Muito assustado com tudo que vi e ouvi sobre o terremoto e o tsunami no Japão, resolvi escrever uma coluna em homenagem ao povo japonês. Em meio a tanta tragédia, divido um pouco das minhas histórias neste país de povo sorridente e muito hospitaleiro.
No dia da catástrofe, acordei bem cedo e como sempre liguei a TV em um canal de notícias. Não acreditei que aquilo realmente estava acontecendo. Imagens aéreas exibiam uma massa de água arrastando tudo pela frente: plantações, carros e barcos misturados em um liquidificador gigante.
Lembro da minha primeira vez no Japão, em 1996, como se fosse ontem. Naquela época, era patrocinado pela marca Toobs e tinha cabelo rastafari que, apesar de feio, achava maneiro. E ele fazia sucesso com a turma feminina. Vai entender essas mulheres!
Não dá para acreditar, mas cheguei ao país sem roupa de borracha. Foi a maior roubada! Estava com Marcelo Pedro e Neymara Carvalho, atletas da Toobs Internacional (eu era da nacional). O contrato deles dizia que enquanto estivessem no Japão a equipe toda teria que ser bancada pela Toobs Japão. Fui “na aba” e me dei bem. O pai da famosa bodyboarder Aoi Koike era o dono da marca e me adotou por lá.
Logo no primeiro dia fomos jantar com toda a equipe: Eu (risos), Marcelo Pedro, Neymara Carvalho, Jeff Hubbard, Kyle Maligro, Ross McBride, Chris Won e outras figurinhas japonesas impossíveis de se comunicar.
Como vocês acham que se come uma sopa de macarrão com palitinhos? Seu Massanori, dono da Toobs, sentou ao meu lado e colocou um bocado de macarrão na boca, fazendo o mesmo barulho que eu apanharia se fizesse com minha mãe na mesa. Soltei uma gargalhada muito alta e não conseguia explicar o que estava acontecendo por causa do inglês.
Quando foi minha vez de comer, conforme puxava o macarrão com a boca, ele balançava e molhava todo o meu rosto! Eu e Neymara passamos mal de dar risada. O jantar foi mais que uma festa, quase deu câimbra de tanto rir.
Acordamos bem cedo e fomos tomar café. Achava que seria um pão quentinho com requeijão, frutas e café. Que nada! Era arroz branco, sem sabor nenhum, ovo cru e peixe cozido. E de manhã! Sorte nossa que havia aquela famosa sopa Missoshiro.
Só queria saber de arroz com shoyo e sopa. Um dia cheguei a mostrar meu prato para o Marcelo, que pareciam ter umas minhocas com olhos. Quando percebemos, eram peixinhos bem pequenos, secos ao ar livre e muito famosos na culinária japonesa.
Outra hora engraçada foi a do banho. Era uma espécie de jacuzzi, com uma água muito quente. Não tranquei a porta do banheiro e momentos depois entraram dois japoneses. Tomei um susto. Depois descobri que aquilo era um banho coletivo. Depois dessa não teve como, passei a trancar a porta. Só escutava os japoneses reclamando do lado de fora.
Me impressiona no Japão a sua organização e capacidade de transformar tudo. Um dos campeonatos era realizado em uma piscina de ondas. Frio danado do lado de fora e dentro do complexo coberto clima de praia normal, com direito a água quente e calor. Foi umas das etapas mais iradas que já competi.
Tivemos um dia de treino antes do campeonato e curtimos muito! A piscina era ligada a cada meia hora, depois brincávamos no parque aquático. Nesta época, o Circuito GOB (antigo circuito mundial) era junto com o das meninas, então o time brasileiro era enorme.
Juntos, deveríamos somar umas 15 pessoas. Eu, Guilherme Tâmega, Marcelo Pedro, Paulo Esteves, Fábio Aquino, Jeferson Anute, Marcello Roichman, Daniel Rocha, Neymara, Karla Costa, Stephanie Pettersen, Leila Ali, Cláudia Santos, Mariana Nogueira e Daniela Freitas.
Parecíamos uns malucos naqueles tobogãs! Descobrimos como parar a água do negócio e ficávamos todos dentro do escorregador, esperando os japoneses descerem. Era muito engraçado a cara deles quando chegavam no meio do tubo e davam de cara com a gente gritando.
Falando de Japão não poderia faltar o famoso karaokê. Fomos a um “Hotel Karaokê” (alugam quartos com Karaokê) em um quarto para 16 pessoas. Claro que não ia dar certo. Algum engraçadinho teve a infeliz ideia de pegar um extintor de incêndio e jogar dentro do quarto. Resultado: A máquina quebrou e todos tiveram 200 dólares descontados da premiação para ajudar a pagar a conta.
Mas a melhor furada de todas aconteceu em uma noite que resolvi visitar a galera em outro hotel. Como não havia carro, peguei uma bicicleta no meu hotel. Tudo certo até que na volta fui parado pela polícia. A comunicação em inglês era difícil (a minha era ruim, mas a deles era péssima) e só entendi que tinha que mostrar o documento da bicicleta. Documento da bicicleta? Foi uma das piores comunicações que já tentei na minha vida. Acabei escoltado até meu hotel e só entendi o que estava acontecendo quando o gerente veio ajudar.
Hoje em dia não temos mais as etapas no Japão, o que é uma pena. Mas fica aqui minha homenagem a este povo tão educado, simpático e acolhedor. Já conseguiram reerguer o país uma vez. Que Deus ajude a todos neste momento.
Boas ondas!






