Há muito observo e tento entender o localismo. Em primeiro lugar é difícil imaginar um conceito que defina de forma real, qual o propósito deste movimento tão comum nas cidades litorâneas frequentadas por surfistas em todo o mundo?
Alguém saberia me dizer? Não? Então, fui pesquisar o sentido real da palavra. Localismo vem do latim “lócus; loci”, que significa lugar (óbvio). Tá! Até aí, nada de novo. Mas, que está relacionado também à palavra grega “lojos”, que tem como significado emboscada (pequeno grupo de soldados apostados em um lugar).
No dicionário essencial da língua portuguesa, localismo significa defesa dos interesses locais. Então, chego a uma conclusão clara e significativa de localismo: pequeno grupo de soldados apostados em um lugar, em defesa dos interesses locais. Esta é a essência do localismo.
O que vemos hoje nas praias do mundo são “surfistas”, muitas vezes sem nenhum compromisso com interesses locais, se apostarem como soldados no mar em defesa de interesses próprios: o de pegar onda sozinho ou com a sua patota.
Ridículo! Um comportamento equivocado, copiado de um modelo arcaico, pelo qual o indivíduo primitivo identifica os intrusos de suas terras e toma medidas violentas para afastar o que poderá vir a ser uma ameaça ao domínio do local.
No entanto, estamos em outros tempos e não podemos mais nos portar como cães, que urinam nos cantos para demarcar território.
O localismo é um movimento positivo e que deve se portar como tal, defendendo os interesses da preservação do lugar, com ações legais de coibir e punir somente atitudes ameaçadoras, que provoquem a poluição do ambiente e do mar, o desmatamento das matas silvestres, a extinção dos animais, que respeite e defenda o período de pesca para os pescadores nativos e sua subsistência e, por fim, encontre um meio inteligente e também legal para o controle efetivo do crowd, sem violência.
Em Fernando de Noronha, por exemplo, o localismo é institucionalizado. Os turistas que visitam a ilha pagam uma taxa de permanência. O valor arrecadado é revertido para programas de preservação da ilha. Lá também, o volume de informações divulgadas aos turistas, quanto às regras de defesa dos interesses locais, é ostensivo.
Desde o momento da chegada, quando imediatamente são conduzidos para uma palestra sobre a ilha e seus valores, ao acompanhamento contínuo de guias locais, altamente treinados para orientação sobre o comportamento adequado e exemplar de um visitante a um paraíso natural, suas regras, curiosidades próprias e principalmente, cuidados a serem tomados com a natureza durante a estada.
É óbvio que o controle de uma ilha é muito mais fácil, mas devemos tomar como exemplo para adequar às necessidades de nossa localidade. Existem outros exemplos também de lugares que tomam medidas para preservação do patrimônio ambiental local.
E não precisamos ir muito longe. Na Ilha dos Lobos, em frente à cidade de Torres, litoral norte do Rio Grande do Sul, divisa com Santa Catarina, onde recentemente surfistas descobriram mais um local para a prática do tow-in, foram tomadas medidas de redução do uso de jet-ski próximo à ilha. A medida, tomada em comum acordo entre surfistas e entidades locais, teve como objetivo não perturbar a paz dos lobos-marinhos que lá residem.
A evolução do localismo, apesar de latente, existe, se considerarmos seu verdadeiro significado. De ordem primitiva e humana, ele só é natural naqueles lugares longínquos, inóspitos, isolados e que prevalecem as regras de seus descobridores.
Apesar de achar que o fato do descobrimento não delega posse a ninguém. Se fosse assim, estaríamos sob o comando de Portugal até hoje.
O fato é que, aquela figura estereotipada do surfista “das antigas”, que está sempre em busca da onda perfeita, de que é um nômade solitário, detesta o crowd, vive ao maior estilo paz e amor, se alimenta de comidas saudáveis e pensa que todos os demais praticantes, admiradores ou apreciadores do surf, que debandam para o litoral são um bando de “haoles” (otários indesejados), que devem ser banidos das praias, é coisa do passado.
Estes, deveriam saber que a horizontalização do surf, a sua divulgação e exposição na mídia, assim como sua crescente participação econômica, só ajuda aos profissionais que vivem deste esporte, o que inclui fabricantes de pranchas, de roupas de borracha, entre patrocinadores e de toda a comunidade profissional do surf, a trabalharem de forma inteligente e com visão do todo, para desenvolver ações inteligentes na defesa de interesses de preservação dos locais onde as ondas quebram.
O estereótipo do surfista sem cérebro e com um pensamento único e romântico das suas ondas sem pensar no todo, é um retrato da alienação. Quem vive de passado é museu. Vejam iniciativas como as de Teco Padaratz, na promoção do esporte no estado de Santa Catarina, suas realizações no incentivo à prática do surf por crianças e da organização cada vez maior da comunidade do surf em prol de suas maiores causas, entre elas a preservação do meio ambiente e do mar. Estes exemplos identificam um verdadeiro local.
O localismo, enfim, é um assunto para pensar de forma consciente. Ele deve existir, mas só é legal se agir visando o interesse coletivo da localidade na defesa contra atitudes hostis e ameaçadoras. Deixo aqui, então, a frase de indignação de um surfista franzino e invocado, mas guerreiro e defensor do maior espírito do surf, antes de ser massacrado por um grupo de locais num pico famoso do litoral catarinense: local de mar pra mim é pedra.
Minha esperança está na próxima geração. Feliz 2013!!!!
Para ler mais textos do autor, visite o blog Ary Filgueiras.