
Incrível esta obsessão do ser humano por limites, ou melhor, extrapolar os limites. Desde o nascimento enfrentamos desafios e a vida nos coloca à prova nas mais diferentes situações. Além de nossa própria busca interior de expansão.
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Para um garoto magro e quieto na escola, nunca pensei em chegar a pegar ondas como as surfadas em vários mares pelo Brasil e mundo afora, principalmente em 1992, na minha temporada de estréia no Hawaii.
Na época, eu já havia rodado meio mundo fotografando e surfando ondas incríveis desde o Peru, aqui ao ?lado?, até à longínqua Indonésia. Mas no meu currículo faltava o Hawaii, como fotógrafo de surf seria inadmissível essa lacuna na carreira.
Como minha prioridade sempre foi desbravar países inóspitos e fora do circuito de campeonatos, Hawaii nunca havia sido uma prioridade. Mas, em novembro de 1992 apareceu a oportunidade de ir pela revista Inside durante a pré-temporada na ilha de Oahu.
Quando me dei conta, já estava no vôo para Honolulu e, até chegar ao North Shore, ainda passei uma pequena roubada, pois na ingenuidade e cansaço da viagem, estacionei o carro alugado diante de um hidrante em plena town, logo na minha primeira noite havaiana.
No dia seguinte estava sem carro, claro, havia sido guinchado!!!
Well, tive que botar a mão no bolso logo no primeiro dia de Hawaii pela multa, esta não era minha idéia. Mas as ondas me esperavam do outro lado de Oahu.
A visão da chegada em Haleiwa é maravilhosa, com as espumas brancas varrendo os outside reefs… A primeira visão de Waimea Bay, Pipeline, Sunset Beach…
Bom, foi aí mesmo que vivi um momento singular nestes quase 30 anos de surf (dezembro completo três décadas surfando em pranchas de fibra, fora cinco de isopor).
Quando o respeitado e superviajado fotógrafo australiano Peter Wilson (Joli), muito amigo de Bruno Alves (fundador da revista Fluir), falou que era difícil fotografar no Hawaii, achei que ele estava ?viajando?.
Mas, a real é que o North Shore pode ficar debaixo de chuvas e ventos on shore (maral) por semanas a fio. E fazer aquelas fotos maravilhosas que vemos nas revistas pode ser o resultado de apenas algumas horas em toda uma temporada!
Aquele ano foi exatamente assim. E cada imagem publicada na Inside foi garimpada uma a uma.
Meu lado surfista ficou liberado devido às más condições para trabalhar fotografando.
Estávamos hospedados na casa do renomado shaper carioca Heitor Fernandez, que reside há anos no Hawaii. Com a gente, praticamente sem ser notado e superdiscreto, o surfista-mito Tom Curren.
Eu vivia o mais intenso clima de inverno havaiano e as ondas sem baixar havia dias! Só que o sol não saía e depois de alguns dias surfando em Jockos, Chun?s Reef etc, meu desafio maior estava por vir.
Resolvi pegar emprestada uma prancha da casa do Heitor para dar uma checada em Sunset. Era uma gun 8? 2? do quiver do Tom Carroll, já que seu shaper também estava hospedado lá.
Brother, não acreditei no que estava acontecendo! Era como se estivesse em Mônaco, numa casa com o Ayrton Senna… e me emprestassem uma Ferrari pra dar uma volta!
O surf tem esta característica, você está muito perto dos ídolos e pode até estar ao lado deles na mesma ?pista? de treinos.
Munido com minha Ferrari de poliuretano, fui para a pista de Sunset. Meu chapa, o mar estava enorme e as séries fechavam o canal com Kamieland.
Nem sei o que deu na minha mente, mas estava remando pelo canal pela primeira vez em cima de uma 8?2? e num Sunset enorme e chuvoso.
Arrisquei dizer que estava uns 12 pés, quando encontro o Teco Padaratz saindo pelo canal. Perguntei pra ele que tamanho o mar estava e ele falou: 15 pés PLUS!!!
A correnteza me levou pro outside rapidinho e era tudo simplesmente incrível! Vi Tom Curren, vizinho de quarto, dropar uma montanha de oeste.
Eu nunca havia surfado naquela condição e achei que se ficasse mais pro inside poderia pegar umas ondas mais ?fáceis?.
My God, que inocência. Lá estava o novato Kelly Slater, um surfista que vinha com tudo nas competições. Comecei a ficar realmente adrenado quando tinha que remar pra fora pra não tomar uma onda na cabeça.
Pensei comigo mesmo, não posso sair daqui sem surfar uma onda! Então ela entrou só pra mim, pedindo pra dropá-la. Não precisaram mais que três remadas e quando vi, despencava de backside numa rampa íngreme: o bowl de Sunset!
Na saída, no canal, tive aquela sensação maravilhosa de conquista, um misto de adrenalina, e euforia.
Acabei voltando pro local onde me posicionei, consegui mais duas ondas bem parecidas e cheguei a arriscar um cutback numa seção.
Lá fora, Tom, Kelly e mais umas figuras bem conhecidas do power-surf
Já na areia, olhando pro outside tenebroso, agradeci a Deus por estar inteiro e por ter vivido minha maior experiência como surfista.
Guardo comigo essa lembrança até hoje e passei a valorizar ainda mais os destemidos surfistas, famosos ou anônimos que se atiram nas montanhas d?água.
Passei a ver o Hawaii realmente como a arena maior do surf e, graças a Deus e aos conselhos do Peter Wilson, consegui fazer uma bela cobertura da pré-temporada 92/93.
Aloha