Artesão

John Carper no Brasil

John Carper, Oahu, Hawaii.. Foto: Bruno Lemos / Lemosimages.com.

Bruno Lemos, correspondente do site Waves.Terra no Hawaii, visitou recentemente a oficina de um dos mais consagrados shapers do mundo, o californiano John Carper.

 

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Dono de linhas modernas e designs inovadores, JC é unanimidade quando o assunto é prancha de alta performance.

 

Shaper de grandes surfistas como Peter Mel, Jesse Hines, Cheyne Cottrell, Sean Moody, Josh Hoyer, entre outros, o californiano esbanja simpatia e não esconde a fé cristã.

 

Mestre na arte de fazer pranchas, o proprietário da marca JC Hawaii conta um pouco de sua trajetória nessa entrevista exclusiva desde o dia em que partiu para o North Shore, e seu relacionamento com o havaiano Shane Dorian, amigo pessoal e principal atleta da marca.

 

JC revela ainda a motivação para manter-se em atividade há várias décadas e também fala um pouco sobre os próximos projetos, que incluem a entrada da marca no mercado brasileiro.

 

Você poderia falar um pouco sobre como começou a shapear e o que faz hoje em dia?

 

Eu cresci em South Bay, Califórnia (EUA), e assim que concluí o segundo grau fui para um surf trip em Maui, Hawaii, e nunca mais voltei pra casa. Um dia quando surfava sozinho vi dois caras tirando pranchas que eu nunca havia visto antes de um carro alugado. Até pensei que fossem grandes kneeboards, já que estava com minha 10 pés ?Donald Takayama 3 Stringer Jacobs?, considerada a melhor prancha da época.

 

Os dois caras no estacionamento eram simplesmente Nat Young e Bob McTavish, treinando para o World Cup of Surfing em San Diego com as primeiras ?shortboards?. Eles simplesmente quebraram as ondas naquele dia. Fiquei tão impressionado e um tanto envergonhado, que entrei na água apenas para assistir. Após aquela apresentação fui para casa em Lahaina, tirei toda laminação da minha prancha e fiz debaixo de uma árvore meu primeiro shape de pranchinha.

 

Com o novo shape pronto fui até o centro da cidade e perguntei em uma loja o que era preciso para laminar uma prancha. A vendedora mesmo sem saber do que se tratava me vendeu uma resina para barco e uma ?sure form?, que seria usada para descascar o bloco.

 

Tenho a ?sure form? até hoje e a uso quase todos os dias. Isto foi há 40 anos e ainda tenho fôlego para fazer pranchas de alta performance. Mas também posso fazer modernos pranchões.

 

Acho que fui o único de um grupo de amigos que era hábil e cuidadoso o suficiente para fazer pranchas, ou o único louco suficiente, mas logo no começo sempre fui muito dedicado e shapeava e laminava mais de 10 pranchas por dia durante muitos anos. Exceto quando quebrei meu pescoço surfando e fiquei um ano e meio semi-paralisado.

 

Durante todo esse tempo, e devido à benção divina e muita reza, que eu não somente voltei a surfar, como comecei a levar mais a serio o ?business? de fazer pranchas. O mais importante é meu relacionamento com Jesus, ele me ilumina em todos os caminhos e me orienta nos momentos difíceis, sou uma pessoa muito religiosa.

 

Minha idade? (risos) Bom, sou experiente o suficiente para saber como fazer uma prancha. Sou shaper há mais de 40 anos e minha inspiração continua a mesma. Fazer pranchas para diferentes surfistas do mundo todo e para meus amigos.

 

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Shane Dorian testa os foguetes projetados por JC em Waimea, Oahu, Hawaii. Foto: Bruno Lemos / Lemosimages.com.

Há muito tempo o Shane Dorian é o principal surfista patrocinado pela JC Hawaii, fale um pouco sobre como começou esse relacionamento de sucesso.

 

Eu ainda era auxiliar de shaper em Big Island quando Shane Dorian era um pequeno garoto de 12 anos de idade e já era conhecido como um fenômeno do surf. Naquela época éramos todos um bando de hippies curtindo a vida, mas eu já tinha uma boa experiência fazendo pranchas para a Lightning Bolt.

 

Eu morava em Hilo e tinha uma pequena fábrica chamada Island Fusion. Nessa época, eu organizava campeonatos amadores no Hawaii, quando em um evento flagrei o Shane e outros garotos falsificarem a assinatura dos pais para participar da competição. Devido àquela atitude desclassifiquei todos do campeonato.

 

Sua mãe quando soube do acontecido, dirigiu mais de uma hora e meia até a praia para me dizer que eu estava embaçando a carreira do filho. Naquele dia lhe disse que Shane era provavelmente o único de todos os garotos que tinha talento e carisma o suficiente para um dia chegar ao topo, e que ele precisaria de caráter e eliminar qualquer atitude como aquela, para não atrapalhar o seu futuro.

 

Na época ela não gostou muito do que lhe disse, e por muitos anos nem sequer olhou nos meus olhos.

Anos depois me mudei para o North Shore, Oahu, e comecei a fazer pranchas por lá. Shane mudou-se para lá também para terminar o segundo grau e ficar mais perto do principal cenário do surf mundial.

 

Comecei então a fazer pranchas para ele e assim conheci melhor sua mãe, que me disse então que acreditava em mim. Ela me pediu que cuidasse para que ele seguisse o caminho correto. A partir daquele dia nos tornamos muito próximos, como uma família.

 

Com o passar dos anos nos tornamos verdadeiros amigos, algumas vezes acho que ele é mais maduro do que eu, e frequentemente o ajudo em seus contratos com patrocinadores.

