Bodyboarder paulista Juliana Freitas marcou presença nas morras de Teahupoo em ondas de até quatro metros de altura, nos meses de abril e maio.
A atleta brasileira era única mulher presente no outside, entre os melhores surfistas do mundo, arriscando-se nos tubos insanos de uma das mais perfeitas ondas do mundo.
Qual sua história nas ondas?
Comecei a pegar onda aos 14 anos, em São Vicente, litoral de sampa. Tudo começou na influência das
minhas amigas, fui no embalo e acabei gostando! Elas pararam e eu continuei. Antes das ondas sempre fui fissurada por esportes radicais, fiz de tudo um pouco.
Amava patins in-line, competi por um bom tempo. Quebrei muitos ossos por causa disso (risos). Mas após conhecer bodyboard, fui deixando o patins de lado e, em menos de um ano de surf, estava presente nas competições.
Na primeira fui só para ver como era, minhas professoras me inscreveram e depois deste campeonato, nunca mais parei. Consegui boas colocações em praticamente todos e assim começou a minha luta por patrocínios.
Virou minha paixão! Viajei pelo Brasil inteiro nas competições, foi muito show. Tive bons patrocínios e conheci pessoas abençoadas por Deus, que me apoiaram e acreditaram no meu potencial.
Competi durante anos só no Brasil, mas meu sonho estava nas ondas dos filmes, que tanto me fascinavam. Duas eram as mais sonhadas: Pipeline, no Hawaii e Teahupoo, no Tahiti.
E a primeira viagem internacional?
Corri atrás de empresas que me ajudassem na realização deste sonho. Todos sabem que é difícil e fiquei um tempo sonhando e treinando muito. Eu sabia que uma hora o sonho seria realizado.
Quando mudei pro Guarujá, comecei a treinar muito, levar meus resultados de competições para a Secretaria de Esportes da cidade e eles começaram a me apoiar. Após alguns resultados significativos, recebi apoio na primeira trip internacional, o Hawaii.
Não acreditei quando cheguei na ilha, fui sozinha sem conhecer nada e sem saber onde ficar. Depois dos perrengues do início, conheci a famosa Pipeline e realizei o sonho da primeira onda havaiana por lá.
Muitas pessoas perguntam se senti medo de Pipe. Na real, eu estava tão feliz que medo nem passou pela cabeça. Pipeline tem muito crowd mas é muito show!
De onde surgiu a idéia de encarar o Tahiti?
Planejei minha viagem para durar dois meses, que transformaram-se em oito. Fiquei três meses no Hawaii, peguei muita onda boa e chuva, 45 dias de muita água. Decidi então que não estava pronta para voltar ao Brasil e tinha que renovar meu visto. Decidi encarar o Tahiti.
Qual sua impressão do Tahiti?
Um lugar abençoado por Deus, um paraíso. Cheguei na segunda onda dos meus sonhos, a temida Teahupoo. Hawaii é maravilhoso, mas Tahiti tem um algo a mais. Conheci um fotógrafo no avião que me apresentou à família Philip, que mora em Teahupoo.
Fiquei muito amiga deles e tudo o que eu imaginava do Hawaii, na verdade encontrei no Tahiti. O povo é o mais alegre, humilde e de bom coração que eu já tinha visto. Tive dias maravilhosos e surfei, definitivamente, os melhores tubos de minha vida.
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Como é dropar essas ondas quadradas? E as vacas?
Tem que estar bem posicionada e pronta para botar pra baixo. Dropar Teahupoo melhorou muito meu surf e pode melhorar o de qualquer
pessoa disposta a enfrentar essa onda, tomar caldos e superar os
próprios medos.
Se levar uma série daquelas, na bancada de Teahupoo, é certo ganhar alguns arranhões e os cortes sempre infeccionam. Tem que ficar ligado na hora certa de sair da onda.
Voltou para o Hawaii mais atirada?
Com certeza fiquei mais confiante para pegar ondas grandes e fortes. Fiquei mais quatro meses no Hawaii e voltei ao Brasil.
Em 2006 competi alguns eventos, mas estou sem patrocínios, por isso decidi trabalhar no meu surfe e juntar um bom material fotográfico. Espero com isso, conquistar meu verdadeiro sonho: competições internacionais.
Em 2007, retornei ao Hawaii e competi num Pipeline de sonho. Mas tive uma bateria ruim. Quebrei minha prancha em um rolo e fui desclassificada na primeira fase, mesmo assim não desisti da batalha.
Como foi a segunda trip ao Tahiti?
Foi a trip de meus sonhos! Fiquei na casa da família Philip, onde me sinto em casa. Amo aquela família. Fui determinada à conseguir reconhecimento do meu trabalho e onde a mídia estava, eu também estava.
Cheguei junto com o circo do WCT e encontrei muitos amigos do Brasil. Cheguei e encontrei Teahupoo realmente assustador. Não peguei o pico do swell pois estavam rolando a triagem do campeonato. Nesse fim de tarde consegui pegar boas ondas.
WCT rolou em ondas pequenas e conheci muita gente legal. Vi os melhores surfistas do mundo em ação. No último dia de competição todos sabíamos que ondas grandes estavam chegando. Remando para o outside de Teahupoo, muitos me perguntaram: “Onde vc esta indo? Tem certeza de vai surfar lá? Está perigoso!!
Tive todos os tipos de ?desencorajamentos? possíveis, mas estava pronta. Treinei a vida inteira para isso. No meio de todos aqueles profissionais, que me olhavam como se eu fosse um ET, eu era a única mulher na água. O mar estava realmente assustador, ondas entre três e quatro metros, sólidos.
E a onda da sua vida?
O surfista profissional Manoa Drollet perguntou: ?Você não esta com Medo??. Respondi que todo mundo estava. Foi quando ele perguntou: “Você quer uma grande?”. Respondi que queria qualquer uma. Ele me deu a onda onde tirei o tubo dos meus sonhos.
Todos fotógrafos miraram para mim e ninguém acreditava que uma menina toda de rosa estava naquele mar assustador. Peguei algumas outras ondas e tomei alguns caldos, mas consegui o que queria. Que todos vissem que eu não era mais uma menininha seguindo o WCT para ver os pros. Estava ali para surfar!
No dia que fui embora peguei um mar bom em Teahupoo, pequeno mas bom. Surfei com minhas amigas do Guaruja Marcela Kaltner e Camilla Duarte. Depois de ótimas ondas, saí exausta do mar e uma garota no meio do caminho de casa me parou e disse:
?Ei, você esta no jornal do Tahiti. Já viu??. E eu não acreditei! Saí no jornal junto dos locais mais famosos. O artigo falava do swel e a legenda dizia: ?Todas as atenções estavam na jovem brasileira surfando Teahupoo.?
Quais os planos pro futuro?
Estou super feliz pois sei que vou conseguir realizar meus sonhos e chegar ao tour mundial. Tahiti é, e sempre será, um lugar mágico para mim. Tudo de especial! Se Deus quiser ainda vou voltar pro paraíso mais e mais vezes.


