O australiano Jason Michael Gilbert, 41, radicado no Brasil há 10 anos é mestre em quiropraxia pela Macquarie University de Sidney, na Austrália. Há mais de uma década trabalha no circuito mundial e pelas suas mãos passam atletas do calibre de Kelly Slater, Taylor Knox, Jadson André, entre outros.
Responsável por um modelo de atendimento baseado em sua experiência de mais de 15 anos, ele especializou-se na prevenção e correção de problemas relacionados à coluna. Gilbert utiliza procedimentos únicos que proporcionam recuperação mais rápida aos atletas. Nesta entrevista, ele fala sobre o seu trabalho no Tour e a importância da quiropraxia para o tratamento de lesões relacionadas ao surf.
Você viaja com o Tour e está sempre próximo destes atletas. Quais são as lesões mais comuns?
Geralmente o que mais aparece pra mim são problemas na coluna. Junto com ela vem muitos problemas no quadril dos atletas. Pelo surf ser um esporte unilateral, sempre com uma perna atrás, existe um travamento da coluna e do quadril. Aí fica difícil soltá-los. Em segundo lugar vem a nuca, pois remamos muito e os músculos que juntam a coluna com a escápula são pequenos. Esses músculos travam facilmente e os atletas me procuram para soltá-los.
Quais as técnicas você usa para aliviar estes problemas?
Eu ajusto a articulação. Mas, pra fazer o ajuste e deixar o atleta mais flexível, utilizo uma técnica muscular desenvolvida por mim, além de outra, na qual forço o músculo a funcionar assistidamente, como se fosse um alongamento. Com isso, conseguimos soltar os ombros para remar melhor, bem como o quadril e o tronco para melhorar a rotação.
Você se sente responsável pelo desempenho dos atletas tratados por você. Quando o atleta está lesionado, perder ou vencer está um pouco em suas mãos?
Com certeza me sinto pressionado, internamente. Eu trabalhei em Bell’s e lá o Jadson machucou o ombro e não conseguia movê-lo. Pelo fato de trabalharmos atletas com lesões em estado agudo e, geralmente, eles querem surfar de qualquer jeito, temos que decidir rápido. Ou seja, a dúvida é se posso recuperá-lo naquele instante e deixar com que ele vá pra água ou se é melhor orientá-lo a não surfar, de modo que não agrave a lesão. Na Austrália queriam que o Jadson fizesse a ressonância, mas ele não fez. Tive que usar a minha experiência e intuição, pois trabalho com a ASP desde 1992.
Com as técnicas, consegui com que o Jadson voltasse pra bateria, com o movimento 90% melhor. Hoje, ele continua com a mesma lesão, mas não tão aguda e saiu de lá com bem menos dor. No Brasil, continuo o trabalho que fiz com ele em Bell’s. Por isso coloco em mim a responsabilidade do atleta ganhar ou perder. Às vezes o corpo decide se sim ou não, mas se você tem atletas como Jadson e Mineirinho nas mãos, sabe que eles têm total consciência do problema e farão de tudo para evitar que se agrave. Os dois são ótimos exemplos. Se peço para colocarem gelo, eles fazem. Outros não fariam. Geralmente, falta mais consciência para os mais novos, pois os experientes entendem o corpo melhor.
Você trabalha muito com o Kelly. Como é a relação na hora de tratar uma lesão ou usando técnicas de relaxamento?
Aprendi muito com o Kelly. Ele é uma pessoa que adora experimentar técnicas novas. Ou seja, ele deixa com que eu experimente várias coisas e depois me traz um feedback, dizendo se funcionou ou não. Ele tem uma mente mais aberta. Outros que se cuidam muito bem são Taylor Knox e Mick Fanning. Taylor tem um problema congênito e conhece muito bem o seu corpo. Entende muito do assunto.
Devido ao contato com os atletas profissionais, você mantém amizade ou limita-se ao tratamento?
A relação como os prós e com a ASP é ótima, somos uma familia, que viaja junta o tempo todo. Também sou surfista há mais de 30 anos e vivo em um ambiente que curto bastante. Então é um sonho surfar ao lado deles nos melhores picos do mundo. Com o tempo vamos criando mais intimidade e confiança. Por isso não estou tratando só um surfista profissional, mas um amigo que quero ver bem. Quero dar a minha energia pra que vençam e façam uma boa bateria.
Você é australiano, mas fala português perfeitamente pois vive há váarios anos no Brasil. Como é o seu relacionamento com os brasileiros dentro do Tour?
Muda muito com os brasileiros, cria uma afinidade muito maior. Torço para os brasileiros como se fosse para o meu país. É impressionante.
Qual lesão de atleta mais te marcou?
No ano passado, em Portugal, Taylor estava surfando e na hora de dar uma batida o leash enroscou em sua mão, fazendo-o cair no shore break. Pra proteger a cabeça ele puxou a mão, mas o leash impediu o movimento. Caiu de cabeça bem forte. Logo depois ele veio até mim e consegui recuperar a função dos movimentos. Por isso o ideal é tratar a lesão logo que ela aparece, pois deixá-la por muito tempo a torna crônica e o tratamento fica mais longo, ou até mesmo sem recuperação. Uma outra experiência foi com Owen Wright. No ano passado, quando ele estava com o joelho machucado, tentei fazer várias técnicas e com muita sorte ele conseguiu se recuperar, mas demorou.
Qual a dica você dá aos surfistas que querem evitar lesões?
Façam yoga ou pilates. A dica para surfar bem é estar forte e alongado. Nunca tome remédio pra apagar uma dor e poder surfar, pois você não vão sentir a lesão. Isso faz com que você adquira uma lesão sobre outra. Leve a sério caso se machuque, por mais simples que pareça. Às vezes a dor começa devagar e torna-se uma lesão bem crônica. O tratamento adequado é super importante. O corpo é muito inteligente, causa dor para a pessoa parar ou impedi-la de fazer a atividade que agravou o problema. Até reconhecer isso, continuará doendo. Causa até um problema psicológico, pois a pessoa acha que não vai surfar de novo. Então, eu diria para o surfista não aceitar qualquer lesão sem pesquisar sobre ela profundamente até achar o problema.


