Surf seco

Localismo virtual

Escrever para uma revista é bem diferente do que escrever para um site. O fórum aqui é coisa de louco. É como surfar num pico cheio de locais ‘linguarudos’, você tem que estar preparado para momentos de hostilidade a todo instante…

 

Tirando esta conclusão, estarei botando pra baixo nas próximas linhas, em cima da bancada, na maré vazia e na primeira da série… “Ladrão”.

 

Localismo é um tema comum, mas é um comportamento freqüente dentro do surf. Os mais espertos e viajados percebem logo como lidar e tirar de letra esse obstáculo, que sempre aparece no line-up ou no estacionamento em frente ao pico.

 

Todo mundo que costuma surfar num mesmo pico cria um ‘carinho’ especial pelo lugar, e esse sentimento amoroso é sempre acompanhado do sentimento de ‘posse’.

 

Quando um ‘local’ (freqüentador assíduo ou residente) de algum pico sente-se invadido ou desrespeitado, aí o bicho pega. Se o forasteiro tiver a ‘malandragem’ e souber lidar com a situação, ele vai saber respeitar e ser respeitado. A pior coisa para um encrenqueiro é não ter um motivo para encrencar.

 

O bom forasteiro sabe quem não perturbar. No Brasil, Hawaii, Austrália, Califórnia e outros picos pelo mundo, sempre existirão os locais. Quando estes surfam bem, é normal que peguem sempre as melhores ondas. Existe então dois tipos de locais, ao meu ver.

 

O primeiro é aquele que constrói uma reputação e ganha o respeito através de atitudes positivas, como pegar as melhores ondas, não rabear ninguém, saber esperar sua vez e quebrar a onda, seja manobrando ou entubando.

 

Com essas atitudes, em casa, ninguém vai querer perturbá-lo. Uma porque o respeito gerado (ainda que inconsciente) se torna um escudo, e segundo porque ali ele é conhecido e admirado por todos. Em outras águas, também não terá motivos para arrumar inimizades com outros locais, além de ficar mais fácil arrumar amigos cascas-grossa mundo afora.
O segundo tipo de local é aquele que, traduzido da ‘gringolândia’ (ABOG), são conhecidos como ‘buraco de cú’ (asshole), ou simplesmente ‘cuzões’.

Esses são os piores seres para se lidar. A maioria já fumou tanta maconha que perdeu o ‘critério’. Geralmente são fracassados, seja no ato de surfar, consigo mesmo, com a família, no namoro, no casamento, com os amigos ou com a própria vida, e têm esse tipo de implicância com o próximo.

 

Eles têm um problema pessoal sério. Não podem ver ninguém brilhando. São ‘linguarudos’. É fato consumado do lado podre do humano. Esses problemáticos, quando estão incorporados de ‘locais’ e enxergam um forasteiro surfando bem em seu território, meu irmão, o cara vira bicho…

 

O primeiro sentimento é tentar dar uma rabeada no ‘haole’, só pra mostrar quem é que manda ali. Depois vai esperar o cara olhar na sua direção pra começar a ‘pagar’. O pior é que em todo o lugar (não só no mar) você vai encontrar um cara desses, local do tipo ‘asshole’.

No Hawaii, por exemplo, existem vários locais do tipo ‘casca-grossa’. Estes, quando estão surfando Backdoor ou outro pico de alta qualidade, dominam a ‘Disneylândia’.

No Brasil o localismo era muito pior na época tribal dos remotos anos 70.

 

Evoluiu, mas ainda rola, principalmente em picos como Arpoador, Joaquina, Astúrias, Maresias, Maluf, Quebra-Mar, Monduba, Itamambuca, Itaúna, Silveira, Titanzinho, Stela-Maris, Prainha, Matinhos, Torres, Serrambi, Francês, Paracurú…

 

Em todos eles (e outros não citados, mas não esquecidos), sempre haverá os locais. Alguns, (os piores) em vinte anos, se modernizaram. Talvez seja por causa da profissionalização e da globalização do esporte. Hoje a maioria dos locais (inteligentes) tira proveito das informações e técnicas que surfistas de outras regiões trazem, absorvendo o que eles têm de bom.

Um dos piores localismos do Brasil nos anos 70 rolava em Itajaí, Santa Catarina, no pico de Atalaia. Tirando um campeonato em 1976, onde Jefferson Cardoso e Paulo Tendas venceram, eu nunca mais ouvi falar de lá. É certo que o pico ficou esquecido por causa das histórias de localismo extremo e ignorância e violência.

 

Altas ondas rolando e nenhuma inovação na performance local foi adicionada ao longo dos anos, por causa do repúdio aos surfistas forasteiros e o conseqüente bloqueio da evolução.

 

Conclusão: nenhum surfista de nível profissional surgiu de Atalaia desde os anos 70 – bom para os locais que não saem dali, péssimo para um garoto que poderia até fazer carreira no esporte.

 

Esse é o preço. Escutei este relato de um surfista de lá, consciente do atraso que o localismo radical trouxe para o surf daquela comunidade. Moral da história: aquele ignorante da sua praia que paga uma de “fodão” é que está atrasando o lado de muitos que estão a fim de evoluir na vida…

 

Aloha!

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