do ano passado válidos pelos Super Trials foi realizado apenas por uma empresa, mesmo sendo de pequeno porte. Empresas muito grandes estão deixando a desejar como investidores. Seja de qualquer porte, elas precisam investir em todos os setores. 

 

Empresas de fora do segmento estão direcionando seu marketing e investindo grandes quantias no esporte. O surf está se tornando uma potência publicitária e mercadológica ou as empresas de surfwear não estão direcionando suas atenções corretamente para o mercado?

 

Sinceramente, o surf está na moda e em um momento muito bom. É um esporte jovem com pessoas saudáveis em contato com a natureza, com um astral diferente dos outros segmentos. E todas essas empresas possuem características em seus produtos que possa atingir o público jovem, e o surf é um esporte que atinge esse público. Nosso litoral é extenso, o grau de desenvolvimento de aceitação daquele produto poderá ser enorme. Por exemplo, a Volkswagen criou o automóvel específico para os surfistas que é a Saveiro Super Surf, na verdade, esse carro sempre esteve ligado aos surfistas há muito tempo, é o carro da galera. A própria Tim possui um segmento jovem, a Nova Schin que realizou a etapa brasileira do circuito mundial em Florianópolis está percebendo um filão de mercado gigante e potencialmente capaz de consumir seus produtos. É muito importante para essas empresas possuirem uma identificação com os jovens e poder rejuvenescer sua própria identidade.

 

Quais serão os principais projetos da ABRASP para o ano de 2004?

 

Em 2003 seguimos a base do que estava sendo feito – da administração do Roberto Perdigão – foram realizados projetos excelentes e pegamos um processo bem positivo para administrar. Existiam pequenos detalhes para modificar, como exemplo, o julgamento, pois algumas pessoas estavam reclamando. Nos preocupamos em atender mais próximo os desejos dos atletas em geral. Seria injusto dizer que fizemos grandes feitos, na verdade, estamos dando continuidade ao trabalho já realizado.

 

Um dos objetivos é buscar o aumento da premiação para o Super Surf e conseguir efetivar o Brasil Tour buscando uma maior dignidade para o circuito e principalmente para os surfistas e sedimentar os circuitos regionais. Todo final de ano tem a reunião do conselho, e o que tenho feito é ouvir bastante a opinião dos surfistas e mesclar nossas idéias para chegar a um acordo que seja satisfatório para ambas as partes e que terá como resultado o surf brasileiro como vencedor. É o começo de um trabalho, estamos tentando implementar vários projetos e estamos sofrendo pressões de todos os lados, porém, acreditando que seja um novo caminho. Nossa intenção é realmente fazer com que o surf brasileiro possa crescer.

 

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