“De repente sinto na minha perna um puxão forte para baixo e algo que fincava nela como se fossem unhas afiadas. Eu gritei antes de olhar e pensei que só poderia ser mais uma dessas brincadeiras que o pessoal prega fingindo ser tubarão”.
O capítulo “O Encontro”, do livro “O olhar da vítima” (Editora Matrix, São Paulo, 2013), de Carlos Fred Martins, é o mais esperado. Por mais que se queira evitar essa obviedade, quem mais poderia descrever com precisão cirúrgica – com licença ao trocadilho – o que sente uma pessoa ao ser mordida por um tubarão, senão a própria vítima.
E este é o maior mérito da obra da décima primeira vítima de ataque de tubarão no Recife (PE). O livro levar o leitor ao momento exato do ataque e o sofrimento posterior durante o tratamento no hospital e a readaptação à nova vida sem um membro do corpo.
A obra foi lançada em Recife, no último dia 9 de novembro, na livraria Cultura do Shopping Rio Mar, que fica a cerca de dez quilômetros da praia do Acaiaca, local da ocorrência em 1994.
Carlos Fred Martins tinha 15 anos e era apenas mais um dos quase cinquenta surfistas no mar naquela tarde fatídica de 24 de julho. “O sol já tinha desaparecido por trás dos edifícios da Avenida Boa Viagem. Sentado em minha prancha Alamoa, com as duas pernas submersas, estava no aguardo da minha última onda”.
A preparação para a “cena do crime”, que começa na página 57, tem o desfecho na página 60 e continua, dramaticamente, até a página 72.
“A força do tubarão era impressionante e, depois de alguns segundos, com meu pé esquerdo dentro da sua boca, o animal, finalmente, fecha a mandíbula, arrancando meu pé. Com as pernas levantadas e ainda remando em direção à margem, olhei para trás e vi o estrago feito pelo violento ataque. Meu pé já não estava mais ali e apareceria dias depois boiando na praia do Pina, uns seis quilômetros ao sul”.
Carlos Frederico Martins é pernambucano, tem agora 34 anos e mora em Brasília (DF) por motivo de trabalho.
No meu livro “Mitos e verdades sobre os ataques de tubarões no Recife” (Vedas Edições, Recife, 2013) ele explica sobre as consequências: “O trauma físico foi o meu pé arrancado. Psicológico nenhum. Afetar a vida profissional sim, pois passei em um concurso como deficiente físico”.
Ele ratifica em seu próprio livro o quanto é bem resolvido: “Sim, eu sou vítima de um ataque violento de tubarão e defensor destes animais. Como diria a ala radical do Recife, um Shark Lover, com muito orgulho (página 129)”.
Em outro parágrafo ele afirma: “Somos seres humanos e, por vezes, deixamos a emoção tomar conta de nossas atitudes, mas temos que ter consciência de nossas ações, seus impactos e consequências, para que não causemos ainda mais problemas” (página 128).
Quando afirmações desta natureza vêm de alguém que passou pelo incidente e, literalmente, sentiu na própria carne e no corpo os efeitos de uma mordida de tubarão, merece respeito e credibilidade. A obra literária de Carlos Fred Martins traz um relato sincero, humilde e generoso para o debate sobre a questão dos ataques de tubarões na costa urbana do Recife. O livro amplia o debate e mostra que nutrir ódio pelos tubarões agressivos é um caminho que não leva às soluções concretas.
“O olhar da vítima” é o segundo livro publicado este ano sobre o assunto. Como autor do primeiro livro desta temática e que traz Fred Martins numa entrevista, onde ele já mostrava equilíbrio em suas respostas, sinto-me feliz em poder desejar-lhe boa sorte e sucesso editorial. Espero que outras publicações como as nossas venham ajudar a sociedade a entender melhor o assunto e contribuir para reduzir o alarmismo que, infelizmente, uma minoria empenha-se em disseminar.