África do Surf

Kado Costa revela segredos

Kado Costa presencia o momento mágico do amanhecer em Jeffreys Bay. Foto: Arquivo Pessoal Kado Costa.

Conversando um pouco com minha irmã, a campeã mundial de bodyboard Karla Costa Taylor, que reside em Uvongo, perto de Durban, África do Sul, decidi que conheceria as tão faladas ondas africanas.

 

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Aos poucos, ela me convenceu que o melhor investimento seria viajar pelo litoral africano, que tem pouco crowd, altas ondas, muita lenda de tubarões e água fria.

 

Marquei então as minhas tão sonhadas férias de verão, peguei 20 dias de descanso e parti com minha namorada Juliana para lá.

O desembarque na África do Sul foi tranqüilo com minha maninha, seu marido Alistair Taylor (10 vezes campeão sul-africano de bodyboard) e meu sobrinho, todos me esperando de braços abertos.

 

Pisando em terra, me espantei com tanto desenvolvimento e organização. Logo imaginei que o Brasil tinha muito o que melhorar e comecei a ficar com vergonha de meu país.

Descendo a costa por vias expressas sem nenhum buraco na pista e cercado por carros de alto luxo, já percebi que eu imaginava tudo errado sobre o lugar. Todos países têm defeitos, mas o Brasil está realmente fora do controle.

O litoral Africano é lindo, com muitas casas e um povo bem calmo, além da nítida presença de diversos povos, como  Zulu, African’s, Muçulmanos, Indianos e Ingleses. A natureza é muito preservada e os animais são atrativos especiais.

 

A pobreza era engolida por mansões e riqueza pelo meu espanto. Essa mistura me deixava espantado por se tratar de povos completamente diferentes, com culturas diversas e vivendo normalmente em um território marcado pelo apartheid no passado.

Aos poucos me adaptava às diversas línguas e culturas. O lojista era indiano, o padeiro africano, o dono do posto de gasolina muçulmano e o inglês pagava as contas. Em alguns dias o estranho se passou despercebido e tudo não passava de um povo lutando por suas famílias e ideais.

Descendo pelo litoral em direção a Durban e Uvongo, tive a primeira visão do mar. Ondas em dezenas de picos, espalhados por todo lado e isso em pleno verão carioca/africano.

Ali já fiquei tranqüilo, pois meu investimento já tinha valido a pena. Com o material certo em mãos (duas pranchas: Ricardo Martins 6´3″ e Secco 7´0″), só pensava em ir para água.

 

Já adianto a informação que no verão você pode surfar de bermuda quase todos dias, apenas o oceano Atlântico e Cape Town eram realmente um iceberg. Nos outros locais, o uso do long john era apenas para se proteger dos reefs.

Alistair estava por dentro dos mapas de previsões da marinha americana na web e me mantinha sempre informado. Com sorte, existia a possibilidade de surfar J-Bay com 8 pés.

Essa informação invadia minha cabeça a todo momento, mas ficaria para o final da trip depois de 15 dias no total de 20. Ele confirmou que o swell batereria no final de minha estadia. Eu olhava para aquela mente quieta e sabia que estava com o cara certo, afinal ele era 10 vezes campeão sul-africano.

 

O cara conhece cada beco de onda que nem tubarão imagina ter isca por ali. Por falar em tubarão, o que todos temem na África do Sul, ele existe sim, mas não é igual aos filmes de ficção, nos quais você coloca o pé na beira da água e o bicho vem voando com a boca aberta.

 

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Kado conhece o lado de dentro de J-Bay. Foto: Arquivo Pessoal Kado Costa.

Tubarões existem, mas também existe muita vida marinha para alimentá-los. Como era novato no pedaço, resolvi criar uma fórmula matemática para me deixar mais tranqüilo. Parti do principio que se tiverem quatro  surfistas na água, terei 25% de chance de ser a isca. Quanto maior a quantidade de surfistas, menor a probabilidade de ser isca.

