
Dando continuidade à discussão sobre julgamento, desta vez abordarei alguns pontos das características de um bom juiz.
O surfe, por ter uma avaliação subjetiva, quase que em tempo real, possui vários fatores que atuam na construção de uma nota: a memória, concentração e a capacidade de raciocínio, que se tornam tão importantes quanto julgar dentro do critério, conhecimento e vivência dentro da água.
Se compararmos ao passado, o nível de julgamento hoje é excelente. Temos vários juízes profissionais atuando no Brasil e alguns deles são considerados entre os melhores do mundo.
Tenho visto alguns surfistas reclamarem da falta de renovação no quadro de julgamento. Eles reclamam da falta de surfistas no palanque, só que eles não podem esquecer que é mais fácil um bom juiz, experiente, assimilar novos critérios, do que um bom surfista ter capacidade de avaliação, diferenciação e concentração que o julgamento exige.

Não quero de maneira nenhuma dizer que sou contra bons surfistas no palanque, só quero dizer que a simples substituição não garante que os erros de interpretação e de julgamento acabem.
Não podemos ser radicais, o que devemos é aos poucos ir mesclando experiência dos melhores juízes com a visão das manobras que os bons surfistas têm.
Como técnico sempre fiscalizei os juízes, tenho guardado papeletas históricas, como a da polêmica bateria entre Nelson Ferreira e Paulo Matos em 87, a final do bodyboard no mundial do Japão, onde cada integrante da final teve uma colocação diferente nos cinco juízes, entre outras.
Hoje, como técnico, tento atuar antes das baterias conversando e alertando os juizes-chefe sobre critérios a serem usados durante o dia. Com isso, informo melhor o atleta e crio um compromisso com quem decide.
Adquiri uma outra visão depois de ter julgados vários campeonatos e de ter sido diretor técnico da OSP (Organização dos Surfistas Profissionais),

por conviver com toda evolução do julgamento no Brasil e no mundo. Parei de reclamar na praia porque não adianta, aliás, a única coisa que resolve é tentar não deixar margem para dúvidas.
Listarei algumas características de um bom juiz: capacidade de memorização, de interpretação do critério, de avaliação, de comparação e ter humildade suficiente para estar sempre pronto a se reciclar.
É importante estar atualizado com o que acontece na ASP (Associação dos Surfistas Profissionais), ler tudo sobre o assunto, estar atento a novas manobras e tendências, ler o livro de regras. Tentar criar um parâmetro durante todos os dias da competição, de acordo com as condições do mar. Cada bateria tem sua equação a ser resolvida.
O que norteia a nota é o seu conceito, então, o caminho para se chegar a uma nota é, primeiro, identificar o conceito, para depois comparar com as outras notas da mesma bateria, para finalmente concluir com a nota correta. No mais, boa sorte e não deixe dúvidas.