
Pelo terceiro ano consecutivo, o carioca Leonardo Neves, 25, chega à reta final do circuito brasileiro com chances de faturar o título nacional. Para isso, o carioca precisa vencer a etapa e torcer para que seus adversários diretos, Renato Galvão e Odirlei Coutinho, sejam eliminados.
O feito é difícil, mas não é impossível, ainda mais levando-se em conta que em duas outras ocasiões, Léo ignorou o fato de não liderar o ranking faturando o bicampeonato consecutivo.
Seu surf ultra-radical, aliado ao fato de a decisão acontecer no quintal de sua casa, em ondas que

conhece muito bem, contando ainda com apoio da torcida local, são ingredientes que o colocam incontestávelmente entre os favoritos.
Se conquistar o feito, aos 25 anos ele entrará para a história do esporte nacional como o surfista mais jovem com três títulos consecutivos no currículo do maior circuito nacional do mundo.
Sexta-feira, 15 de outubro. É quando começa a corrida de Léo Neves em busca do tri. A batalha tem início na quarta-fase, em que o carioca encara na nona bateria o catarinense Diego Rosa.
Sua primeira conquista no SuperSurf ocorreu em 2002, na Prainha, Rio de Janeiro. Léo estava

em oitavo lugar no ranking e derrotou o experiente Peterson Rosa em uma final disputadissíma, chegando a ficar em combinação, precisando de 10.5 pontos para virar.
E conseguiu. Léo mudou de tática e saiu remando para o outro lado do pico. Logo veio uma esquerda com bom tamanho e ele mandou uma batida insana na junção, imprimindo muita pressão e velocidade. Tirou 7.5 e começou aí a diminuir a diferença.
De repente, uma série apontou no horizonte. Ele remou no direitão de 1,5 metros e apenas encaixou o corpo no interior da onda. O público delirou, ainda mais quando ele entocou de novo e finalizou com uma batida na junção. Nota: 10.
Peterson ainda descolou uma direita buraco, dropou no vazio e botou pra dentro, porém não conseguiu sair. Pra selar a vitória, Neves pegou outra boa direita e massacrou a onda com três batidas. Na primeira cavou reto e chutou a rabeta com raiva. Depois mandou mais um batidão, jogando muita água para o alto, e finalizou com outra batida na junção, tirando 8.83 e liquidando a fatura contra o competitivo Rosa.
No ano seguinte, novamente Rio de Janeiro, só que desta vez nas potentes ondas de Itaúna, em Saquarema, seu atual pico de treino – desde quando mudou-se para cidade em 1999.
Léo tinha a dura missão de derrotar o ubatubense Odirlei Coutinho na semifinal para garantir o bicampeonato e cravar seu nome de vez na história do esporte. O carioca começou forte, arrancando uma nota 8,33 logo em sua primeira onda, finalizada com um aéreo.
A quarta apresentação, já na metade da bateria, foi ainda melhor e recebeu uma nota 8,83 para estabelecer uma imbatível marca de 17,16 pontos. Odirlei Coutinho ainda tirou uma nota 8,07 e totalizou 14,74 pontos, terminando em terceiro lugar na prova. A final rolou contra seu conterrâneo Anselmo Correia e Léo, depois de atender toda à imprensa, entrou atrasado na bateria, deixando o título da etapa com Correia.
Primeiros passos – O carioca começou a surfar aos seis anos, incentivado pelo pai e pelo irmão mais velho. Léo morava no subúrbio do Rio, em Brás de Pina, e a longa distância até a praia nunca foi um grande problema para o competidor.
“No começo até era roubada. Eu ia sempre para a praia com um amigo também chamado Léo. Porém, não via o fato de pegar ônibus como um grande problema, e sim como a salvação. Não via a hora de estar na praia, no sol, pegando onda, conhecendo pessoas”, revela.
Desde sempre, o competidor conta com o apoio da família. Inclusive foi o seu pai que lhe deu a primeira prancha. “Comecei incentivado pelo meu pai que mergulhava e pegava onda e também pelo meu irmão mais velho, que já competia. Eles me deram a primeira prancha, me levaram para a praia. Meu irmão me levava, e eu era meio que o pentelho da galera. Isso fez com que eu gostasse, me dedicasse e hoje estou vivendo do esporte”.
A decisão de dedicar-se intensamente às competições veio aos 15 anos, quando tornou-se campeão carioca amador. Aí, a vontade de estar mais próximo da praia foi mais forte, e Léo mudo-se para o Leblon. “Deu um estalo e resolvi que iria tentar, queria viver do surf de qualquer jeito. Caso não desse certo no esporte, partiria para uma faculdade de educação física para continuar trabalhando no meio”, comenta.
Um dos grandes incentivadores em seu início de carreira foi o falecido Roberto Valério, proprietário da Company/Cyclone. “Ele já havia ouvido falar de mim e um dia pediu para que fosse em sua fábrica com o meu pai. Fiquei um ano contando isso para a galera e foi aí que tudo começou”, conta ele, que na época tinha 13 anos.
“Depois de um ano e meio, o Roberto Valério morreu e eu perdi o patrocínio. Aí, pintou a Aroma do Campo, uma empresa de comésticos em que o proprietário era o Jackson. Por intermédio dele fui apresentado ao técnico Caio Monteiro e começamos a trabalhar juntos. Basicamente, estes foram os meus padrinhos”.
Há cinco anos, o carioca resolveu dar uma guinada em sua vida e mudou-se para Saquarema, onde acaba de construir uma casa para morar com a família. “Foi aí que realmente mudou meu surf, pois comecei a olhar de uma outra maneira e evolui constantemente”.
Em uma rápida passagem por São Paulo, na última semana, Léo concedeu esta entrevista exclusiva, em que fala sobre o objetivo de ser tricampeão do SuperSurf, comenta sua trajetória no esporte e os critérios de julgamentos.
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Como está sua expectativa?
O ano retrasado estava em oitavo no ranking. A final rolou no Rio de Janeiro e sabia que tinha chances de vencer e ser campeão brasileiro. Foi o primeiro ano em que conquistei o campeonato nacional e isto foi muito importante para mim.
No ano passado, cheguei na última etapa em Saquarema novamente com chances e em segundo no ranking, que contava com o Peterson (Rosa) em primeiro – um cara que considero forte, raçudo, com uma capacidade incrível de virar baterias nos últimos minutos.
Me concentrei e consegui vencer. O segundo lugar que conquistei na etapa foi como uma vitória e fiquei muito feliz com bicampeonato brasileiro.

