Jaws mostra as mandíbulas

O maior espetáculo de surfe no planeta. Esse foi o resultado do show proporcionado por Deus no último sábado na arena de Jaws, ilha de Maui, Hawaii.

A previsão das ondas nos mapas mostrava um swell de cerca de 20 pés (6 a 7 metros), porém elas surpreenderam a todos, com cerca de 60 (20 metros), e uma série chegou aos 80 (aproximadamente 25 metros de face). Foi um final espetacular para o  jejum de ondas grandes nessa temporada.

A peculiariedade era que não existia rabo nas ondas ontem, porque a direção de swell fazia com que existissem dois picos distintos, um

no outside e um ”bowl” de inside que virava perpendicular ao do outside, somando ainda mais adrenalina na session.

Na minha opinião, foram as maiores e mais rápidas ondas que já presenciei. O catarinense Everaldo”Pato” compartilhou essa opinião: ”Foram as maiores e mais pesadas bombas que já vi na vida”.

Pela manhã, todos os brazucas reuniram-se em Maliko Goat – local de partida dos jets. Eraldo, Romeu, Pato, Edison, Burle, Rodrigo, Danilo, Yuri, Pacelli, Haroldo, Luis Fernando, Bruno Lemos e eu.

Com a adrenalina correndo nas veias e as séries fechando a baia de Maliko, foi formada uma fila para o ”matinho”, logo acabando com os dois rolos que o Romeu tinha no carro.

 

Eraldo e Burle ficaram ainda mais elétricos porque estavam com barca marcada para Cortes Bank e só poderiam curtir cerca de duas horas de session.

A galera brazuca saiu unida desde Maliko Goat e no trajeto os berros de felicidade sairam da boca de todos. Ao chegar no pico, o visual foi animal: altas ondas!

Romeu e Edison foram os primeiros a surfar e

pegaram dois bons tubos no inside. Eu vi Robert Seager, windsurfista pioneiro em Jaws, relaxando no canal depois de surfar e pedi para que me rebocasse.

A experiência falou alto e ele me colocou em cerca de 10 bombas. Na terceira. depois de fazer a curva eu não tinha outra opção a não ser colocar para dentro por de trás do ”bowl”.

 

Vi e senti o peso daquela onda por dentro. Vibração de F 1. Morri dentro do tubo e o caldo foi a sensação de estar girando numa máquina de lavar supersônica.

 

O caldo lavou a alma e o apelido de amansa louco é perfeito para a situação. Tomei a série

toda na cabeça e fui resgatado perto das pedras. O som do caldo parecia tecno em alta velocidade. Zoom, zoom, zoom…

Na volta para o outside, Danilo e Rodrigo, muito entrosados, surfavam altas. Destaque para uma esquerda rabiscada lip-base pelo Monstro e uma direita pesadíssima de Couto. Por estar de backside, ele não viu o tamanho da encrenca que o perseguia por trás.

Eles ainda rebocaram Yuri Soledad, baiano radicado em Maui, em altas esquerdas. O frontside dele mostrou estilo nas gigantes e longas rampas.

Os tubos rolavam soltos e mostruosos. Ross Clark mais uma vez botou para dentro, mas

também não achou a saída: caldo sinistro. Uma pranchada nas costelas o aposentou dessa session e ele passou o resto o dia no barco dos locais Laird Hamilton e cia.

Laird continua sendo o faixa vermelha no local. O surf apresentado pelo havaiano é fenomenal.

João Jabour infelizmente foi um dos primeiros saldos negativos do dia junto com Ross. O carioca caiu no drop de uma caroça e rompeu os ligamentos do ombro, ficando ainda com dores por todo o corpo.

Na seqüência, puxei Jorge Pacelli em três ondas, além do Pato, que tinha perdido o parceiro. Pato pegou altas e, em uma delas, perdeu a prancha e teve que ir até as pedras resgatá-la.

 

O entra e sai nas pedras não era brincadeira. Ondas de cerca de 2 metros quebravam secas em cimas dos pedregulhos.

