“Você não está entendendo Alexandre, não será o swell do ano. Segundo as previsões, será o swell da década”. Esta foi a resposta do mestre em ondas grande Jorge Pacelli, quando interrogado sobre o que achava da ondulação que atingira a costa peruana entre os últimos dias 28 e 29 de maio.
Alguns dias depois desta conversa, estávamos reunidos na pousada de nosso grande amigo peruano Luisfer, na expectativa de surfar Pico Alto, uma das ondas mais casca grossa da América do Sul.
A brasileirada compareceu em peso. Do Guarujá: Pacelli, Fanta, Emerson Santos, Silvia Winik e eu. De Maresias: André Nastas, Alexandre Xan, Cantone, Alvaro Rabico, Lula e Saulo. Também fizeram parte da barca João Capilé, André Machado e Everaldo Pato Teixeira.
No dia 28, enquanto a maioria da galera fazia tow-in, Emerson e eu caímos de SUP. Descemos várias com cerca de 4 metros. Depois de pegar umas seis ou sete, tomei uma bomba na cabeça na volta para o outside e minha Stand Up Gun zerada, feita especialmente para aquele mar, partiu no meio.
À noite, na pousada, alguém olhou minha prancha quebrada e disse: “Que má sorte”. “Melhor a prancha do que eu”, respondi. E ainda completei: “Às vezes, estas coisas acontecem para nos livrar de algo pior. Por isso, não reclamo de absolutamente nada! Quebrou, paciência”. A pessoa arregalou os olhos, impressionada com minha tranqüilidade, e concordou com o raciocínio.
No dia seguinte, a previsão se confirmou e o swell gerou ondas com mais de 7 metros de face. Enquanto as mesmas duplas de tow-in do dia anterior entravam na água, pedi emprestado para o Pacelli seu SUP que estava na pousada.
Afinal, desde o começo, meu foco era surfar de SUP. Ele não hesitou em liberar a prancha. Saí correndo de volta à pousada junto com o Emerson, que pegou emprestada a prancha de SUP do Capilé. (Esse negócio de pegar prancha emprestada em mar grande, dá para imaginar como vai acabar…)
Depois de uma remada relativamente longa – cerca de 15 minutos – chegamos no pico. Tow surfers ao fundo, nos posicionamos mais para dentro. Não demorou e veio a série boa. Virei a prancha, comecei a remar e pensei: é a onda da minha vida!
Fiz um drop em alta velocidade. Consegui segurar a prancha que batia muito, botton turn na base, paredão a milhão e completei a onda. Saí no canal com a adrenalina no máximo e um sorriso de orelha a orelha. Mas a alegria durou pouco, olhei para o outside e uma morra marchava na minha direção.
Tentei remar rápido para passar e logo percebi que seria em vão. Tratei de manter a calma e ventilar os pulmões. Ela quebrou a poucos metros de mim. Mergulhei alguns segundos antes de ser atingido pela espuma. O caldo foi relativamente tranquilo. Quando subi à superfície, o que eu temia aconteceu. A prancha estava sem bico. Mais uma prancha quebrada e nem era minha.
Olhei para trás e vi o Emerson no meio da espuma branca, também sem prancha, sendo resgatado por um jet. Perto dele, outros dois surfistas de remada boiavam. Ou seja, aquela onda detonou quatro pranchas e ficou conhecida como La Trituradora de las tablas. Já eu, fiquei famoso como El Destructor de los Stand Ups.
O jeito foi boiar na água gelada esperando a vez no surf rebocado. Surf que durou até as 10:30 horas. Neste momento, saíram os jets e entraram os tablistas (surfistas de remada). Tudo faz parte de um acordo de cavalheiros, que mantém o pico em ordem. Achei interessante. É um belo exemplo a ser seguido no Brasil e no mundo.
No final do dia, estávamos todos moídos de tanto pegar onda. Na mente, um único pensamento: Perú, lugar abençoado!
Produzido pela fotógrafa e cinegrafista Silvia Winik, o vídeo acima mostra as sessões de SUP. Em breve, montaremos outro com imagens de tow-in e do surf na remada.
Foto de capa Silvia Winik