Hang Loose Pro Contest

Jadson e Deivid nas semifinais

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Jadson André é destaque e tem a melhor atuação do dia no Hang Loose Pro Contest. Foto: © WSL / Smorigo.

 

Um lindo sábado de Sol, com clima de verão e praia lotada na Joaquina no penúltimo dia do Hang Loose Pro Contest 30 Anos na Ilha de Santa Catarina. O público começou a chegar cedo para torcer para os seus ídolos e só foi aumentando durante o dia, mesmo após as derrotas dos campeões mundiais Adriano de Souza e Gabriel Medina nas oitavas de final.

 

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Mas, o Brasil está garantido na decisão do título do QS 6000 de Florianópolis e será contra os Estados Unidos. A primeira vaga na grande final será disputada pelos norte-americanos Kanoa Igarashi e Griffin Colapinto e a outra pelos brasileiros Jadson André e Deivid Silva. 

Deivid Silva venceu a etapa catarinense do QS 6000 do ano passado, realizada na Praia do Santinho. Agora, precisa chegar na final de novo para entrar no grupo dos dez indicados pelo WSL Qualifying Series, para a elite dos top-34 que disputa o título mundial da World Surf League. Ele saiu da lista durante a “perna europeia” e venceu as três baterias que disputou nas ondas de 2-3 pés com boa formação do sábado na Praia da Joaquina. 

A primeira foi contra o também paulista Miguel Pupo e o pernambucano Luel Felipe na rodada classificatória para as oitavas de final. Deivid depois despachou o australiano Mitch Coleborn por pouco no placar de 15,00 a 14,50 pontos e fez outra grande bateria contra Miguel Pupo, derrotando o top do CT por 14,84 a 14,20 com duas notas na casa dos 7 pontos. 

“Eu me sinto muito à vontade aqui em Floripa e foi demais vencer um cara como o Miguel (Pupo), que é do CT, e outros também que eu venci aqui”, disse Deivid Silva. “Eu gosto muito de competir no Brasil, pois é como estar em casa. Tenho boas recordações do ano passado e estou muito feliz por estar na semifinal de novo. Eu quero estar no CT no ano que vem e tenho que entrar no top-10 do QS para isso. Eu já consegui trocar meu pior resultado nas semifinais e agora quero continuar focado no meu objetivo, de ir o mais longe possível no campeonato”.  

 

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Deivid Silva garante vaga na semifinal. Foto: © WSL / Smorigo. 

Recordista Absoluto – O potiguar Jadson André também foi um dos destaques do sábado, principalmente no clássico do CT contra o campeão mundial Adriano de Souza. Foi a melhor bateria de toda a semana na Praia da Joaquina, com Jadson estabelecendo novos recordes para o Hang Loose Pro Contest 30 Anos com a nota 9,67 que somou no placar de 17,84 a 16,40 pontos. Os dois deram um show e a maior nota do campeonato saiu numa onda que o potiguar começou com um aéreo e finalizou com uma série de manobras explosivas no inside da Joaca. Jadson ainda surfou outras boas ondas, computando uma nota 8,17 e descartando duas na casa dos 7 pontos, enquanto Mineirinho somou o 8,33 da sua primeira onda com 8,07.

“Foi muito bom vencer a bateria com o Mineiro (Adriano de Souza), que foi realmente de alto nível”, destacou Jadson André, depois de eliminar o português Frederico Morais no duelo que fechou as quartas de final e o sábado na Praia da Joaquina. “Eu sabia que ia ser difícil contra o Frederico (Morais), que é um cara superbacana e estava surfando bem essas ondas aqui. Ele sempre me trata bem quando estou em Portugal e falei a ele que ele vai se dar bem no Havaí. Estou muito feliz e quero manter o ritmo, continuar melhorando minhas notas em cada bateria. Agora só tem mais uma até a final e vamos ver como vai ser amanhã (domingo)”.