Como foi este ano para você no SuperSurf? Você se contundiu algumas vezes?
Foi um pouco mais complicado. Torci o tornozelo no meio do ano e me recuperei depois de dois meses, quando fui para a Europa e África disputar algumas etapas do WQS. Consegui inclusive chegar às quartas na Europa e às oitavas na África, mas depois torci o joelho.
Aí, tive que ficar mais um mês sem surfar e comecei o tratamento novamente. Já estou em forma. Rolaram dois campeonatos nos últimos finais de semana, mas optei por não disputá-los para guardar minha energia para o SuperSurf.

Você está pronto para ir com tudo para a disputa do título?
Estou. Preferi fazer um pouco mais de fisioterapia, pois na hora da bateria você acaba arriscando tudo e eu não estou a fim de arriscar mais este título brasileiro.
Qual é a importância em obter o título em um circuito como o SuperSurf?
O circuito é alucinante. Os atletas disputam baterias homem x homem, que servem como uma preparação para o WCT. É um tipo de competição que me prevalece um pouco, pelo fato de dar a oportunidade ao atleta de escolher as ondas. O pessoal da organização tem a preocupação de esperar o mar subir e não realizar o evento em um mar horrível com ondas pequenas.
Eles estão preocupados com o fato de surfarmos as melhores ondas e termos tempo para escolhe-las. Isso tudo me ajuda e foi o que mais contribuiu para melhorar meus resultados. O fato de competir em baterias homem x homem, com prioridade, dá muito mais tranqüilidade para competir.
E no WQS, como está sua situação?
Acredito que ainda tenho chances (Léo está em 43º lugar). Preciso de pelo menos um terceiro lugar para ficar bem no ranking e entrar para o WCT. Estou com boas esperanças de conseguir este ano.
Você percorreu o caminho inverso de grandes nomes do esporte nacional, que geralmente competem anos lá fora, e depois se dedicam ao circuito brasileiro. Porque optou em priorizar o SuperSurf no início de sua carreira como profissional?
O primeiro ano em que fui campeão foi uma surpresa. Estava em oitavo no ranking, com 22 anos. Ano passado, ficou aquela coisa na minha cabeça: Já havia sido campeão, será que conquisto o título novamente? E a última etapa em Saquarema me ajudou muito, a torcida, toda uma energia positiva. Este ano está tudo rolando novamente.
A torcida influenciou muito em suas conquistas?
Com certeza. A energia positiva é muito grande. Desde o mês passado, quando encontro a galera na praia, o pessoal já vem falar comigo. Dizem que acreditam em mim, que estão torcendo. É um incentivo a mais para o competidor.
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E o nível dos atletas que disputam o título contigo. Além do fato de você ter se contundido, você acredita que este ano está mais difícil, já que o Renato Galvão e o Odirlei Coutinho também estão embalados por uma série de bons resultados?
Com certeza. Cada ano será mais difícil para mim por causa da nova geração. O mesmo que rolou comigo está acontecendo com estes surfistas agora. O Renato e o Odirlei já haviam disputado o título no ano passado. E neste ano, inacreditavelmente, estamos nós três disputando o título novamente.
São três atletas que representam a nova geração