E assim aos poucos fui conhecendo picos nunca falados na imprensa brasileira. São eles: The Bluff, Caves, St. Mikes, Lucys, Uvongo, Margate, Cold, Victoria Bay,Mossel Bay, St. Francis Bay, Seal Point, etc.

 

O povo dali esconde muitas ondas e fortalecem a presença de tubarões para que seus playgrounds não fiquem iguais ao North Shore. As fotos relatam o potencial do local.

Depois de uns dez dias surfando 4 a 6 pés todo dia em fundo de reef, areia e pedras, já havia feito a cabeça nas ondas e a cada dia perguntava “Alistair, how´s the waves tomorrow?” e ele “not bad”. Esse “not bad”, me soava como um “classic surf tomorow “, vindo de um cara que surfou 30 pés de bodyboard em Mavericks, 6 pés para ele é meio metro. Na minha mente já imaginava o dia posterior como seria… Dreams!

Minha irmã grávida e sem poder desfrutar das ondas, sempre falava rindo “tá vendo, te falei que dava altas ondas e sem crowd! Tu acha que eu iria trocar Hawaii por isso aqui porque!? E ria…

Eu estava no paraíso em pleno século 21, tudo por causa da palavra tubarão e água fria. Graças a Deus. Sonhando com a previsão de J-Bay quebrar, cada dia era um treino para a onda tão falada.

Antes de viajar pesquisei na internet sobre Durban e fiquei sabendo que lá existia a maior piscina de ondas do mundo. Patenteada pela Wave House, um complexo de entretenimento, surf, skate, parede de escalada e um bungee jump . Isso tudo dentro de um shopping gigantesco.

Marquei com minha irmã e Alistair, namorada e sobrinho e partimos todos para lá. Queria muito conhecer a máquina de ondas clássicas.

Dia seguinte ao chegar no local me deparo com duas paredes azuis (esquerda e direita), com uma torre no meio. Olhei e pensei, o que é isto? Até que o cara apertou o botão! E duas ondas clássicas tubulares de 4 pés se formaram para esquerda e direita.

 

De longe meus passos aceleravam e procuravam a placa chamada “tickets”. Fiquei chocado com aquilo, preciso entrar naquele tubo e dormir lá dentro, até que minha namorada rodasse todo shopping Center com o cartão de crédito, nesse momento sem limites.

Comprei o ticket tão sonhado e aguardava na fila com 4 pessoas para direita e nenhuma para esquerda, ria e pensava que teria aquela esquerdinha só pra mim.

O instrutor me olhou e falou “wait, You are in the second session”, aquilo me matou. Foram os 20 minutos mais demorados de minha vida, de frente para um tubo parado e sem ninguém.

O tubg gritava vem! Vem! Vem! E eu olhando o  relógio sem me mover, até que o instrutor me chamou, escolheu uma prancha, me deu uma corda guia e eu comecei.

 

Comecei a levar um caldo atrás do outro, meu Deus, que coisa difícil! Surfar um tubo sem quilhas. De 1 hora surfando devo ter ficado pelo menos 30 minutos na peneira, quando você cai e é expulso da onda. Até que nos 30 minutos finais comecei a fazer os movimentos certos, que não lembram muito o ponto de equilíbrio do surf no mar. A divisão dos pesos é bem diferente. Tente um dia. É Demais!

A verdade foi que no dia seguinte eu estava lá de novo. Poxa, também fiquei mais na peneira do que no tubo!

 

Acordei e perguntei às nove da manhã para minha namorada, “você não quer ir ao shopping hoje?” (risos) Já pensando na onda perfeita de novo. Precisava ficar mais dentro do tubo!

 

Na segunda vez foi tudo melhor e peguei tubos de horas. Cavando levemente para não derrapar e sempre entocado no tubo.