O sábado foi mais um dia para relembrar aquele histórico Hang Loose Pro Contest de 1986, com praia superlotada para assistir grandes estrelas do surfe mundial competindo na Joaquina. A diferença é de que os maiores ídolos agora são brasileiros, principalmente os últimos campeões da World Surf League, Gabriel Medina e Adriano de Souza. Apesar de fazerem grandes apresentações para a torcida nas ondas da Joaca, ambos foram barrados nas oitavas de final. Medina perdeu para o australiano Soli Bailey e Mineirinho no clássico do CT com Jadson André, que fez novos recordes no campeonato para vencer esta bateria. 

Adriano de Souza também já havia surfado bem contra o peruano Juninho Urcia e o argentino Santiago Muniz na bateria que fechou a quarta fase da competição. No confronto seguinte, entrou o outro campeão mundial, Gabriel Medina, abrindo as oitavas de final com a praia já lotada na Joaquina e começando bem, com notas 6,50 e 8,83 nas primeiras ondas que surfou. 

O australiano Soli Bailey só saiu da “combination” quando conseguiu um 7,5 e depois usou bem a fórmula de mandar um aéreo para abrir a onda e manobras fortes na parede mais em pé que formava no inside da Joaca, para tirar a maior nota do campeonato até ali, 9,17. Com ela, virou o resultado para 16,67 a 15,66 pontos contra o campeão mundial.

 

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Kanoa Igarashi disputará primeira vaga na final. Foto: © WSL / Smorigo.

 

Vaga no CT – Depois, Soli Bailey foi eliminado pelo californiano Kanoa Igarashi na abertura das quartas de final. Com a classificação para as semifinais do Hang Loose Pro Contest 30 Anos, Kanoa deu mais um grande passo para confirmar sua vaga no CT pelo segundo ano consecutivo no Brasil. Em 2015, ele entrou na elite com a vitória conquistada no QS 6000 da Bahia, em Itacaré. Agora, tenta garantir sua permanência novamente entre os dez indicados pelo WSL Qualifying Series e já subiu do oitavo para o terceiro lugar no ranking. 

“Essa bateria era muito importante para mim e tudo parece um sonho”, disse Kanoa Igarashi. “Às vezes, você consegue surfar melhor quando não está superfocado no momento. No ano passado, eu estava nessa mesma posição aqui no Brasil, aí ganhei o QS 6000 na Bahia e me qualifiquei para o CT. Foi muito emocionante tudo aquilo e certamente será outra sensação incrível se eu conseguir cumprir minha meta de continuar no CT no ano que vem”. 

Quem também ficou mais próximo da elite dos top-34 que vai disputar o título mundial do ano que vem é o pernambucano Ian Gouveia. O surfista patrocinado pela Hang Loose perdeu o duelo brasileiro com Miguel Pupo pelas oitavas de final e atingiu 18.410 pontos no ranking do QS. Ele ultrapassaria os 21.300 dos últimos colocados no G-10 do ano passado, se chegasse na grande final do Hang Loose Pro Contest. Segundo o australiano Al Hunt, tour manager da World Surf League, que está na Joaquina novamente, como naquele campeonato histórico de 1986, existe até a possibilidade de ficar no G-10 quem tiver entre 18.000 e 19.000 pontos, mas matematicamente não dá para afirmar estarem confirmados no momento.  

“Esse evento foi incrível e eu estava bem animado em ganhar mais pontos aqui para ir para o Havaí um pouco mais tranquilo”, disse Ian Gouveia. “Eu não consegui o resultado que tinha em mente, mas o nono lugar ainda foi bom porque eu conseguir trocar o meu resultado mais baixo. Foi demais competir em casa, na frente dessa torcida incrível e receber tanto apoio dos fãs, junto com a família e amigos. Estou amarradão e vamos com tudo para o Havaí garantir minha vaga no CT lá agora”. 

 

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Griffin Colapinto também disputará o dia decisivo do Hang Loose Pro Contest 2016. Foto: © WSL / Smorigo.