 

Eu já fiz centenas de pranchas para ele, e temos um ótimo nível de comunicação shaper x surfista. Ele é muito atento e sabe explicar muito bem o que precisa na prancha ou o que os outros atletas estão usando. Assim posso atualizar meus designs. Ele não gosta muito de invenções e consegue sentir a essência da prancha em seus pés. Buscamos sempre a simplicidade, pois o surfista jamais deve perder a ?integridade? com sua prancha.

 

Quando foi a última vez que esteve no Brasil e qual a impressão que teve do país?

 

Faz quatro anos que estive no Brasil. Adoro o país e principalmente os brasileiros. O único problema é a comida, que é muito boa! Eu não consigo parar de comer toda vez que vou ao Brasil. Em minha primeira viagem ganhei cinco quilos em três semanas. Tenho bons amigos por lá e já fiz pranchas para quase todos os grandes surfistas brasileiros. Adoro a música e o lifestyle. Meus melhores empregados no Hawaii e EUA são brasileiros. Sinto-me em casa por lá e estou muito empolgado em iniciar um trabalho permanente no Brasil.

 

Além do Hawaii, quais são os lugares que você tem fábricas e como consegue manter o controle de qualidade em todos esses lugares ao mesmo tempo?

 

Tenho fábricas na Califórnia, Europa, Austrália e agora estou iniciando este grande projeto no Brasil. Com o passar dos anos me tornei cada vez mais atento e observador, e isto me ajuda achar os mais talentosos profissionais em fabricação de pranchas. Com as novas máquinas de shape e os novos programas CAD, agora é possível manter a integridade de todos os meus designs em cada país.

 

Gosto muito também de treinar as pessoas. Fizemos vídeos para treinamentos de shape, laminação e pintura de pranchas. Estes vídeos instrucionais tem sido um sucesso. Muitas pranchas começaram a ser fabricadas baseadas nesses vídeos, e muitas dessas pessoas agora trabalham atualmente no mercado.

 

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John Carper e Junior Mello prometem mergulhar de cabeça no mercado brasileiro. Foto: Bruno Lemos / Lemosimages.com.

Por que somente agora você decidiu entrar no mercado brasileiro?

 

Eu já tive no Brasil algumas vezes e fiz algumas pranchas no passado, mas antes das máquinas CNC de shape e programas CAD, eu sempre tinha de estar presente para produzir, e como viajo muito era difícil estar sempre presente. Mas com essa nova tecnologia, as linhas dos meus designs permanecem as mesmas. Porém, com esse novo projeto pretendo ir várias vezes por ano ao Brasil fazer pranchas.

 

A principal razão de entrar no mercado brasileiro agora é que o meu gerente de produção nos EUA e Hawaii, o brasileio Junior Mello, irá assumir a JC Hawaii no país. Ele tem sido um grande amigo e o meu melhor profissional há muitos anos.

 

Ele é considerado um dos melhores profissionais na arte de fazer pranchas no mundo e fez um excelente trabalho nos EUA. Além de ser a única pessoa no mundo em quem confio, sei que posso entregar esta grande responsabilidade de manter o mesmo nível de qualidade da JC Hawaii no Brasil.

 

Mas o mais importante para mim é que além de sua honestidade, ele busca sempre o melhor para garantir a máxima qualidade de nossas pranchas, e com ele no Brasil tenho certeza que teremos as melhores pranchas feitas no país.

 

O povo brasileiro em geral é muito exigente, você pretende usar alguma estratégia diferente das usadas em outros mercados?

 

Estaremos no Brasil com pranchas e também com confecção e acessórios. Sei que o mercado brasileiro é muito exigente e por isso investimos muito na qualidade de nossos produtos. Meu objetivo é o mesmo que em outros lugares, fazer a melhor prancha e entregar no prazo previsto.

 

Os brasileiros conhecem e sabem identificar uma prancha de qualidade. Sempre troquei muita experiência e converso bastante com os shapers brasileiros, principalmente quando visitam o Hawaii. Fico impressionado e adoro o jeito como os surfistas brasileiros se preocupam e cuidam de suas pranchas. É muito bom ter clientes assim.

 

Quanto tempo pretende ficar no Brasil? Você tem idéia de como será sua agenda por lá?

 

Pretendo estar no Brasil para o WQS e WCT em outubro, chegarei um pouco antes para shapear algumas pranchas. Quero ficar no Brasil durante um mês e não tenho dúvida que além de trabalhar durante muitas horas, vou curtir e surfar bastante. Eu poderia ficar mais tempo, porém tenho de voltar a tempo ao Hawaii para fabricar as pranchas dos surfistas que participam do Tripple Crown of Surfing, a partir Novembro.

 

Você fala alguma coisa em português?

 

?Não muito?. Eu só falo um pouco de espanhol. Mas no Brasil todos tentam me ajudar falando em inglês comigo. Os brasileiros gostam de me ajudar por eu não falar quase nada em português, fico muito grato por isso.

 

Que mensagem você deixa para nossos leitores?

 

Bom, estou muito feliz de iniciar este projeto no Brasil e fico muito contente de ver os surfistas ?amarradões? quando estão sufando. Dividir as ondas com os outros é sempre mais divertido do que querer pegar todas elas, pois você enche o coração de alegria vendo a alegria dos outros.

 

As pranchas JC Hawaii estarão nas melhores surf shops do país e quem quiser entrar em contato enquanto eu estiver no Brasil ou entrar em contato com a JC Hawaii no Brasil, deve enviar mensagem para [email protected]

Deus abençoe a todos.

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