e isso é muito bom, pois o Brasil tem atletas mais velhos com nomes muito fortes.
E nós, para entrarmos no lugar de nomes como Fábio Gouveia, Guilherme Herdy, Neco, Teco, Peterson, vamos ter que treinar muito para chegar no nível deles, que se dedicaram por muitos anos ao circuito mundial.
O fato de estar na estrada competindo, viajando, dá confiança, melhora o treino pois conquista-se um ritmo. Esperamos estar preparados para substituí-los.
O fato de você ser considerado um dos representantes do surf moderno, de manobras

ultra-radicais, aliado ao fato deste estilo estar sendo cada vez mais reconhecido pelos juízes também colaborou com seus bons resultados? Inclusive você chegou a receber uma nota 8,5 somente por um aéreo em Ubatuba? Como está o julgamento na sua opinião?
Foi uma evolução do esporte. Estamos há anos lutando para que o julgamento valorize manobras cada vez mais radicais. Mas, para julgar é muito difícil. É complicado dizer o que é ou não radical.
Naquele campeonato rolou muita reclamação por eu ter obtido esta nota, mas eu já estava há cerca de três anos explicando para os juízes a dificuldade de fazer uma manobra como aquela em um mar pequeno. Fui recompensado. Com certeza fui campeão brasileiro novamente por eles reconhecerem este meu surf radical.
Como é o fato de você ser apontado como um dos ícones deste estilo power/radical? Quem foi sua inspiração no esporte?
Fico muito satisfeito, pois me lembro de quando era mais novo e eu via o Dadá Figueiredo como o cara que começou este negócio de manobra radical. O conheço mais por causa do Rio de Janeiro, Dadá era uma referência para mim, a Necrose Social, manobras radicais. Fiquei com aquilo na cabeça.
Quando era pequeno, também andava de skate e tentei misturar um pouco estes esportes, uma tendência que vem lá de fora. Sou muito feliz por estar representando esta galera do surf radical, novo, moderno. Mas, graças a Deus, o Brasil está muito bem representado em todas as áreas, seja no tow-in, nas ondas pequenas, no surf pesado em tubos. Acho que o surf brasileiro não deve nada para os outros países.
Você acredita que o surf no Brasil está no mesmo patamar de países com mais tradição no esporte?
Acredito que estamos bem além do que eles pensam. Isso está comprovado nos resultados, com títulos no WQS, novos atletas no WCT. Temos praticamente o mesmo número da Austrália em atletas, um país que está na estrada há muito mais tempo. Não temos uma história tão antiga, mas já estamos fazendo um “barulhinho”.
O que a mudança do Rio para Saquarema representou no aprimoramento do seu estilo?
Melhorou muito, porque comecei realmente a trabalhar o meu surf. Antes, era aquela coisa de ir para a praia e surfar todos dias. Não estava acostumado a trabalhar, aperfeiçoar, melhorar o que já fazia, minha prancha, meu preparo físico ou o estilo que estava fazendo.
Às vezes você trabalha o ano inteiro para dar uma rasgada diferente e quando isso não é valorizado ficamos realmente muito tristes. Reclamamos e até perdemos um pouco da educação, ali na emoção do momento, mas é porque realmente exige muito tempo empregado tentando melhorar uma manobra.
As vezes você vê a diferença de uma manobra muito forte para uma em que o cara não arrisca tanto, com receio de cair da prancha. Ficamos nervosos, mas faz parte. Estamos tentando que o julgamento evolua conosco.
Estas duas vezes que você se contundiu neste ano foram extrapolando nas manobras?
É isso que tento explicar aos juízes. Treinar um surf radical, com manobras que poucas pessoas fazem, é muito difícil. Torci o tornozelo dando um aéreo 360, uma manobra perigosa que o pessoal estava reclamando na etapa de Ubatuba pela nota que conquistei. É uma manobra realmente difícil e perigosa de ser completada. Torci meu joelho dando uma batida em uma junção bem grande, outra coisa que luto para ser valorizada.
O que tem que mudar?
O que deve realmente ser olhado é a qualidade da manobra, e não a quantidade. Dar uma batida em uma onda bem grande, uma rasgada muito forte. Tento surfar em um critério novo. Sei que estou me arriscando, fiquei dois meses sem surfar, por isso brigo para que este estilo seja mais valorizado. Tem surfistas que fazem o famoso “feijão com arroz”, que não se machucam nunca e acabam ganhando as baterias. Isso atrapalha o surf brasileiro.
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Como os juízes recebem estas críticas? Eles estão abertos a este intercâmbio com os atletas?
Às vezes eles confundem um pouco estarmos reclamando. Para se ter uma idéia, 20% dos atletas estão no critério novo, enquanto os outros 80% estão no antigo.
Eu reclamar sozinho de uma nota minha fica difícil, pois eles acham que é uma coisa pessoal. Porém, outro atleta – destes 80% – reclamar de uma nota minha é fácil, porque ele integra a maioria, que gostaria que tudo continuasse na mesma.
Agora, estes 20% estão na carência de serem bem

