Entrevistas

SUP Entrevista – Lena Guimarães

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Campeã Brasileira Profissional de SUP race, campeã do Aloha Spirit, campeã do Rei e Rainha do Mar e quarta colocada geral na M2O. Lena Guimarães teve em 2016 um ano para chamar de seu. E, ao que tudo indica, estamos presenciando o início dessa história. Foto: Arquivo pessoal.

 

Se há uma atleta que pode chamar 2016 de “seu” ano, ela certamente chama-se Lena Guimarães Ribeiro. Campeã brasileira profissional de SUP race, campeã do Aloha Spirit, campeã do Rei e Rainha do Mar e quarta colocada geral na M2O, Lena definitivamente encontrou seu lugar entre os grandes nomes do stand up paddle.

 

Mas engana-se quem pensa que foi fácil chegar até aqui. Uma boa dose de ousadia pra não se acomodar na categoria amadora, determinação nos treinamentos e foco no objetivo de vencer o maior nome do SUP brasileiro até hoje: a pentacampeã Babi Brazil.

 

Na entrevista a seguir, concedida a Luciano Meneghello, Lena conta um pouco de sua história, fala sobre alimentação (ela é nutricionista para quem não sabe!), família e, claro, stand up paddle!

 

Após três vice-campeonatos consecutivos, finalmente o título brasileiro profissional de SUP. Qual a sensação?

 

Muito boa! Mas na verdade foram três vice-campeonatos muito diferentes. Comecei a competir em 2012, influenciada pelo Américo (Pinheiro, marido e técnico de Lena). Competi na Fun Race e fui campeã brasileira. Isso me motivou a migrar para a categoria profissional, pois eu queria remar entre as melhores! No primeiro ano, minha meta era ficar entre as cinco primeiras e acabei vice-campeã. Isso pra mim foi uma vitória. No ano seguinte, em 2014, entraram muitas meninas novas no circuito, mas a briga, na verdade, era pela segunda colocação, pois nenhuma de nós conseguia chegar junto da Babi Brazil. Eu consegui vencer dela na Bahia, é verdade, mas ela não estava em um dia bom e eu estava muito bem. Então, no ano passado, pela primeira vez, senti, pela evolução dos treinos, que eu poderia chegar mais perto da Babi. Durante o Rei de Búzios tanto eu como ela estávamos bem fisicamente e com equipamento bom, a gente fez a prova lado a lado, sem pegar esteira, alternando a liderança a liderança até a linha de chegada. A Babi venceu, mas por segundos de diferença. Ali eu disse pra mim mesma: “Chega de brigar pelo segundo, agora eu quero brigar pelo primeiro!”. Mas, ainda assim, a Babi ficou com o título mais uma vez.

 

E ai chegamos a 2016…

 

Em 2015 a gente brigou até a última etapa e nesse ano, eu comecei vencendo a primeira prova do Brasileiro, em Florianópolis. Venci a prova de longa distância e fiquei bastante confiante, mas não fui bem na técnica. Só que isso me mostrou que eu tinha chances reais de ser campeã brasileira. Só que esse novo formado adotado pela CBSUP, mesclando provas técnicas e de longa distância, fez tudo ficar mais imprevisível, tanto é que eu ganhei todas as provas de longa distância esse ano, mas mesmo ganhando essas de longa, pela combinação de resultados com as técnicas, a gente chegou na última etapa com eu, a Babi e a Aline com chances de ficar com o título e eu consegui ficar com o título. É uma sensação muito boa de trabalho recompensado.

 

Você não se sentiu vontade de ficar mais tempo na Fun Race? Afinal você foi campeã logo na sua estreia…

 

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Em 2012, ano de sua estreia nas competições (à dir.), quando foi campeã brasileira na Fun Race. Foto: Ale Socci.

Pois é, quando eu decidi migrar para a Race Profissional, após o título brasileiro da Fun Race, muita gente falou pra mim: “Mas você ganha tudo na Fun Race, porque mudar para a Profissional?” (risos). Mas eu preferia ficar em quinto na Profissional a ser campeã na Fun Race.

 

Queria estar na mesma prova que a Babi, a Monica (Pasco), a Luciana Moller, a Vivi (Matero), a Ariela (Pinto), a Renata (Rocha), a Cris Tijolinha, que eram as meninas que competiam na Profissional naquela época. Minha meta era remar no mesmo nível que elas.

