Você pode estar perguntando, “mas para derrotar um adversário os maiores surfistas não tem que se superar?” Muitas vezes sim, mas não necessariamente sempre. O que ocorre é que o objetivo principal de um surfista disputando uma bateria tem que ser derrotar seu adversário, e toda vez que ele se desvia desse foco aumenta o risco de falhar como competidor. Neste sentido, a vontade que ele possa ter de se concentrar em elevar o nível de performance, e consequentemente do espetáculo, tem que ficar em segundo plano. Ao menos nos moldes em que os campeonatos são atualmente disputados.
Basta ver os resultados competitivos de surfistas como o havaiano John John Florence e o californiano Dane Reynolds, costumeiramente distantes de suas reputações como os mais ousados/inovadores surfistas da atualidade. Isso porque eles entram numa bateria querendo fazer algo que ninguém nunca fez, e acabam se auto prejudicando. A atitude não conformista deles destoa de uma ambiente em que, devido às suas restrições regimentais, não se incentiva o experimentalismo fundamental para o processo evolutivo do surf.
Qual o melhor combustível para a alta performance? A necessidade de fazer aquele décimo a mais num nove alto para derrotar o adversário ou o desafio pessoal de ir além do seu próprio limite numa sessão de freesurf? As duas situações podem resultar em avanços no que é possível ser executado numa onda, mas ao longo da história do surf os maiores saltos evolutivos definitivamente não ocorreram em situações de competição institucional. A competição informal sempre vai estar presente nesse processo, mas a enquadrada nos critérios atuais da WSL, entidade que aponta o campeão mundial, ainda segue distante de proporcionar as condições para que as manobras mais espetaculares e tubos mais impossíveis sejam completados durante uma bateria.
O assunto não é novo, mas nem por isso menos válido. E toma força cada vez que uma manobra ou entubada insana numa sessão de freesurf, como a de Nathan Florence em Teahupoo no dia 28 de maio passado, deixa o mundo do surf de boca aberta, sem acreditar no que está vendo. (E aqui abro um parênteses para deixar uma pergunta no ar: como, na era do imediatismo da internet, uma onda surfada no final de maio só veio a ser noticiada pela primeira vez, no site Surfline, exatamente dois meses depois? E ainda mais uma onda desta magnitude).
Segundo palavras de Kelly Slater, a onda do irmão do meio da trilogia Florence foi “a melhor onda na remada em todos tempos em Teahupoo”. E ninguém mais qualificado do que o 11 x campeão mundial, dono ele mesmo de algumas das ondas mais espetaculares já registradas em Teahupoo, na sua grande maioria surfadas durante baterias de competição, para fazer uma afirmação com o peso, e implicações, dessa.
Vale frisar aqui que a semi final do Billabong Pro Tahiti, disputada no ano passado entre ele e John John Florence, entrou para a história como a melhor bateria de todos os tempos. Nela Kelly empatou com John John pelo placar de 19,77 a 19,77 e avançou por ter a onda com a maior nota da bateria, um 10. E se mesmo assim ele vem a público sentenciar que a onda de Nathan Florence foi a melhor já surfada em Teahupoo, é porque essa onda foi realmente mais impressionante ainda do que as surfadas por Kelly e John John.
Kelly em várias ocasiões declarou que seu melhor surf acontece durante baterias, quando ele se sente exigido ao máximo. Mas isso não impediu que seu assombrosamente inédito 540 (ou 720 na análise de muita gente), executado em 17 de outubro passado, acontecesse durante uma sessão de treino, durante um dia livre da etapa do Circuito Mundial em Portugal, sem que houvesse qualquer tipo de preocupação com notas, adversários ou tempo de duração da bateria. Aliás, a manobra, que virou manchete instantânea ao redor do planeta, foi quase uma obra do acaso, já que o maior competidor de todos os tempos não entrou na água com a intenção de mandar um 540, “apenas aconteceu”.