julgados em manobras radicais, até para continuar treinando. Se você dá um aéreo 360
e não é bem julgado, você acaba devagarinho deixando de fazer esta manobra. Para que vou fazer esta manobra se posso me dar bem com o ‘feijão com arroz’?
Aí, você fica em um dilema, sem saber o que fazer. Sempre fui radical neste ponto e pensei: Meu surf é este e não tem o que mudar, não tem como fazer o surf de outra pessoa, pois não conseguirei fazer nem o meu, nem o dele. Todos estes anos tentei não me preocupar com julgamento e evoluir.
E você foi recompensado com os títulos

nacionais. Como é ser um dos responsáveis por uma mudança no critério de julgamento?
Quando aconteceu o que eu queria, de ser realmente valorizado o surf radical, coincidiu justamente com minha conquista do campeonato brasileiro. Não represento só o surf radical, mas também o antigo, de manobras fortes.
Só não me encaixo naquele surf de manobras em ondas pequenas, com muitas manobras por onda – que é típico do brasileiro, fazer 10 manobras em uma onda.
Neste ano, quando estive na Austrália, o Perry Hatchet, head judge do circuito mundial, me elogiou bastante e disse que eram poucos brasileiros que tinham um surf parecido com o meu. Ele disse que não era um surf tão rápido, e sim um estilo power, de ondas boas, um estilo mais puxado para a Austrália, com boas batidas e rasgadões.
No circuito mundial este estilo é mais valorizado?
Com certeza. É bem mais fácil eu tirar notas como 8.5 lá fora. Ainda não consegui entrar para o WCT porque o nível realmente é muito alto. Geralmente chego às quartas-de-final e sempre o cara que vira é um atleta famoso que consegue notas altas no final.
O brasileiro ainda tem uma pequena barreira para enfrentar. Mas, acho que esta nova geração, radical e mandando bem em ondas de peso, em cinco anos limpará esta imagem do Brasil – estigmatizada por ‘atletas de beach break’. Na verdade, o brasileiro surfa qualquer tipo de onda. Temos o Burle e o Resende em ondas gigantes, por exemplo.
Quais são os picos internacionais de ondas pesadas que você mais se identifica?
As ondas que mais gosto estão no Hawaii: Haleiwa, Pipeline, Laniakea, Log Cabins. Saquarema quando está bem grande é muito bom. Todos os lugares têm seus dias perfeitos de ondas grandes, basta você morar no pico para pegá-las. É o que falo para meus amigos, nada como ser morador do lugar para pegar os melhores dias.
Você vai este ano para o Hawaii?
Vou sim. Há cinco anos vou todos os anos. Nenhum surfista brasileiro pode deixar de ir porque lá é uma escola. Frieza, nervosismo, prancha grande – carências que existem no Brasil.
Se você realmente conseguir entrar este ano ao WCT, além de integrar a elite mundial, se juntará aos seus amigos Raoni Monteiro e Eric Rebieri no Tour. Vocês (e também o João Gutemberg) formam um grupo denominado Encabeça Geral. O que representa estar com seus amigos competindo?
Fizemos nosso grupo e isso nos ajudou muito, principalmente nos detalhes, em fazer companhia, estar na areia dando um toque, descolar uma prancha reserva. Tentamos nos unir para nos ajudar, para um ser o técnico do outro e quando faltasse alguma coisa, o outro poderia complementar, inclusive com grana, cartão de crédito, amizade, conhecimento.
O sonho da gente é que os quatro entrem para o WCT, inclusive o João, que acaba de se recuperar de uma cirurgia no ombro e está conquistando melhores resultados. Se Deus quiser nossa amizade fará com que um dia nós quatro estejamos no Tour, competindo, se divertindo e trabalhando juntos.