 

E mesmo assim você terminou como vice-campeã…

 

Foi um resultado além do esperado. Mas o que realmente me deixou feliz foi ver que consegui remar naquele nível logo na minha estreia como profissional. Isso foi mais importante do que qualquer pódio em uma categoria amadora. Você veja, por exemplo, quando eu fiz a minha estreia na Molokai 2 Oahu. Eu cheguei em sétimo entre as mulheres. Essa colocação não rendeu pódio, não rendeu matéria e quase ninguém comentou, mas, pra mim, foi incrível! Eu consegui completar uma das provas mais difíceis do mundo em sétimo lugar e me sentindo bem, remando bem. Essa satisfação é o que mais me motiva a seguir em frente.

 

Você além de atleta é nutricionista e é casada com um educador físico. Então, é impossível eu não lhe fazer essa pergunta: Qual a importância da alimentação e do treinamento em sua preparação?

 

É muito importante para qualquer atleta, principalmente quando você vai ficando a um nível profissional, onde qualquer detalhe faz diferença. Então, na verdade, existem mais fatores que são muito importantes para a evolução do atleta. É toda uma rede de pessoas envolvidas. No meu caso, conto também com o apoio do Antonio Chaer, que é o meu osteopata, o Leandro, que é meu acupunturista, e ainda tenho a sorte de ser uma nutricionista que é casada com um preparador físico! Mas, falando especificamente sobre alimentação, não tenha dúvida de que esse é um fator que vai mexer com seu desempenho, com a sua recuperação e sua saúde.

 

Eu, sinceramente, poderia me alimentar muito melhor do que eu me alimento (risos). Mas procuro me alimentar bem durante a semana, mantendo uma rotina de horários, uma alimentação equilibrada, saudável, fujo de doces e dependendo da época de treinamento eu aumento ou diminuo nível de carboidrato. Como eu sou a minha própria nutricionista fica super fácil controlar a minha alimentação, pois cada indivíduo deve seguir um determinado plano alimentar. E o fato do Américo ser meu treinador também ajuda muito, pois com a nossa convivência ele sabe o que está se passando comigo já me passa o treino direto, não preciso ter aquela conversa com um treinador para dizer como estou, pois ele já sabe.

 

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Não bastasse a extenuante rotina de atleta de Elite e mãe, Lena também encontra tempo para exercer sua profissão de nutricionista. Foto: Jorge Porto.

 

O que seria uma “alimentação perfeita” para um atleta?

 

Seria uma alimentação totalmente voltada para o desempenho do atleta em um nível exclusivamente biológico, mas sem levar em conta situações do cotidiano da gente…

 

Ou seja, é uma coisa meio utópica…

 

É… Para se levar à risca, sim! Existem alimentos que eu consumo que não deveria consumir, pois há situações que levam você a isso. Por exemplo, se chego atrasada na faculdade eu acabo comendo um salgado. Ou quando chega o final de semana e eu como pizza, mas não uma ou duas fatias, mas, sim como até não aguentar mais (risos). Ou quando saio com meus filhos e vamos comer hambúrguer. Enfim, são pequenos “deslizes”, mas que fazem parte de um contexto social e emocional. Então eu me preocupo obviamente em me alimentar bem, mas não sou uma pessoa que tem uma dieta super-restrita. Tenho minha vida social e não abro mão desses momentos. Então, quando eu digo “alimentação perfeita”, falo exclusivamente sobre os nutrientes mais indicados para o nosso organismo. Só que comer envolve outros fatores além da questão biológica ou, de outra forma, a gente comeria apenas ração! Então, de uma forma geral, eu me preocupo e cuido da minha alimentação, mas sem neurose. Busco sempre o caminho do meio.

 

Que tipos de alimentos você indica para quem quer remar melhor?

 

Na verdade, para qualquer indivíduo, seja ele atleta ou não, o que faz a diferença é a correta ingestão dos nutrientes. No caso de um atleta, ele vai ter uma necessidade maior de energia, pois terá um gasto calórico maior devido aos seus treinos e as competições. Vejo muita gente ingerindo suplementos de proteína excessivamente, mas no caso de um atleta, a maior necessidade vai ser de carboidrato, que é a grande fonte de energia para o nosso corpo, principalmente nas competições, pois, quando a gente está participando de uma prova de longa duração, com mais de uma hora, as nossas reservas de carboidrato não dão conta. Então, nesses casos, é necessária uma reposição imediata de carboidrato que pode ser feita em forma de bebidas isotônicas, em gel… Poderia ser uma batata também, mas vai ser meio difícil você consumir uma batata enquanto está remando no meio de uma prova!

