
Como descrever esse guerreiro? Há muito o que dizer. Posso começar pelo trivial: seu nome é Paulo César Jesus Alves Júnior, nascido no Rio de Janeiro, em 27 de janeiro de 1982.
Posso ir além, relatando que ele mora na maior favela brasileira, a Rocinha, terra de muitos batalhadores.
Ou, posso mencionar que seu pai é técnico de futebol e que sua mãe é uma costureira das boas. E que também tem uma linda filhinha.
Posso continuar contando que ele é um dos melhores bodyboarders do país, líder do circuito carioca, dono de um backflip praticamente imbatível… E que, para compensar as dificuldades de uma carreira sólida e auto-sustentável em um país que não valoriza seus desportistas, ele partiu com tudo para estudar direito. Atualmente, ele é também um dedicado estagiário da Associação Brasileira de Música.
Esse é o Juninho, um cara querido e reconhecido por todos como um verdadeiro vencedor. Conheça abaixo um pouco mais desse herói do bodyboard carioca.
Há quanto tempo você pega onda? O que te motivou no começo?
Foi há exatos nove anos. Eu tinha um vizinho que já surfava e começou a me levar para a praia. Eu ficava na beira do mar, fascinado, vendo a galera surfar. Quando alguém perdia a prancha, eu aproveitava para ficar na espuma tomando uns caldos. Quando ganhei a minha primeira prancha, foi um sonho. Aí, embalei de vez.

Já pensou em parar alguma vez?
Passei uma fase muito difícil há algum tempo. Sem perspectiva dentro do esporte, tudo era inerente à falta de patrocínio e o momento que o esporte atravessava. Mais a pressão psicológica de buscar subsídios para construir um futuro para mim e toda minha família. Mas, graças a Deus, com a ajuda da família e de amigos como Ney Tude e Gabriel, o Pensador, o universo conspirou a meu favor e as coisas estão acontecendo.
Em quem você se espelhou na hora de moldar seu estilo?
No Brasil, existem grandes atletas nos mais variados estilos. Mas, confesso que procurei me espelhar muito no surfe de atletas como Paulo Barcellos, Marcelo Pedro, Hermano Castro. Sempre me preocupei com a cavada. Com uma boa cavada, há 100% de chances de render uma boa manobra. Neste ponto usei o Jefferson Anute como referência, pela capacidade dele imprimir velocidade na onda.
Quem é o melhor bodyboarder do mundo? Algum outro destaque em especial?

Sem sombra de dúvidas é o Guilherme Tâmega. Mas a nova geração está aí dando o maior gás. Podemos citar o José Otávio, Hermano Castro, Paulo Barcellos, Roberto Bruno, Uri Valadão, Lucas Nogueira, entre outros.
Como está sendo este ano para você e quais suas perspectivas para 2004?
Este ano está sendo maravilhoso. Realizei um dos meus sonhos, que era entrar em uma faculdade. Comecei a trabalhar em uma empresa onde pude conhecer pessoas maravilhosas. E ainda por cima, meu patrão é o bodyboarder Ney Tude. Estou liderando o ranking carioca profissional e espero que o próximo ano seja no mínimo igual a este.
Quais os seus picos preferidos?
São Conrado, Itacoatiara e Regência (ES).
Se você pudesse fazer uma surf trip hoje, para onde iria?
Indonésia ou Tahiti.

Qual o segredo para mandar (e acertar) tantos back flips? Não dá medo na hora de aterrissar? Não dói a coluna? Quem você destacaria na arte de mandar back flips?
O segredo é estar confiante, bem treinado e bater no lip na hora certa, sem medo. Eu destacaria como os mais sinistros nessa arte, o Paulo de Castro e o Choco (moleque de São Conrado)
A gente sempre fala das virtudes de um campeão, mas qual seria seu maior defeito dentro d’água? O que vem fazendo para superá-lo?
Meu maior defeito é não surfar tão bem para a direita como para a esquerda, mas estou treinando forte para reverter esse quadro.
Bodyboard dificilmente dá dinheiro, por isso você correu atrás de outra ocupação e entrou na faculdade de direito. Como é conciliar tudo isso? Dá pra manter a qualidade no trabalho, nos estudos e ainda treinar o suficiente?
Realmente é muito difícil, não dá para treinar o suficiente. Porém, a fissura se torna maior. Agora, quando entro na água, libero a adrenalina que estava guardada da semana de trabalho. Já o estudo, é necessário para a vida, portanto, está sempre depois do bodyboard (risos).
Que papo é esse de se candidatar a vereador?
É essa conversa está rolando, mas ainda não tem nada certo. Se pintar, eu peço o voto da galera.
Está preparado para a grande final do circuito no Shorebreak? Quem serão os seus grandes rivais?
Com certeza. Apesar de não estar treinando diariamente e de nunca ter caído no pico, espero pegar bons tubos e levantar o caneco.
Mande um recado para galera do Waves?
Levem sempre consigo a humildade. Tratem a todos com igualdade e procurem caminhar sempre pelo justo meio. Pratiquem bastante esporte e cultura, mantenham-se longe das drogas. E que Deus abençoe a todos.