Pichilemu Women's Pro

Leilani triunfa no Chile

 

O Maui and Sons Pichilemu Women’s Pro by Royal Guard foi encerrado com chave de ouro nas ondas excelentes de Punta de Lobos, em Pichilemu, no Chile. A jovem surfista da Costa Rica, Leilani McGonagle, de apenas 17 anos de idade, conquistou o título com sua segunda nota 10 no último domingo (8) e precisava disso para superar a australiana Freya Prumm, 26 anos, que tinha largado na frente com duas ondas que valeram 8.17.

 

Leilani foi vice-campeã na final do ano passado com a campeã mundial Sofia Mulanovich e agora festejou sua primeira vitória no WSL Qualifying Series na inédita decisão sem nenhuma sul-americana em quatro anos do QS 1500 do Chile. A argentina Josefina Ané e a peruana Daniela Rosas, ficaram nas semifinais.

“Eu estava com muita vontade de ganhar esse evento, porque no ano passado fiquei em segundo, então estou muito feliz por ter conseguido minha primeira vitória no QS aqui”, diz Leilani McGonagle. “As ondas estavam superboas e não existe um evento com ondas tão boas como essas. Tomara que tenha um QS 6000 aqui nos próximos anos, porque as ondas têm muita qualidade para isso. Todas as meninas surfaram superbem e estou superfeliz por estar aqui, fazendo outra final e dessa vez ganhando o título então, não tenho palavras para descrever toda a emoção que estou sentindo agora”.

No domingo, Punta de Lobos continuou bombando boas ondas de 2 metros, porém aumentou bastante o intervalo entre as séries, com poucas entrando nas baterias no mar congelante do Chile. A escolha das melhores ondas ganhou peso decisivo e não poderia perder qualquer chance de surfar. Sem exceções, todas as surfistas saíam da água destacando a qualidade internacional da onda de Punta de Lobos. A comissão técnica aumentou o tempo das baterias de 30 para 35 minutos e buscou as melhores condições para realizar as fases decisivas, inclusive a grande final, que só foi iniciada as 17:15 no Chile.

Final nota 10 A costa-riquenha Leilani McGonagle vinha embalada pela nota 10 recebida na semifinal, com a potência das suas manobras de frontside nas esquerdas pesadas de Punta de Lobos. Mas, foi a australiana Freya Prumm quem surfou a primeira onda na decisão do título, atacando forte de backside com batidas e rasgadas executadas com pressão. Leilani começou um pouco lenta, alongando as manobras e fazendo outras sem nada tão expressivo. Os juízes deram nota 8.17 para a australiana largar na frente e 5.67 para a surfista da Costa Rica.

A segunda série demorou para entrar e Leilani pegou uma boa esquerda, dessa vez atacou com mais força, variando longas rasgadas com batidas explosivas durante todo o trajeto da onda. Na de trás, Freya Prumm pega uma maior, já manda uma batida incrível no lip da onda e segue botando potência nas manobras para se manter na frente depois da primeira boa apresentação da sua adversária. A nota da Leilani saiu 7.60 e Freya ganhou outro 8.17 dos juízes, abrindo 8.74 de vantagem sobre a costa-riquenha.

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Com direito a duas notas 10, Leilani McGonagle fica com o título do QS 1.500 em Punta de Lobos. Foto: Xabier Azcarate.

 

As duas voltaram a sentar lado a lado no outside, perto das pedras no visual magnífico de Punta de Lobos, para esperar a próxima série de ondas. O tempo passava rápido e Leilani entrou numa quando já restavam 12 minutos para o término da bateria, mas era fraca e ela logo abandonou, voltando para perto da australiana, que tinha a prioridade de escolher a próxima. Logo, Leilani pegou outra que ela deixou passar e essa armou o paredão no outside para mandar duas manobras explosivas e seguir atacando a onda com força e velocidade até o fim para receber nota 8.03, mas ainda precisava de 8.31 para vencer.