Realmente é uma sensação surreal você ficar brincando com um tubo que não fecha nunca! Só não pode faltar luz. Indico a todos visitarem, mas levem roupas de borracha, pois a queda é forte e machuca, mas a recompensa é muito maior.

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A diversão é garantida nos tubos sem fim da Wave House. Foto: Arquivo Pessoal Kado Costa.

Agora faltava pegar mais um avião em direção a Cape Town e logo depois conhecer uma onda chamada Jeffreys Bay, e pelo andamento da trip tudo daria certo.

Pegamos um vôo para Cape Town, alugamos um carro e curtimos alguns dias em Cape. Uma cidade moderna, linda, cheia de montanhas e com um fim de tarde espetacular.

 

Surfamos alguns picos e a água já se mostrava gelada nessa ponta do mapa. Depois de 15 dias surfando o Índico fui para uma trip em Cold, um pico no lado do Atlântico, já me avisaram que era um pouco frio, para eu me preparar.

Na manhã acordamos e fomos para Cold, literalmente cold demais! Era uma praia com um terral supersônico e diversas ondas sem ninguém. Fomos para o canto direito e lá estavam as ondas, um triângulo de direita azul. Surfamos altas durante horas, mas a água fria venceu a bateria.

Já de cabeça feita, a trip se encaminhava para a parte escura já vista no monitor de Alistair no início do texto. Lá finalizaríamos nossa trip. J-Bay!

 

Depois de dirigir por 7 horas, passar pelo maior bungee jump do mundo, realmente assustador e desafiador, seguimos viagem até chegar ao nosso destino.

 

De cara fui conferir o reef e lá estava J-Bay com sua bancada de dois quilômetros. Ondas de menos de meio metro lambendo a bancada perfeita. Insurfável, mas magnífico em sua perfeição de tamanho micro.

Fomos ver um surferspackers (pousada mais em conta ) e caímos por lá, pelo custo e localização de frente para “Supertubes”, uma das seções da onda.

 

Quando me dei conta, Alistair não parava de olhar as micro ondas quebrarem, como se tivesse uma série vindo a horas dali. Olhei para ele e falei: “Alistair, fique tranqüilo, se não quebrar pelo menos pisei na areia”. Ele me olhou e falou, “can i wake up you in the morning tomorrow? It will break big “. Olhei para ele e pensei: esse cara é louco!

Será que vai quebrar J-Bay mesmo? Falei com minha irmã e ela disse que seria difícil pela época, que não era a melhor para este pico.

 

Na parte da tarde fui conhecer a bancada e vi que era afiada demais, sem canal de entrada e nem de saída. Havia apenas uma fresta no meio da bancada da largura de uma prancha. Ali era a porta de saída.

Nesse momento eu só que saber como entrar caso quebrasse J-bay. Sair era o de menos, se tomasse pontos ou perdesse membros estaria feliz de surfar J-bay.

Como aquela frase ecoava em minha cabeça a madrugada toda: it will break big! It will break big! It will break big! Me alimentei bem, dormi cedo e continuava: it will break big! It will break big! It will break big!

Lá pelas quatro da manhã reparei que a sequência de batidas vinha do oceano, como se fossem trovões. Ás cinco da manhã escuto bater em minha porta. Era ele! Alistair com um sorriso imenso no rosto, falava:

?Kado come and see??

Na mesma hora pulei da cama, coloquei o casaco e peguei uma câmera para registrar a cena única. Enquanto escutava o barulho das ondas, eu andava de encontro com Deus, era ele disfarçado de Jeffreys. Olho o Alistair sentado no mini cliff com a cara mais normal do mundo, e diz: ” I told you! “.

Naquele momento estava tentando entender oque era aquela cena na minha frente: uma máquina de direitas de 6 a 8 pés com sequências de 10 ondas, literalmente trotando pela baía, fazendo linhas simétricas que nem um engenheiro conseguiria projetar.