O que não pode ser dito do 540 (ou 720) “reverted spindle flip” de Matt Meola em 28 de abril passado. O havaiano nativo de Maui não é um competidor, mas sempre entra na água buscando a superação através da inovação. No dia em que ele mandou o aéreo que o skatista brasileiro Bob Burnquist, ele mesmo um especialista em mega voos, classificou como o “melhor que já vi no surf, lá no alto ao lado do 540 do Slater, só que um pouco melhor, mais limpo e de ponta cabeça”, Matt tinha um foco claro em mente, “eu estava motivado para criar algo”. Ainda assim, na hora H a manobra que ele já havia visualizado mentalmente acabou sendo realizada de “maneira totalmente instintiva”.
Pouco mais de duas semanas após o feito de Matt Meola, o brasileiro Filipe Toledo dominaria completamente a etapa da WSL no Brasil. Levando ao delírio os milhares de fãs que lotaram a praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, o prodígio de Ubatuba, deu uma demonstração indiscutível de como é possível combinar a concentração em obter a vitória com a quebra de limites no surf de alta performance. Mas mesmo assim, se julgados comparativamente aos 540 de Kelly e Matt no freesurf, os seus voos não levariam o prêmio máximo.
O outro grande momento do Tour este ano até agora em termos de performance (não contando ai a agilidade exibida por Mick Fanning no confronto com o tubarão em J-Bay) foi a façanha do australiano Owen Wright ao estabelecer em Fiji um novo recorde, com duas baterias nota 20 perfeitas (uma delas a finalíssima) num mesmo campeonato. Para isso o australiano surfou de maneira absolutamente sintonizada com Cloubreak, combinando rasgadas na parte mais crítica da onda com tubos profundos.
Sua escolha de onda foi primorosa, nunca se deixando intimidar pelo tamanho das paredes de 8 a 10 pés sugando a maior parte da água sobre a rasa bancada de coral. Particularmente na bateria final, que lhe rendeu mais duas notas dez e o título, seu adversário, o compatriota Julian Wilson, não ofereceu resistência, não passando de 7,83 na soma de suas duas melhores ondas. Ainda que sem a pressão competitiva o empurrando para marcar notas tão altas, Owen Wright encontrou o estímulo para ir muito além do necessário na qualidade das próprias ondas e no seu amor pelo ato de surfar, quase como se estivesse numa sessão de freesurf.
Sem dúvida Owen entubou com maestria, mas o que mais me impressionou foi a maneira como ele atacou as paredes das ondas em suas destemidas rasgadas bem no olho do furacão. Eu arriscaria dizer que foi ali que ele deixou uma verdadeira marca a ser superada, já que no quesito tubos são muitos os registros bem mais impressionantes em Fiji. Principalmente naquele que ficou conhecido como o melhor dia de surf de ondas grandes da história, quando o Volcom Fiji Pro 2012 foi paralisado, dando chance para que uma espetacular sessão de freesurf botasse abaixo todos os parâmetros pelos quais tubos eram avaliados até então.
Será que se o campeonato tivesse prosseguido as performances estariam no mesmo nível do que se viu? O mais provável é que não, já que determinados tipos de onda requerem especialistas nas condições apresentadas, além de equipamento adequado. Os Top 34 da WSL são surfistas versáteis, capazes de encarar a maioria das condições que as diferentes locações do Circuito Mundial proporcionam, mas quando se está falando de mega cilindros de 20 pés varrendo tudo a sua frente, ai a conversa muda. E novamente o que se viu foi, em poucas horas, um enorme avanço nos níveis de performance, fazendo com que se passasse a falar dos tubos daquele dia como os melhores já surfados. E nem Kelly Slater, nem nenhum dos competidores presentes estão entre os nomes que realmente serão lembrados por terem elevado o surf a um novo patamar. A glória ficou para caras como Reef McIntosh, Ramon Navarro, Ian Walsh, Nathan Fletcher, Greg Long, Kohl Christensen, Mark Healey, entre outros.
