
O final de ano na Gold Coast foi exatamente como esperado. Swell de baixa pressão atingindo a costa e fazendo Kirra bombar. Começo de ano com altas ondas e sinal de boa sorte.
A costa dourada entrou em festa com o feriado prolongado e todos os seres humanos que tinham um prancha em casa fizeram questão de comemorar da mesma forma: surfando as ondas do “Superbank”.
A bancada, que se estende por Snapper Rocks, passa por Greenmouth e termina em Kirra, leva este apelido por ser um trecho de mais de três quilômetros abençoado por Deus, que em dias de swell como este se transforma num playground gigante. “Aussies” fissurados e turistas do mundo todo lotam anualmente as areias e as ondas da Gold Coast nesta época do ano.
O primeiro dia de 2004 merece ser mencionado aqui. Com todo a minha experiência de viagens pelo mundo, este foi com certeza o dia mais crowd que eu já vi em toda minha vida num pico de surf. As ondas estavam em torno de dois metros. Um crowd de no mínimo 600 cabeças disputava as direitas que enroscavam sem parar na primeira manhã do ano. Superbank teve sua lotação esgotada.

Havia desde o grommet de 7 anos com o bodyboard de isopor no inside, passando pelo grommet de 12 anos com sua DHD 5’6 cheia de patrocínios, e a garota de quinze aprendendo a pegar onda. O garotão de 18 anos que já surfa direitinho, mas rema mais do que pega onda, junto com as feras nova geração australiana que valem por dois, passando pelos turistas de todo o lugar do mundo com seus tocos amarelados também pegavam as suas primeiras ondas do ano.
A massa brasileira faminta marcava presença juntamente com os coroas de pranchão, o caiaques passando por cima de quem não desse o joelhinho a tempo, adolescentes biritados na beira, bote vindo lá de fora na série e a velha geração australiana pegando tubos profundo mostravam que experiência é a alma do negocio. Para fechar o zoológico, Mick Fanning e Joel Parkinson vinham de tow-in em Kirra e davam show de surf. Cenário completo. Com certeza nao cabia mais ninguém. Todos saíram com a cabeça feita e muitos tubos abriram o ano novo.
Kirra, como sempre, foi um espetáculo à parte. As direitas explodiam com toda a força na bancada de areia rasa, com tubos e mais tubos inesquecíveis dando início a mais um verão em grande estilo. Este foi meu último dia em Kirra. Missão cumprida. Depois de muito estudo e rolo de filme queimado, terminei meu Mestrado em “Film and TV” (cinema).

Ação! Lembro do meu primeiro tubo em Burleigh Heads, minha casa por todo esse tempo. Os dias de correria depois da aula para o surf em Duranbah. As dificuldades diárias de morar sozinho. Os dias clássicos nos beach-breaks de Mermaid Beach até StradieBroke Island. O carro 81 que só abria uma porta e não funcionava em dia de chuva. Muitas e muitas ondas em Lennox Heads, amor eterno. O festival de Blues com sons inesqueciveis, noites de êxtase.
West Australia foi um “take” á parte. Uma viagem incrível para um lugar muito diferente de tudo que eu já tinha visto, ondas de muito potencial, nota dez. Voltando à Gold Coast, o dia-a-dia nas cozinhas, muita lavação de louça para levantar um trocado. As roubadas por ser estrangeiro. Na época da seca de ondas, a busca. O verdadeiro espírito do surf me levou para uma esquerda num paraíso de direitas.
A estressante burocracia nas horas de renovar o visto australiano. O passaporte para mais um tempinho na terra da fantasia. Picos e mais picos surfados sem ninguém e vários bem crowdeados. Fugir do crowd e a busca do tubo são uma constante na Austrália. O surf noturno foi a solução. Iluminado pela lua vi a Gold Coast no escuro. Surf puro.
Nimbim, a cidade parada no tempo causou polêmica no Waves, mas para mim foi mais uma experiência linda de mais uma cultura nova que vive aqui neste sonho australiano. Cangurus e Koalas se tornaram animais comuns no meu cotidiano.

Road trips ditaram a regra do surf na minha estadia e um dos picos mais vistados pela barcas que fiz foi Angouire. Especial, beleza exuberante, perfeição.Vivenciei um pouco de tudo aqui nesta gigante ilha do surf chamado Austrália. Surfei a costa toda até Sidney. Centro do país e do surf também, cidade especial, me fez voltar mais uma vez. Boas ondas e modelo de cidade grande.
Fiz snowboard nas montanhas de neve no sul do país, conheci a vizinha Nova Zelândia com meus pais, matando saudades depois do primeiro ano de curso. Dois verões, um WCT, muitas e muitas festas. Noitadas no primeiro ano e um amor de verdade no segundo. Desfrutei com ela o verdadeiro “juice” australiano, que não me esquecerei jamais. Conheci as mais incríveis pessoas numa faculdade internacional. Fiz amigos inesquecíveis na casa em que morei, onde todo dia era domingo. A Terra do Nunca em Burleigh Heads. Corta!
Agradeço a todos do Waves.Terra por terem me dado a chance de reproduzir com palavras um pouco das minhas aventuras, aos leitores de todo o Brasil que prestigiaram minhas histórias e mandaram mensagens constantemente. Agradeço principalmente aos meus pais, que me deram a maior força do mundo neste desafio. Amanhã finalmente é Segunda-feira para mim. Hora de acordar.
Boas ondas em 2004.
Veja a galeria de fotos da temporada de Vitor Froimtchuk na Austrália.
Lista das cinco melhores ondas australianas na preferência do autor:
1 The Box
2 Lennox Heads
3 Burleigh Heads
4 Kirra
5 Angourie Point