Aquela hora foi o auge do swell. As séries faziam parecer que o infinito levantava-se à nossa frente. Absurdo.

Trocamos de posição e, na maior série do dia, Pato me colocou na segunda onda. O detalhe é que ele acelerava tudo o que podia, mesmo assim quase perdemos a onda.

 

Foi dificil até permanecer na corda, tamanha a velocidade. Muita doideira. Quando soltei a corda, me projetei um pouco mais para o rabo, pois sabia que o ”bowl” de West contrário seria monstruoso.

 

Quando dei a curva e aquela massa dágua apareceu na minha frente, meu instinto foi o de subir no topo e emendar uma rasgada e descer a milhão, mas a prancha pegou uma velocidade absurda e ficou incontrolável, ainda mais depois de bater em um bump. Capotei e tomei mais um caldasso.

 

Na hora que subi o visual foi de fazer tremer a espinha. Eu estava atrás do pico da maior onda do dia, a MAIOR que já havia visto na vida, ronto para tomar na cabeça, já meio fraco devido aos outros caldos.

De longe, vi o Pato e acenei para que ele me visse no meio daquela espuma toda. Ninguém poderia reclamar se ele não viesse me resgatar. O local onde eu estava era horrível e havia uma chance alta de ele perder o jet no meu resgate.

 

Everaldo, inspiradíssimo por Deus, tornou-se meu anjo da guarda e veio na minha direção na frente daquele fenômeno da natureza.

 

Quando ele passou por mim e me deu as mãos, eu não acreditei.

Assim que começamos a fugir da maior espuma que já vimos na vida, a luta foi a cada metro percorrido. Assim que me toquei que a espuma já era menor, as pedras chegavam mais perto.

 

Chegou a passar pela minha mente que não conseguiríamos chegar ao canal, e que o jet iria para as pedras. Mas, pelo menos não iríamos morrer afogados. Notei que o único trecho de escape seria a junção da esquerda com a espuma da direita de onde vínhamos antes de encalhar nas pedras.

 

Pato, animal, saiu dando um floater na junção da esquerda no último segundo, enquanto eu quase voei do morey para a água. Mas saímos comemorando com o gostinho de vitória.

 

O cinegrafista Bruno Lemos estava no canal, no jet do Monster, quase chorou e rezou muito, segundo Rodrigo. Deus ouviu as preces dele. ”Não consigo imaginar nenhum surfista, com qualquer tipo de prancha, conseguir domar a onda que quebrou na sua frente”, disse sorrindo o Monster, durante a retirada dos jets.

Decidi buscar minha prancha nas pedras e vi diversas pranchas detonadas, menos a minha, perdida justamente na primeira vez que sentiu o gosto de água.

 

Impressionante como essas pranchas caras (cerca de U$700) viram migalhas… O jogo é bem caro. Hoje, domingo, vou dar mais uma vasculhada.

Na volta ao fundo, deparo mais uma cena de horror. No inside da esquerda, Laird tenta dar partida no jet que não pegava, sendo obrigado a usar o brinquedo como trampolim, abandonando o jet que foi para as pedras.

Um tripulante do helicóptero pilotado pelo experiente Don Sherer, ex-combatente no Vietnã, amigo de Laird, atirou uma corda nas pedras e deu carona para o astro do último 007 até o outside, onde pulou ao lado do barco de sua equipe.

No auge do crowd, cerca de 12 jets dividiam o line up. Às 14 horas, só Laird e Kalama, eu e Pato dividíamos o outside. Mas, o vento estava mais forte, dificultando um pouco a session.

 

Pato pegou mais umas bombas e saímos fora. No trajeto de volta, Noah Jonhson e Shane Dorian vinham no sentido contrário com água na boca. Surfaram durante todo o final de tarde ondas lindas de 25 pés (atrás).

 

Foi mais um dia para ficar na história do surfe de ondas grandes, com certeza. A previsão mostra mais dois big swells para esta próxima semana.

Aloha

 

Agradecimentos especiais: Fabiana Nigol (namorada do Pato) e Bruno Lemos pelas imagens extraordinárias.

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