 

A hidratação também é muito importante antes, durante e depois de uma prova. Esse é um aspecto que muita gente negligencia. A gente vê atleta que não leva água para uma prova e diz que não sente sede, mas, na verdade, se você sente sede então você já entrou em um processo de desidratação e, com isso, já está perdendo rendimento. A hidratação deve ser constante e fracionada. Você não deve sentir sede durante um treino ou competição.

 

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Ao lado da amiga e fonte de inspiração Babi Brazil: “Trabalhe muito para que seu ídolo possa um dia se tornar o seu adversário”. Foto: Arquivo pessoal.

 

Como é a sua relação com a Barbara Brazil? O que ela representa para você?

 

Ela tem um papel importantíssimo. Eu via a Babi remando nas competições e pensava “Meu deus!” (risos). Lembro quando comecei a treinar pra valer e fui fazer um treino de tiro, de 1 km e o Marcelo Borges, que me passava alguns treinos na época, chegou pra mim e disse: “Essa média que você fez em 1 km é a mesma que a Babi faz remando 14 km!” (risos).

 

Então você ter uma mulher remando nesse nível é muito motivador. Além disso, a Babi sempre foi uma competidora muito ética, que sempre respeitou muito os adversários, pra mim um exemplo dentro e fora da água. Outro dia li uma frase que era voltada ao mundo corporativo, mas que se aplica muito bem no que ela representa para mim: “Trabalhe muito para que seu ídolo possa um dia se tornar o seu adversário”. Isso resume bem a influência que ela exerce em mim!

 

Você acha que deveríamos ter mais mulheres competindo no SUP race?

 

Acho que sim, mas é um pouco de utópica acreditar que um dia a gente vai ter um número de competidoras mulheres igual ao que a gente tem de homens. Sempre vai ter mais homens do que mulheres, isso no Brasil e no mundo. A gente tem uma cultura de que esporte é para menino.

 

Mas vamos aumentar sim esse número. Aliás, se você analisar o histórico das competições no Brasil, você verá que a participação de mulheres é cada vez maior. Então eu acredito que vai crescer mais ainda, mas, por isso mesmo, a gente precisa ver com mais carinho essa questão da premiação igualitária, ver como trazer mais mulheres para esse esporte.

 

Como melhorar isso em sua opinião?

 

A coisa melhorou muito desde o primeiro ano de Brasileiro, é verdade, mas temos que evoluir mais. A reclamação mais comum entre as mulheres é sobre o valor da nossa premiação. Claro que isso não é uma coisa simples de se mudar, mas esse é um assunto que não pode sair da nossa pauta. 

 

A gente paga o mesmo valor de inscrição de inscrição que os homens, o nosso equipamento é o mesmo e as distâncias são as mesmas e na hora de premiar, usando o Brasileiro como exemplo, mas isso acontece nas outras provas também, a gente tem premiação em dinheiro até o décimo sexto colocado entre os homens e entre as mulheres até a quarta colocada. E se você olhar quem são esses caras que chegaram por volta da 16ª colocação e que recebem a premiação em dinheiro, vai ver que tem gente que nem corre o circuito todo. Então eu acho um disparate você ter 16 premiados e quatro mulheres premiadas sendo que a primeira do feminino não recebe o mesmo que o primeiro do masculino e assim por diante. É lógico que não quero que dez homens recebam premiação e dez mulheres recebam premiação, pois tem bem mais homens do que mulheres numa prova de race, mas acho que tem que ter uma premiação mais igualitária do que é hoje. Mas é uma coisa que não basta partir só das mulheres. Os homens também precisam entender isso.

 

Outra coisa que eu acho que deveria mudar, principalmente para acabar com essa discussão sobre esteira, era separar a largada do masculino com o feminino, como a gente já vê em algumas provas lá fora.

 

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Durante uma das provas de race técnico do Brasileiro de SUP. “As provas técnicas são muito importantes, mas precisamos ter cuidado com o peso que as provas técnicas terão no circuito”. Foto: Arquivo pessoal.

 

O que você achou do formato do circuito brasileiro em 2016?

