Artigo publicado pelo site Surfline sobre o Billabong Rio Pro tem dado o que falar. Assinada por Matt Pruett, a análise sobre a etapa brasileira do WCT foi retirada do site depois de despertar a ira dos internautas.
O texto, em tom autoritário e com uma série de observações desagradáveis e termos até mesmo grosseiros, critica o comportamento dos surfistas brasileiros e ignora a performance de nossos atletas. Diante da reação indignada de internautas do Brasil, o texto foi retirado e deu lugar a uma nota na abertura da reportagem sobre o Billabong Rio Pro: “Depois de uma discussão interna e de avaliar a opinião do internauta, decidimos que a melhor maneira de contar a história da vitória de Jordy no Rio é com fotos e legendas”.
Apesar de despublicar o texto, já estava criado um constrangimento absolutamente desnecessário junto aos brasileiros.
“Os brasileiros têm sido objeto de muita tristeza para o público do surf ao longo dos anos.
Então, novamente, deram sua parcela de sofrimento também. Sem generalizar demais, os surfistas brasileiros têm sido tradicionalmente vistos com comportamento bastante desagradável na água”, avalia o autor do alto de sua arrogância.
Matt Pruett prossegue em seus comentários preconceituosos: “Nas baterias, eles são sociopatas. Eles irão te queimar – de preferência com a prioridade, mas não necessariamente sempre. Eles não vão apenas te dar a volta, eles vão remar bem por cima dos seus ombros. E eles vão com postura e intensidade de WWF (World Wrestling Entertainment, entidade de lutas mundiais) ao longo de cada confronto. Eles não parecem se importar com o estabelecimento de uma base de fãs fora do Brasil, e eles não parecem se importar em fazer novos amigos no circuito. Eles só querem ganhar baterias, vencer campeonatos, títulos mundiais – e, claro, comemorar ao máximo cada onda.”
Quer dizer, se Joel Parkinson manda um “dedo” para Kelly Slater na bateria final, não há problema algum. Mas, se o brasileiro usa o livro de regras para tentar se dar bem, o cara é sociopata.
“Jornalistas realmente inteligentes tendem a perdoar os competidores brasileiros, mesmo os de comportamento absurdo – citando a paixão nacionalista fervorosa, a cultura atlética, a sua economia de terceiro mundo, ou o que quer que seja. Mas se nós não responsabilizarmos uma região, ou um patrocinador ou uma liga de atletas pela falta de espírito esportivo ou alta arrogância – mesmo que seja através de um relatório de quase objetiva competição -, como ficam as regras de etiqueta que fizeram parte de nossa cultura ao longo de décadas?”.
O autor novamente faz um juízo de valor de toda uma nação com base em estereótipos criados por ele mesmo, ou seja, uma visão elitista e imperialista, como se o brasileiro fosse digno de pena por não fazer parte do primeiro mundo capitalista.
“Tudo bem você ser um cuzão só porque você é bom? Boa sorte vendendo aquelas bermudas.”. Este parágrafo, então, nem merece comentários.
“Por outro lado, se temos um país inteiro responsável pelas ações peculiares de alguns representantes individuais estimados – sem nenhuma relação com os que ainda não conhecemos – o que dizer sobre os nossos outros preconceitos? Isso quer dizer que todos os havaianos são valentões? Que todos da costa Leste são ingênuos? Que todos os australianos são bêbados e todos os californianos são vaidosos? Essas calúnias são nem justas, nem precisas. Então, por que os brasileiros têm tanta dificuldade em enterrar os estereótipos?”.
Não seria o caso de devolver a pergunta da última frase: porque alguns americanos não são capazes de enxergar cidadãos de outros países sem um pingo de arrogância?
“O último dia do Billabong Rio Pro – com destaque para a maioria dos brasileiros desde… bem, desde a última vez que houve tantos brasileiros nas quartas-de-final – pode ter fornecido algumas respostas.
Uma das perfeitas notas 10 – o jogo aéreo de Filipe Toledo estava tão desgastado que, na segunda semifinal, seu alley-oop se transformou em um chop-hop (espécie de ollie 180 graus) no meio da onda – mas ele continuou comemorando cada décimo de ponto que a onda valia. A multidão deu-lhe a pontuação. Os juízes não.”
Traduzindo, se o público incentivar o jovem surfista brasileiro o juiz deve condená-lo à derrota, simples assim.
“Depois de rabear Ace Buchan em uma falha de comunicação da prioridade para ganhar nas quartas-de-final (mesmo tendo uma nota 10), o queridinho da mídia global Gabriel Medina baixou o nível contra Adriano de Souza, remando desesperadamente nas costas de Adriano em uma loucura no último minuto para buscar a virada. Sim, esta é a forma como as melhores brazucas do mundo tratam os seus amigos.”
OK, Matt sei lá o quê, mas onde você estava metido nas muitas vezes em que Kelly Slater remou igualmente desesperado para cima do rival no último minuto de uma final para buscar a onda salvadora?
Em seguida, talvez na tentativa de demonstrar um mínimo de imparcialidade, o autor tenta “absolver” Adriano de Souza de sua fúria imperialista.
“Hoje, em rampas de meio a 1 metro de altura na Barra da Tijuca, Adriano de Souza – o surfista mais vitorioso da história do Brasil e um candidato legítimo ao título da ASP em 2013 – enfeitou a decisão do evento em seu país, sua segunda final consecutiva. A grande novidade não é que ele perdeu para um Jordy Smith tecnicamente superior, apesar de quase alcançando o sul-africano no ar. A grande novidade é que, além de ter surfado mais que Adriano, 17,80 – 16,34, Jordy também comemorou para cima de Adriano. E, aceitando a derrota, Adriano provou ser o mais sereno e humilde brasileiro na praia do Arpoador (sic) hoje.
‘Jordy me bateu por 35 minutos, e ele quebrou muito durante todo o evento’, disse Adriano. Jordy é o melhor, então parabéns para ele. E obrigado’. Boa surpresa”.
Depois de tanto ressentimento, incômodo e dor de cotovelo neste texto baixo-astral, é justo considerar que, além de todas as dificuldades naturais para o surfista brasileiro no tour, ele ainda tem de conviver com uma mídia hostil e preconceituosa.
Quanto à mágoa do autor, essa não dá para deletar ou tirar do ar como fez o patrão. Essa questão, nem Freud explica, afinal esse texto não se trata de uma crítica. É pura avacalhação. O Brasil tem lá os seus problemas, e não são poucos, mas os guerreiros brasileiros do World Tour, bem como todos que lhes dão apoio, merecem mais respeito.
Este negócio de deletar textos em prática de auto-censura não é saudável para a imagem dos meios de comunicação. Mas, em relação a este documento, recheado de preconceito, mandaram bem ao despachá-lo para a lata de lixo.