A australiana permaneceu no outside até entrar uma série enorme a 5 minutos do fim. Ela arriscou uma manobra muito forte, mas caiu e a de trás ficou para Leilani. A onda era bem melhor, abriu o paredão para a surfista da Costa Rica arrancar aplausos da praia com uma apresentação simplesmente fantástica, fazendo uma série de grandes manobras abrindo leques de água numa onda muito longa. Os juízes deram outra nota 10 para ela virar o placar para 18.03 a 16.34 pontos e faturar o título do Maui and Sons Pichilemu Women’s Pro.

“Foi muito legal fazer a final com a Freya (Prumm), que é uma grande amiga minha”, diz Leilani. “Eu sabia que tinha que surfar forte, porque ela começou bem e poderia aumentar a vantagem a qualquer momento. Eu estava um pouco nervosa, porque tinha pouco tempo e não sabia se ia pegar outra onda. Mas, no final apareceu essa superboa onda e me senti em casa. Eu necessitava de uma nota bastante alta e graças a Deus eu consegui fazer todas as manobras que tentei e estou muito contente pela nota 10”.

Com os 1.500 pontos da vitória no Chile, Leilani saltou da 47a para a 32a posição no ranking do WSL Qualifying Series e faturou o prêmio de 10 mil dólares oferecido à campeã. Apesar da derrota na final, Freya Prumm ficou satisfeita pelo vice-campeonato em sua primeira decisão em etapas do QS esse ano. Com os 1.125 pontos recebidos na primeira final sem nenhuma sul-americana em quatro edições do Maui and Sons Pichilemu Women’s Pro, a australiana subiu do 76o para o 59o lugar no WSL Qualifying Series.

“Eu adorei Punta de Lobos, a onda aqui é incrível, certamente uma das melhores esquerdas que eu já surfei em campeonatos”, diz Freya Prumm. “Eu só tenho que elogiar a Leilani (McGonagle). Ela foi absolutamente fantástica e não consigo acreditar que deixei ela pegar aquela onda nota 10. Mas, está tudo certo, vivendo e aprendendo. Eu quero agradecer a todos vocês que vieram na praia nos apoiar esses dias e por terem um país tão maravilhoso, que eu desejo conhecer mais. Obrigado”.

Semifinais Nas semifinais, Freya Prumm ganhou sua última bateria no Chile. As longas calmarias foram fatais para a argentina Josefina Ané, que tinha feito um grande duelo contra a líder do ranking da WSL South America, Anali Gomez, batendo a peruana no primeiro confronto do dia com um ataque incrível na onda que surfou no último minuto e valeu nota 9.60. Contra a australiana, ela começou forte com 8.50 na primeira onda, porém foi a única que surfou durante os 35 minutos da bateria e acabou eliminada por 12.83 a 8.50 pontos.

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Pódio do Pichilemu Women’s Pro. Foto: Max Petit-Breuilh.

 

“Estou um pouco triste, porque vinha surfando bem, comecei a bateria com uma onda boa, mas depois o mar ficou flat. Aí esperei, esperei, mas não consegui pegar uma segunda onda, lamentavelmente”, diz Josefina Ane, que subiu de 59 para 49 no WSL Qualifying Series e assumiu a sexta posição no ranking sul-americano da WSL South America. “Mesmo assim, estou contente com o meu desempenho. O campeonato foi incrível, com altas ondas, todas as meninas surfaram muito bem e agora vamos ver a final, quem vai ganhar”.

Na outra semifinal, Leilani começou a comandar o espetáculo nas ótimas ondas de Punta de Lobos. Era um duelo entre adolescentes com muito potencial para brilhar no circuito da World Surf League num futuro próximo. A peruana Daniela Rosas, de apenas 15 anos de idade, foi a grande surpresa do evento e vinha mostrando muita atitude para encarar o mar pesado do Chile com seu backside vertical. Mas, a costa-riquenha começou forte com nota 7,83 e massacrou sua segunda onda de uma forma tão incrível, que arrancou nota 10 unânime dos cinco juízes pela primeira vez no ano em Pichilemu. Daniela não teve o que fazer, mas foi um dos destaques do evento no Chile.

“Foi um campeonato incrível e a Trini (Trinidad Segura) está de parabéns por fazer esse evento, que certamente é um dos melhores do QS no mundo”, diz Daniela Rosas. “As ondas estavam incríveis nos três dias da competição, eu consegui surfar bem em quase todas as baterias, algumas bem difíceis, então estou muito contente pelo resultado. Apesar de nesta bateria não ter conseguido surfar muitas ondas, o terceiro lugar foi bom para mim também”.

