Quero liberdade!

Posso?

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Gabriel Sodré, México. Todos deveríamos ser livres para surfar a qualquer momento. Foto: Arquivo pessoal

Abu Jayyab é um surfista palestino. Ele já surfava há nove anos, dividindo as ondas da faixa de Gaza com o amigo Abu Haserah, quando, em 2007, recebeu a visita do lendário Dorian “Doc” Paskowitz. O patriarca do clan Paskowitz, que veio a falecer aos 93 anos, em novembro de 2014 e que dedicou sua vida ao surf e à liberdade, tinha lido um artigo numa revista americana sobre os dois moradores de um campo de refugiados que insistiam em surfar numa das áreas mais conflituosas do planeta a bordo de uma velha prancha. Doc, um médico americano de origem judaica, então com 87 anos de idade, decidiu que iria levar pranchas novas para os dois.

Casado, pais de três filhos, desempregado aos 33 anos, Abu Jayyab utilizava a velha prancha também para auxiliar nas pescarias que garantiam o alimento da família. Mas sua principal função era mesmo a de permitir que ele escapasse, ainda que apenas temporariamente durante suas sessões de surf, da pesada realidade em que vive: “Surfar permite que eu experimente o sabor da verdadeira liberdade. Nós moramos em Gaza. É uma grande prisão. Enfrentamos cercos, ocupações, cortes de eletricidade, pobreza. O surf me permite respirar, esquecer as preocupações e dores”.

Quando o soldado responsável pelo posto fronteiriço entre Israel e Gaza proibiu a passagem de Doc e dos voluntários do programa Surf for Peace que o acompanhavam, trazendo 15 pranchas a serem doadas para os surfistas locais do campo de refugiados, a solução encontrada foi um beijo. Doc avançou para cima do soldado e disse: “Eu viajei 12 500 km desde os Estados Unidos até a fronteira de Gaza. Você não vai me impedir de ver estes homens quando eu estou a apenas 15 m deles”. Como o soldado permaneceu impassível, Doc o agarrou e tascou um beijo no sujeito, que reagiu gritando “não me abrace, não me abrace, eu sou um soldado”.

A ameaça de amizade acabou surtindo efeito, abrindo o coração do soldado e a passagem pela fronteira. Depois de duas horas Doc finalmente encontrou Abu Haserah e Abu Jayyah esperando pacientemente do outro lado. “Nos sentimos privilegiados por ter conhecido um homem como ele”, disse Abu Jayyah. (Este episódio foi recontado aqui a partir de uma reportagem de Mohammed Omer publicada na revista semanal de atualidades inglesa NewStatesman)

Você já parou pra pensar o que liberdade significa para um surfista? Não seria o máximo da liberdade poder surfar a hora que quiser, onde quiser, com quem quiser, como quiser, na prancha que quiser, a onda que quiser?

Um amigo um dia me disse, “se é para entrar no mar com hora marcada pra sair, prefiro nem entrar”. Será que ele não estava sendo radical demais? Talvez, mas imagina pedir uma meia liberdade, meia marguerita. Não dá, né? Justamente porque a liberdade não é uma pizza. Mas não vá achando que os surfistas sempre carregaram a bandeira da liberdade de maneira política, consciente, proposital. Liberdade sempre serviu para pegar mais ondas, e ponto.

Enquanto esporte competitivo, o surf é repleto de regras que se chocam de frente com qualquer noção de liberdade: para ser vitorioso é obrigatório manobrar ao gosto dos juízes dentro de um espaço físico e temporal limitado. Acabou a bateria tem que sair do mar, pegou onda fora da área de competição não vale nada. E se cair de biquilha, monoquilha, sem quilha, ou com qualquer prancha meio diferente vai ser questionado, mesmo que seja o 11x campeão mundial.