 

A gente sempre falou em ter provas técnicas no circuito, porque são provas dinâmicas, boas para quem assiste, pois são perto da praia, enfim, só que esse ano a gente teve quatro etapas sendo três foram a junção de provas técnicas com provas de longa e eu acho que se a gente começa a ter muita prova técnica no circuito a gente descaracteriza um pouco o SUP race, que é uma prova de regata e que pode ser feita em lagoa, no mar, em downwind, então eu acho que a gente tem que ter cuidado com o peso que as provas técnicas terão no Brasileiro e eu acho também que as provas técnicas no Brasil ainda afastam alguns competidores, então a gente ter cautela porque dependendo do nível de dificuldade dessas provas corremos o risco de afastar alguns competidores. O ideal seria equilibrar mais o formato das provas porque a gente também não pode descartar competições com um grau maior de dificuldade.

 

Pra mim essa é uma história que vocês, atletas, estão ajudando a escrever, pois o esporte ainda é muito novo. A gente ainda está tentando entender o que seria uma prova de race ideal…

 

Sim, até porque gostando ou não, o panorama internacional aponta para essa tendência de provas técnicas. Não todas, mas grande parte. Então a gente tem que se adaptar ao que acontece nas grandes provas internacionais para não acontecer o que acontecia no passado, onde a gente só tinha provas de longa aqui no Brasil e ai o atleta ia lá pra fora e sentia muita dificuldade em competir em provas no mar, com boia na beira d’água. Enfim, acho que é importante buscar o melhor formato pro circuito, que seja justo, mas sempre atento ao que acontece no mundo.

 

Falando em provas internacionais, esse ano você ficou com quarta colocação geral no feminino da M2O. Fala um pouquinho sobre essa experiência.

 

Esse resultado me deixou muito feliz até porque as três remadoras que chegaram na minha frente já foram campeãs da M2O e são uma referência pra mim. Não cheguei tão perto delas porque infelizmente, quando chegamos perto de Oahu elas conseguiram pegar o fim da maré enchendo e eu peguei a vazante e todo mundo que pegou a vazante se lascou no tempo! Mas eu fiquei muito feliz porque as três tem muito mais experiência nessa prova do que eu.

 

Quem são suas referências no stand up paddle?

 

No Brasil a Babi, sem dúvida nenhuma, o Animal, que é um remador muito casca grossa, que é bom em qualquer condição, além de ser um cara super humilde. Tem o Vinni (Vinnicius Martins) também, que é um garoto que eu acompanhei desde o começo e hoje está entre os melhores do mundo. Dos atletas internacionais, tem a Candice (Appleby) que pra mim é uma atleta completa e é muito boa em provas técnicas e outra atleta que é uma pessoa sensacional em quem eu me espelho que é a Andrea Moller. Entre os homens, o Connor Baxter que é um competidor fenomenal e está sempre com um astral muito bom durante as provas, você enxerga claramente que ele está ali se divertindo e o Danny Ching, que tem uma técnica absurda. No SUP Wave o Caio Vaz, que é um monstro e é outra pessoa que está sempre de alto astral nas competições, se divertindo, falando com todo mundo. Não sei se esqueci de alguém, mas, a gente sempre observa esses atletas e busca aprender um pouco com eles.

 

E quem você acha que vai dar mais trabalho em 2017?

 

Olha, a Babi querendo, com certeza vai dar muito trabalho. Sei que ela quer tocar alguns projetos em 2017 e talvez competir como profissional não esteja nos seus planos, mas, se ela mudar de ideia, tem muita lenha pra queimar ainda! Tem a Aline Adisaka que eu vejo que é só uma questão de tempo até ela conquistar um título brasileiro no SUP race porque é uma menina super nova e tem boa experiência nas competições de Race, sem falar no Wave, onde ela já tem dois títulos nacionais. Acho que a Ariani (Theophilo) que é outra menina super nova e que tem muito potencial. Ela não começou o ano muito bem mas deu a volta por cima e pra mim na prova do Pantanal foi a grande revelação, ela chegou cerca de um minuto e 30 segundos atrás da Aline Adisaka, que foi a segunda colocada. E também a Aline Abad, que veio do Amador e chegou com tudo em 2016. Então acho que o melhor é isso. Temos várias atletas que podem chegar ai brigando pelo título e isso só faz o esporte crescer, pra todo mundo.

 

 

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Luciano Meneghello é editor-chefe e fundador do site SupClub. Foto: Reprodução.

 

 

 

 

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.