Vagas no G-10 – Já na briga para entrar no G-10 em Santa Catarina, três brasileiros chegaram no sábado com chances de tirar a última vaga do paulista Jessé Mendes. O primeiro deles caiu no primeiro confronto do dia, o cearense Michael Rodrigues, campeão do QS 6000 de Florianópolis de 2014 nas mesmas ondas da Joaquina. Ele foi barrado pelo pernambucano Ian Gouveia e pelo australiano Mitch Coleborn na batalha por duas vagas para as oitavas de final.

O também paulista Deivid Silva venceu a segunda bateria do dia e o catarinense Tomas Hermes também avançou no duelo catarinense das oitavas de final com Willian Cardoso. Tomas então ficou a um passo de entrar na zona de classificação, mas foi eliminado pelo norte-americano Griffin Colapinto. Já Deivid Silva despachou o australiano Mitch Coleborn e tirou o 11.o lugar no ranking que Tomas Hermes tinha acabado de assumir. Agora é ele quem está a um passo do G-10, precisando chegar na final para tirar a vaga de Jessé Mendes.

De qualquer maneira, três brasileiros continuarão figurando na lista provisória dos dez indicados pelo WSL Qualifying Series, antes das finais no Havaí. O americano Kanoa Igarashi ultrapassou os brasileiros Ian Gouveia e Bino Lopes, que caíram para o sexto e sétimo lugar, respectivamente. E o outro será o décimo colocado, Jessé Mendes, ou Deivid Silva, se passar pelo potiguar Jadson André na segunda semifinal do Hang Loose Pro Contest 30 Anos. 

Maioria Igualada – A semana começou com um total de 144 surfistas de 22 países disputando o título do Hang Loose Pro 30 Anos. A maioria era estrangeira, 86 representantes de 21 nações. Mas, os brasileiros igualaram as forças na sexta-feira, com metade dos 24 classificados para a quarta fase da competição. O fato se repetiu nas duas rodadas seguintes, com oito surfistas entre os dezesseis que disputaram as oitavas de final, quatro dos oito das quartas de final e tem dois entre os quatro semifinalistas, Jadson André e Deivid Silva.  

O QS 6000 Hang Loose Pro Contest 30 Anos está sendo realizado com patrocínio da Hang Loose e apoio do Governo do Estado de Santa Catarina / Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte, através do FUNDESPORTE, e da Prefeitura Municipal de Florianópolis, além da Mini Kalzone e lojas J Bay e Tent Beach. O evento é homologado e supervisionado pela WSL South America como 46.a etapa do WSL Qualifying Series 2016, com realização da Associação de Surf da Joaquina (ASJ), divulgação da Rede Atlântida FM, site Waves e transmissão ao vivo pelo Worldsurfleague.com.

 

Semifinais

 

1 Kanoa Igarashi (EUA) x Griffin Colapinto (EUA)
2 Jadson André (BRA) x Deivid Silva (BRA)

 

Quartas de final

1 Kanoa Igarashi (EUA) 13.56 x 9.17 Soli Bailey (AUS)
2 Griffin Colapinto (EUA) 17.00 x 12.33 Tomas Hermes (BRA)
3 Deivid Silva (BRA) 14.84 x 14.20 Miguel Pupo (BRA)
4 Jadson André (BRA) 15.16 x 10.50 Frederico Morais (PRT) 

 

Oitavas de final

1 Soli Bailey (AUS) 16.67 x 15.66 Gabriel Medina (BRA)
2 Kanoa Igarashi (EUA) 13.73 x 13.40 Marco Giorgi (URU)
3 Griffin Colapinto (EUA) 15.64 x 14.00 Mitch Crews (AUS)
4 Tomas Hermes (BRA) 14.87 x 11.56 Willian Cardoso (BRA)
5 Miguel Pupo (BRA) 14.83 x 13.97 Ian Gouveia (BRA)
6 Deivid Silva (BRA) 15.00 x 14.50 Mitch Coleborn (AUS)
7 Frederico Morais (PRT) 14.57 x 11.77 Juninho Urcia (PER)
8 Jadson André (BRA) 17.84 x 16.40 Adriano de Souza (BRA)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.