Sul-americano Daniela Rosas subiu para o quinto lugar no ranking sul-americano, que continua liderado pela também peruana Anali Gomez, seguida pela equatoriana Dominic Barona. Outra peruana, Melanie Giunta, está em terceiro lugar e a quarta colocada é a argentina Lucia Cosoleto. Mais duas etapas vão decidir o título sul-americano de 2017 da WSL South America, ambas estreando no calendário do WSL Qualifying Series. A próxima é no Brasil, o QS 1500 Neutrox Weekend nos dias 20 a 22 de outubro na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. E a outra é o Reef & Paris Women´s Pro nos dias 28 e 29 em San Bartolo, no Peru.

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Peruana Anali Gomez lidera o ranking sul-americano. Foto: Xabier Azcarate.

 

Anali Gomez foi barrada no primeiro duelo do domingo, que ela liderou do início até o último minuto. Foi quando ela deixou passar uma onda achando que não tinha potencial, mas a argentina Josefina Ané pegou e ela abriu uma longa parede para fazer várias manobras. Os juízes deram a maior nota do evento até ali – 9.60 – e a peruana acabou eliminada por 17.10 a 16.33 pontos. Anali ficou em quinto lugar no Maui and Sons Pichilemu Pro, empatada com as norte-americanas Marissa Shaw e Autumn Hays e com a surfista do País Basco, Leticia Canales Bilbao, que foram derrotadas nas outras baterias das quartas de final.

“Esse é um dos melhores eventos do QS e estou contente com minha participação. Cometi um erro ali no final, mas a Josefina (Ané) mereceu vencer, surfou muito bem a onda e mereceu. Estou feliz por estar aqui e pelas ondas que surfamos nesse lugar incrível que é Punta de Lobos”, disse Anali Gomez, que depois ficou torcendo para a jovem Daniela Rosas na transmissão ao vivo pelo worldsurfleague.com. “Esse é o futuro do surfe peruano”, vibra “La Negra”, como Anali é conhecida, depois de Daniela vencer a americana Marissa Shaw nas quartas de final.

Pichilemu Women’s Pro 2017

 

Resultado

 

1 Leilani McGonagle (CRI)

2 Freya Prumm (AUS)

3 Josefina Ané (ARG)
3 Daniela Rosas (PER)
5 Anali Gomez (PER)
5 Leticia Canales Bilbao (EUK)
5 Marissa Shaw (EUA)
5 Autumn Hays (EUA)

 

Galeria de campeãs

2017: Leilani McGonagle (CRI) derrotou Freya Prumm (AUS) na final
2016: Sofia Mulanovich (PER) derrotou Leilani McGonagle (CRI)
2015: Alessa Quizon (HAV) derrotou Sofia Mulanovich (PER)
2014: Dax McGill (HAV) derrotou Josefina Ané (ARG)

Ranking sul-americano depois de três etapas

1 Anali Gomez (PER) – 1.980 pontos
2 Dominic Barona (EQU) – 1.825
3 Melanie Giunta (PER) – 1.445
4 Lucia Cosoleto (ARG) – 1.040
5 Daniela Rosas (PER) – 980
6 Josefina Ané (ARG) – 860
7 Karol Ribeiro (BRA) – 840
7 Tainá Hinckel (BRA) – 840
9 Maju Freitas (BRA) – 733
10 Lorena Fica (CHL) – 695

G-6 do WSL Qualifying Series depois de 35 etapas

 

1 Silvana Lima (BRA) – 15.300 pontos
2 Tatiana Weston-Webb (HAV) – 14.150
3 Caroline Marks (EUA) – 13.430
4 Keely Andrew (AUS) – 13.050 e top-10 do CT
5 Bronte Macaulay (AUS) – 12.950
6 Sage Erickson (EUA) – 12.650 e top-10 do CT
7 Coco Ho (HAV) – 11.700
8 Johanne Defay (FRA) – 11.200 e top-10 do CT
9 Paige Hareb (NZL) – 10.510

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.