 

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Prancha Kelly Slater, o americano sempre gostou de inovar durante sua carreira. Foto: Divulgação

Experimente chegar à praia ouvindo ópera, cair no mar de sunga, pedir pra experimentar o bodyboard da sua namorada: “tá na cara que você não é surfista, ou pelo menos não de verdade”. Verdade? O que é verdade e o que é mentira? Obviamente liberdade e preconceito não combinam, mas vai explicar isso para certos surfistas, muitos deles formadores de opinião, pastores de ovelhas neste marzão que nos abençoa a todos, sem distinção de cor, raça, credo, nacionalidade, sobrenome, conta bancária, habilidade nas ondas etc. e tal.

Então vamos voltar um pouco no tempo. Estamos no final dos anos 60, começo dos anos 70. Ser surfista na Califórnia, o centro comportamental do universo surf, era sinônimo de rebeldia, do desejo de libertação de uma sociedade opressora, capitalista, militarista, apocalíptica. Cair na estrada, viver em comunidade, abandonar a universidade, fugir do recrutamento para a guerra do Vietnã, experimentar drogas alucinógenas, praticar o sexo livre era a ordem do dia. Os pranchões viravam pranchinhas, a mente se expandia dentro do tubo e nas viagens, lisérgicas e à procura de novas ondas. Ganhar dinheiro não era importante, viver sim. Na trilha sonora, muito Jimmy Hendrix, Led Zeppelin, Santana, The Who, Rolling Stones…

E de repente chegaram os anos 80 com o império do néon. As retinas, agredidas sem dó, sobre os narizes cheios de pó, eram protegidas por pedaços de plástico pretensamente futurísticos. As premiações explodiram, os egos extrapolaram, o Circuito Mundial tornou-se uma realidade. O surf metamorfoseava-se em profissão, com suas obrigações e recompensas. Rolaram as primeiras sessões de autógrafos em shopping centers suburbanos. E se um swell estivesse rolando? Foda-se.

Mas fala aí, o que é mais legal do que ser milionário? Ter o bolso cheio de dinheiro sempre foi meio caminho andado para a liberdade. Poder fazer o que quiser na hora que quiser, do jeito que quiser… Desde que a porta do carro blindado não trave ao menor sinal de uma ameaça e os seguranças autorizem o rolê vigiado.

E a fama, a doce fama, a glória, as mulheres, os convites VIP… A impossibilidade de aparecer em público sem ser perturbado por um monte de gente pedindo um autógrafo, uma foto, um aperto de mão, uma casquinha qualquer.

Já reparou que o Kelly, mesmo com tantos anos de carreira, vem ao Brasil e não pode nem sair na rua, tem que ficar escondido? E que o Rob Machado não escapa de ter que dar autógrafos nem em Macchu Pichu?

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Kelly Slater no WCT do Brasil. Foto: Sebastian Rojas

E se eu não gostar de areia entre os dedos do pé, ainda assim posso ser surfista? E se eu preferir ir ao teatro do que assistir ao último DVD do Taylor Steele?

E se eu não quiser surfar hoje, posso? Mesmo que esteja bombando? E se eu quiser plantar bananeira pros juízes?

Claro que ganhar campeonatos pode ser um meio e não um fim. Com o teto e o rango garantido, além das montanhas de roupas, fica muito mais fácil para o artista se expressar. Com fome a arte corre o risco de tomar um caldo forte demais.

Agora, convenhamos, artista usando roupa só de uma marca todos os dias da semana, do mês, do ano, do contrato, é meio estranho, você não acha? Aliás, você usaria só uma marca podendo usar várias? Pô, mas e seu eu for bem pago? Ah, então tá, mas, já que estamos falando de liberdade, fica aqui uma outra pergunta, você já experimentou surfar pelado?

Veja só, os animais selvagens, que são seres livres por natureza, não usam roupa. E tanta gente preocupada com a última moda.

Ser surfista não é fácil. Ser livre muito menos. Mas tem quem saiba ser os dois com muito estilo. Gosto de pensar em Paul, o Mister Desert, mestre dos tubos em Desert Point, na Indonésia, como alguém que teve a coragem de escolher a liberdade como valor supremo. Se ele abdicou de muitas coisas para isso? Claro que sim. Ninguém é livre impunemente. Mas pode ter certeza de que ninguém entubou tanto quanto ele na história da humanidade.

