Lembrancas da primeira trip ao Peru

Todos nós temos histórias hilárias sobre surf trips. Hoje, encontrei um dos personagens de uma das minhas primeiras viagens internacionais: o guarujaense Alcino ”Pirata”.

 

Para quem não o conhece, Pirata perdeu uma de suas pernas atropelado por um caminhão em uma viagem de moto para Minas Gerais, e atualmente surfa somente com uma perna – muito melhor do que muita gente com duas.

 

Ele entuba em Pipeline e Padang com uma mão apoiada no bico e sua única perna na rabeta da prancha.

Peru era nosso destino. O Pirata foi na frente com outro amigo, o Fábio ”Feijão”. Depois de

dez dias, eu, Alemão de Maresias e minha ex-namorada demos de cara com as paredes longas e saborosos pratos de cebiche.

 

Eu nem imaginava como uma viagem que estava programada para 15 dias, se prolongaria por dois meses e traria tantas experiências para guardar.

Que beleza! Eu com meus 17 anos, muita disposição para surfar, e mais de cinquenta peças de roupa do meu patrocinador para vender.

 

Afinal, tinham me dito que era moleza transformar os ‘panos’ em ‘cash’. O único

incoveniente foi notar que a água do banho era salobre, não por mim, e sim por minha namorada, que estava acostumada a gastar uma grana em shampoo e condicionadores dos mais variados.

 

Acabamos obrigados a comprar galões de água para que ela lavasse pelo menos os cabelos.

Ficamos todos instalados no mesmo hotel, cerca de cinco brasileiros, a pé, por toda a extensão da famosa cidade de Punta Hermosa.

 

La Isla, Punta Rocas, Senhoritas, e quando o swell passava dos oito pés, o sonho de pelo menos ver Pico Alto quebrando assolava nossas mentes.

 

Surfávamos duas ou três vezes por dia sem nos incomodar com frio. Pelo ao contrário, estávamos todos pirados em aproveitar ao máximo as quilométricas paredes.

 

Cabaleros, uma direita parecida com Velzyland na maré cheia, era meu alvo freqüentemente. Demais! 

Certo dia, Pirata descobre que sua prótese sumiu e passou a ir como um ‘saci’ para todos os picos, sempre com uma ajudinha da galera.

 

Ir para Punta Rocas e voltar para La Isla era rotineiro no nosso itinerário.

 

Pirata estava instalado no último andar da Pousada, em um quarto com o Feijão. Durante à noite, ele ficava com preguiça de fazer o ‘número um’ no banheiro, e urinava em uma garrafa que era despejada na caixa d’água todo dia antes do café.

Depois de descobrir, cerca de uma semana depois, que sua protése havia sido escondida pelo Feijão, o Pirata fez algo a ele impublicável aqui.

 

No telhado, ele literalmente urinava na minha cabeça, e da minha namorada (que à essa altura já não comprava galões de água), do Alemão de Maresias, e de seu amigo Joaquim. Fora os outros hóspedes.

Doidera? Imagino a cara da galera rindo disso…

Ficamos nessa rotina cerca de um mês até a volta do Pirata ao Brasil e a chegada dos big riders Jorge Pacelli, Alemão do Pernambuco, e do fotográfo Basilio Ruy. Eles descolaram um hotel alucinante na frente de Pico Alto, o melhor da área.

 

A promessa de um anúncio, publicado em uma revista especializada, em troca de acomodacão para os atletas (Jorge e Alemão) deu oportunidade para trocarmos a pousada pelo hotel pelo mesmo preço.

Pés quentes na área. O dono do hotel, César Cores, gente finíssima por sinal, deixou uma van novinha à nossa disposicão para quando quiséssemos fazer uma visita à capital Lima.

Combinamos de ir jantar na cidade. Toda galera dentro da van. Eu, Alemão do Pernambuco, o Alemão de Maresias, Pacelli e Basílio na pilotagem.

 

Maior zueira e na porta da cidade. Quando estávamos dentro de um túnel, ninguém viu uma pedra gigante no meio da pista. Batemos na pedra e capotamos. Resultado: van destruída, os alemães com cortes na cabeça, e eu, Jorge, e Basílio nos safamos de algo pior.

Coincidência ou não, tinha um telefone do outro lado do túnel e fomos ligar para o César. Bom, o telefone ficava dentro do Pizza Hut e aproveitamos para jantar.

 

“Pôxa, Cesar, vem aqui que batemos a van. Se quebrou muito? Não, acho que só entortou o eixo da roda da frente”, explicava Basílio pelo telefone.

 

A cara do César na hora que viu a van foi impressionante.

A minha ao ver o Alemão gritando:”Onde está Felipe Pomar???, dentro do táxi a caminho do hotel, como um louco, no mais alto volume, também me deixou adrenalizado. Na hora que saímos do carro, notei que ventava forte, coisa atípica no local.

Sem previsões da internet, acordei com os berros do Pacelli: “Pico Alto está quebrando”.

Caral… Fiquei adrenado. Pacelli e Alemão do Pernambuco já passavam parafina em suas 10 pés, enquanto eu saía do quarto do Jorge com sua 8?10.

Foi minha primeira experiência com ondas acima de 15 pés. Na primeira grande série que entrou, eu estava posicionado para a maior e dropei só com a terceira quilha grudada na parede.

 

Até hoje lembro a cara do Alemão de Maresias, amarradão, voltando pelo canal com sua 7?6. Jorge pegava onda atrás de onda, os irmãos locais Luisfer e Kike já mostravam sua paixão por aquela onda botando para baixo! Capilé, que estava na casa dos irmãos locais, gritava: “Deus, manda séries cada vez maiores!”.

 

Seu pedido foi uma ordem e em segundos o horizonte fechou e todos tomaram uma série violenta na cabeça. Eu e ele fomos arrastados praticamente até a beira. Capilé, com a prancha quebrada no meio, teve que sair da água, e eu voltei zonzo pelo canal.

 

‘Eita’ barca boa. Todos nós temos histórias hilárias para contar. E olha que eu não contei tudo, pois nem tenho coragem de falar sobre o grau de loucura que chegou essa barca.

 

Deixamos algumas pranchas e todo nosso dinheiro. Mas, com certeza não foram suficientes para cobrir o prejuízo da van. Nos dois anos seguintes, já com a ajuda da internet, desfrutei de dois swells ainda maiores no outside mais famoso do Peru. Nesse ano, peguei a onda de tow-in.

 

Evolução é isso aí.

 

Obs.: Só fiquei sabendo que o Pirata mijou em nossas cabeças dois anos depois!

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