
O surfista profissional Jihad Khodr passou por maus momentos quando se preparava para desembarcar nos Estados Unidos para etapa do WQS que acontece em Huntington Pier.
Filho de libaneses e muçulmano por religião, Jihad “pagou” por ser árabe na terra onde Osama Bin Laden aprontou no fatídico 11 de setembro de 2001.
Com apenas 19 anos e viajando sozinho, Jihad iria desembarcar em Washington, onde pegaria conexão para Los Angeles. Esta é a quarta vez que ele vai aos EUA, mas foi a primeira em que teve problemas.
Ao apresentar o passaporte em ordem e mesmo com o visto que possui com validade de dez anos, Jihad foi barrado, levado a uma sala isolada e teve de dar explicações por mais de cinco horas até ser liberado.
Mesmo assim o transtorno não parou por aí. Ele foi obrigado a pagar US$ 200 e ainda bagunçaram a seqüência da viagem. Para quem chegaria à praia de Huntington no domingo pela manhã, chegar na madrugada de segunda quase o fez desistir e voltar ao Brasil.
Por telefone Jihad explica o que houve.
“Foram mais de doze horas perdidas. Embarquei no sábado à noite pra chegar no domingo de manhã. Em Washington, fui até a imigração para pegar um vôo local para Los Angeles. Entreguei meus documentos e respondi algumas perguntas.
Mas o cara que me atendeu não ficou satisfeito, chamou outra pessoa e me encaminhou para uma sala. Fiquei horas dando explicações. Respondi a perguntas sem cabimento, sobre minha família e irmãos.
Tive de falar sobre o que eu fazia no Brasil, o que achava de um monte de coisas e as perguntas iam e voltavam no mesmo assunto. Provei que eu era surfista profissional, que estava indo disputar o WQS na Califórnia, que já disputava o circuito mundial havia vários anos, que já estive nos EUA outras três vezes, mas nada adiantou.
Fizeram de tudo para que eu não entrasse. E, pra complicar, meu visto é de turista. E eles, sem boa vontade nenhuma, disseram que eu tinha que ter outro visto, pois era um surfista profissional que iria disputar um campeonato.
Mas sei que todos brasileiros no WQS e no WCT têm o mesmo visto que eu. Depois de horas largado, sem notícia nenhuma, sem poder falar com ninguém no Brasil, apareceu uma mulher com mais perguntas.
No final das contas, exigiram US$ 200 e não quiseram saber nem de cartão. Tive que tirar outro visto e morri então com a grana que era para ficar. Pior ainda que perdi minha conexão.
Ninguém me ajudou a conseguir outro vôo e ainda tive que pagar pelas pranchas, mesmo embarcando-as no Brasil. O que me deixou mais revoltado é que tive de mostrar que tinha dinheiro suficiente para ficar a semana em Los Angeles, cartão de crédito – foram checar meu limite – e acho que só escapei quando mostrei ainda a verba em euros que eu tinha para correr as etapas da França na seqüência.
Sei que foi discriminação por eu ser árabe, pelas mil perguntas que me fizeram sobre religião, minha vida, etc… Depois dos atentados de 11 de setembro, sempre tive preocupação para seguir disputando o Circuito Mundial.
Até perdi uma temporada no Hawaii e não fiz muita questão de ir para Califórnia em 2002, pois já temia isso que agora aconteceu.
Eu não tenho nada a ver com o que está acontecendo no mundo. Pelo contrário. Sou contra essa e todas as guerras e mais ainda contra o terrorismo. Mas, não é justo eu ter que provar que sou um surfista profissional e ser tratado como um louco que pensa em realizar atentados.
Só não fui embora porque tenho a vontade de vencer e provar a todos o meu potencial. Tive de me virar sozinho e ainda seguir viagem com a cabeça que nem um parafuso. Hoje, tô mais tranquilo e amanhã caio na água na disputa do US Open. Quero me dar bem, agora, ainda mais”.
“Assim que soubemos do ocorrido entramos em contato com a Quiksilver americana para que eles dessem o apoio a qualquer momento que fosse necessário. Daqui, ficamos com as mãos atadas e na torcida. Ele acabou liberado, mas nós não concordamos com o tratamento dado. Torcemos muito pelo Jihad e acreditamos no potencial dele”, afirma Gretta Robles, diretora de relações internacionais da Quiksilver.
Não é a primeira vez que um esportista brasileiro é obrigado a dar explicações às autoridades da imigração norte-americana. Há cerca de dois meses, Mario Jorge Lobo Zagallo, técnico quatro vezes campeão do mundo pela seleção brasileira de futebol, também ficou horas retido em um aeroporto daquele país.
Zagallo, um senhor de mais de 70 anos, mundialmente conhecido, passou por um terrível constrangimento nas mãos dos agentes, até ser finalmente liberado depois de ser bombardeado por perguntas sobre questões de política internacional.