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Mr Desert, Desert Point, Lombok, Indonésia Foto: Douglas Cominski / Shotspot.com.br

Nem tem o que discutir, é muito mais fácil ser livre sozinho do que em grupo. A princípio, o surf é um atividade solitária, até mesmo egoísta. Isso resultou em que fôssemos reconhecidos por nosso individualismo, nossa capacidade de pensar de maneira original, de criar nossos próprios caminhos, nosso mundo particular, com seus valores próprios.

Liberdade para pensar fora dos padrões sempre foi um atributo de ser surfista. Daí que a noção de tribo, onde todos se comportam da mesma maneira, quando aplicada aos surfistas, não deveria significar nada mais do que uma constatação de hábitos similares, sem cacique nem pajé baixando ordens. Mas o que não falta hoje em dia no surf é cacique marketeiro querendo impor à indiarada qual prancha deve ser usada, qual onda deve ser surfada, qual manobra deve ser feita, qual calção deve ser comprado, qual música deve ser escutada…

Liberdade não se compra, liberdade não se vende. Antes de tudo, liberdade é um estado mental. A foto de uma onda perfeita numa revista de surf folheada por um prisioneiro pode libertá-lo de sua cela, assim como a derrota numa bateria pode aprisionar um surfista livrinho da silva em sua frustração.

 

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Tito Rosemberg no Marrocos – The Far Shore Foto:Reprodução

Pais, escola, trabalho, mulher, filhos, contas a pagar… Tem momentos em que tudo aparenta conspirar contra. Mas quando a oportunidade surge, nada é mais real do que a sensação de liberdade que pegar uma prancha e correr pro mar proporciona.

O segredo daqueles que se dizem livres, que se sentem livres, parece estar no equilíbrio, no balanço, no saldo positivo. Em continuar fluindo sempre na direção da liberdade imaginada. Quem não flui não avança. Quem não avança não se liberta. Liberdade é fluir.

SURF E SABERDORIA

 

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A lendária família Paskowitz, em 1976. Todas as nove crianças foram criadas e educadas pelos pais Doc e Juliette nessa van. Foto: Arquivo pessoal

 

O saudoso Dorian “Doc” Paskowitz foi um extremista durante sua longa vida. Nascido numa família judia em Galveston, no Texas, ele se formou médico em Stanford, uma das mais conceituadas universidades americanas, para depois negar veementemente a seus nove filhos uma educação formal. Apontando escolas como lugares mais perigosos do que um mar com tubarões, ele apregoava que a vida na estrada traria a eles algo muito mais importante que o conhecimento, a sabedoria. Junto com sua terceira mulher, Julliette, Doc criou a família vagando durante 25 anos de praia em praia numa apertada “motorhome”, desprezando bens materiais e enaltecendo os benefícios de uma alimentação balanceada e muito surf para garantir uma vida saudável. Figura lendária na Califórnia, onde ficou conhecido, entre outros feitos, por ter introduzido o surf em Israel na década de 50 e criado o surf camp mais antigo dos Estados Unidos, para ele liberdade é tão essencial quanto oxigênio. Sua trajetória em 93 anos muito bem vividos foi documentada no premiado filme Surfwise, de 2007, que não pode deixar de ser visto por quem quiser saber mais sobre tão inspirador personagem. Está tudo lá, desde o questionamento de alguns de seus filhos, que não hesitam em afirmar que o estilo de vida alternativo do pai os deixou mal preparados para a vida em sociedade, até a generosidade de um homem que se recusou a ganhar dinheiro com a medicina, pois “não seria capaz de enriquecer às custas da vida de pessoas doentes”. Em vez disso, ele preferiu ir pegar onda com a família num surfari sem fim, ajudando de graça quem ele encontrasse no caminho.

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