Mas voltando ao dia iluminado de Owen Wright em Cloudbreak durante o Fiji Pro, uma outra questão pode ser levantada. Normalmente quando se fala de alta performance nos dias de hoje, a primeira coisa que se vem a mente é o surf feito fora da onda, no ar, e suas infinitas possibilidades. Pouco mais de cinco anos atrás, mais precisamente em 12 de março de 2010, numa declaração dada ao mais respeitado jornal do mundo, o New York Times, que sabe-se lá por qual misteriosa razão estava interessado no ataque aéreo da nova geração de surfistas, Kelly Slater praticamente sepultou as chances de que a evolução do surf continuasse a ocorrer na face da onda. Sobre os aéreos ele disse o óbvio, “esse é o futuro do surf”, mas no que tange a tubos e rasgadas, como Nathan Florence e Owen Wright bem recentemente acabam de provar, Kelly errou feio ao afirmar que os “tubos mais profundos que poderiam ser surfados já o foram e o melhor surf de rasgadas que pode ser feito está acontecendo agora ou já aconteceu”.
Uma manobra emblemática na imaginação dos surfistas mais progressivos sempre foi o blackflip. E até onde eu saiba até hoje nenhum foi completado durante uma bateria. Nem sei se tentado. Qual seria a nota? Dez? Vinte? E o blackflip, além de seu imenso apelo estético, é também uma manobra funcional, permitindo quando executado com perfeição que o surfista continue sua trajetória emendando em outras manobras. Possivelmente até num tubo, como um dos pioneiros do backflip, o havaiano Flynn Novak, costuma se vangloriar de já ter feito algumas vezes.
Flynn, que batizou a manobra se Flynnstone Flip, disputa com o californiano Tim Curran a honra de ter sido o primeiro a completar um blackflip. De acordo com a narrativa de Flynn, ele já havia completado a manobra bem antes de Tim Curran ter sido destacado na mídia especializada, em 2005, com o que foi chamado de primeiro blackflip da história: “ele só saiu na páginas da Surfing pois era da equipe da Hurley e eu não tinha patrocínio. Pergunte ao Timmy em que ele se inspirou”.
O fato é que, independentemente de quem mandou o primeiro, Flynn se dedicou com mais afinco ao backflip e continuou aperfeiçoando a manobra até faturar os 50 mil dólares do Kustom Airstrike 2010, premiação destinada ao melhor aéreo do ano, com um backflip completado na Indonésia. Com isso ele inspirou outros surfistas a colocarem a manobra no seu repertório, ou ao menos tentarem.
Entre os poucos bem sucedidos, estão três brasileiros, que ao lado de Jordy Smith, Tim Curran e Flynn formam o restrito grupo de apenas seis surfistas que já completaram o giro completo antes de aterrissar na onda novamente. O pioneiro entre os brazucas foi Gabriel Medina, em 20 de novembro de 2012, dois anos antes de se tornar nosso primeiro campeão mundial, seguido por Yago Dora em 5 de janeiro de 2013, ambos no Hawaii, e Ítalo Ferreira, em 14 de janeiro de 2013, em Baia Formosa, no Rio Grande do Norte. Na época, Medina postou nas redes sociais que “hoje fiz o aéreo mais irado da minha vida. Não acredito até agora”.
Ao contrário do futebol, do tênis, da Fórmula 1, da natação, do atletismo, do judô, e da vasta maioria dos esportes, os grandes saltos evolutivos do surf não tem se dado durante as competições. Seria o esperado que, no calor das disputas mais acirradas, quando títulos mundiais e grandes quantias de dinheiro, em premiação e patrocínio, estão em jogo, além do desejo da consagração vitoriosa, a pressão deveria fazer com que barreiras fossem derrubadas. Não que isso não aconteça em dias clássicos em Pipeline, Teahupoo e Trestles, por exemplo, mas é que nos mesmos lugares durante as sessões de freesurf os resultados são ainda mais surpreendentes. Fica aqui o tema para reflexão. Por que no surf as jogadas que mudam a história tem acontecido com mais frequência nos “treinos e peladas” do que nas grandes finais?