 

Parecia uma fábrica de sonhos, foram os minutos mais longos de minha vida, golfinhos brincavam surfando como mísseis. Parei e pensei nas pessoas mais queridas da minha vida e acredito que Deus ali estava muito perto de mim.

 

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Alistair Taylor revela o caminho correto. Foto: Arquivo Pessoal Kado Costa.

Algumas lágrimas caíram dos olhos, coisa que nunca tinha acontecido em 20 anos de praia. A perfeição da criação estava em minha frente e agradeci. Alistair olhou para mim e falou: “Kado, you are a lucky guy, Let´s go!? 

Para melhorar a situação fiz amizade com um fotóografo e designer brasileiro que estava de férias ali sentado no mini cliff.

 

Ele me olhou e falou: “tu é brasileiro? Então vou tirar umas fotos suas”. Naquele momento eu queria ser a câmera de minha cena e ele queria ser a minha prancha deslizando nas ondas. Ali eu fechei uma amizade forte em fração de segundos.

 

Nesse momento descobri que eu era o artista da cena e tinha que fazer bonito. Logo entrando percebi as dificuldades do local, o reef rangia querendo comer meus pés, as ondas explodiam sem pena no reef e a fila de entrada a cada minuto aumentava mais. Não era normal quebrar J-bay em pleno verão.

Vi ondas imensas abrindo com perfeição, linhas simétricas pela baía, golfinhos brincando de surfistas e muitos surfistas da velha guarda se divertindo pacas. Era uma cena de filme e eu fazendo parte disso tudo.

Relaxei e surfei altas ondas sem pensar em sair tão cedo. Surfei bastante, respeitei os mais novos e aprendi muito com os mais velhos.

 

A cada onda e em cada cavada a meta era acelerar para passar a bancada, além de marcar a quilometragem mais longa em meu velocímetro, para chegar ao Super tubes em velocidade máxima.

Quando me toquei já era hora de sair para comer algo e fortalecer. Aí veio o desespero, não existia saída, canal ou grão de areia para colocar o pé! Olhava para a bancada na beira e ela se estendia por quilômetros sem saída. 

 

Olhei para um surfista da velha guarda (40 anos de J-Bay) e perguntei onde era a saída. Ele me olhou e riu: “There?s no exist!” Vá direto para as pedras e saia correndo antes que venha uma onda da série. O sonho começou a virar pesadelo, e em segundos me via fatiado no reef em frente ao palco.

 

Aquilo não podia acontecer depois de tudo isso, rezei e comecei a remar para cima da bancada, aos poucos fui sugado pela água junto ao reef como se fosse água vazando entre os dedos da mão de deus. Quando vi estava de pé e sai correndo cortando o pé num ralador humano! Ufa, fui salvo!

Na segunda e terceira caída (com botinhas) já foi bem mais tranqüilo e fiz a cabeça nas direitas mais longas da minha vida. Aprendi muito e curti bastante essa trip.

 

J-Bay é um paraíso, mas tome cuidado pois pode virar um pesadelo. Pergunte muito antes de entrar e observe os mais antigos no pico, respeite e faça muitas amizades. O ser humano é universal e basta um sorriso para fazer amizade ou pedir um help.

Curta o hoje como se fosse o último dia de sua vida e se tiver dinheiro guardado, pegue e gaste em uma viagem para lavar a sua alma. É nela que você irá se fortalecer e ganhar terreno no mercado selvagem, para bancar a próxima Surftrip. Acredite em seus sonhos, acredite que eles podem virar realidade!

Valeu Jeffreys!

Agradecimentos:

Agradeço à minha irmã Karla, meu sobrinho Joshua, minha namorada Juliana, casal Zedu e Cissa (fotógrafos enviados por Deus ) e Alistair Taylor! O guia perfeito da trip! E aos meus pais que me deram a oportunidade de conhecer essa maravilha que é o mundo.

 

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