Indonésia: entre o céu e o inferno

Uma viagem à Indonésia é sempre algo especial para qualquer surfista, não só pelas ondas perfeitas, mas também porque o arquipélago, composto por mais de 13 mil ilhas, invariavelmente proporciona situações de risco e de adrenalina, transformando qualquer viagem numa verdadeira aventura.

No começo da última temporada não foi diferente. Logo no segundo dia as roubadas começaram. O ponto de partida da nossa trip era uma cidade portuária na costa da Sumatra, a maior ilha do arquipélago. Lá, como combinado, encontrei meus amigos Sebastian e Cito para pegarmos o barco que faz toda semana a viagem de 11 horas até a ilha de Nias. Como não podia deixar de ser, o barco estava quebrado e teríamos que esperar uma semana para fazer a travessia.

Para não perdermos preciosos dias de surf, decidimos nos jogar e fazer o caminho alternativo, que passa pela ?maldita? cidade de Sibolga. Suja e perigosa, Sibolga é um dos piores lugares da Sumatra, sempre evitada por viajantes e surfistas. Depois de oito horas na estrada, onze horas de barco e mais seis horas de carro, chegaríamos a Lagundri, a famosa direita de Nias.

Apesar da situação atual ser, supostamente, mais estável na Indonésia, pouco mudou comparado aos anos anteriores. Na estrada fomos parados por grupos de indonésios com paus e pedras nas mãos e obrigados a pagar um ?pedágio?. Outros bloqueavam pontes com troncos, que só eram removidos depois do pagamento de mais algumas rúpias. Chegamos em Lagundri à noite, cansados e mais instigados do que nunca para cair no mar.

As primeiras semanas em Nias não decepcionaram. Tivemos três swells, dois deles de 8 pés, e todos pegaram muitos tubos. A galera em Lagundri estava tranqüila, a vibe no mar muito boa e todos se revezavam dentro dos salões verdes. À noite, a galera, composta por brasileiros, australianos, americanos, havaianos, sul-africanos, ingleses e espanhóis, se reunia na casa do Titus, nosso anfitrião indonésio, para ver as fotos do dia, tiradas por Sebastian. Vendendo quase todas as fotos, esse argentino radicado em Maresias há quase 10 anos, se tornou um dos poucos surfistas a ganhar dinheiro na Indonésia.

Numa certa manhã tivemos uma visita ilustre. Sebastian me acordou e quando me disse quem estava surfando ali em frente eu achei que ainda estava dormindo. Kelly Slater e a galera da Quiksilver estavam destruindo as ondas, com o imponente ?Indies Trader? atracado no canal. Ficaram no mar por pouco mais de uma hora, subiram no ?iate? e foram embora. Mas foi o suficiente para que Sebastian clicasse algumas fotos de Mr. Slater e para que o resto dos presentes testemunhasse um show de surf.

Alguns dias depois continuamos nossa trip para um arquipélago próximo, composto de várias ilhas que abrigam pelo menos duas das melhores ondas da Indonésia, Asu e Bawa. No barco, sentíamos o balançar de um swell forte chegando e a ansiedade de surfar ondas perfeitas naquele lugar paradisíaco.

Bawa é uma onda pesada, com seções pouco definidas e um inside sinistro, parecido com o de Sunset. Dependendo da direção do swell, o drop fica relativamente fácil, mas as seções de tubo, principalmente no inside, requerem muito conhecimento e técnica para serem bem surfadas.

Mesmo assim, a galera se criou e muitos pegaram as ondas ?da vida?.
Depois de alguns dias nesse paraíso, decidimos ir para Asu. Esquerda forte e longa, Asu era desconhecida até alguns anos atrás. De uns tempos para cá, porém, um fluxo grande e constante de surfistas caminha para a ilha. Isso mudou a economia desse lugar isolado, que antes do surf vivia da extração de côcos. Agora, existem vários bangalôs e pequenos surf-camps, mas isso não mudou a essência do lugar, que continua muito selvagem.

Um dos maiores problemas da região é a malária. A Sumatra é um dos lugares do mundo com maior índice da doença, e Asu e Bawa, assim como Nias, estão entre os locais mais perigosos. A maioria dos surfistas já vem prevenida, e tomam diariamente o antibiótico que diminui a chance de contração da doença. Outros, porém, se aventuram pelas ilhas, também conhecidas como região ?5 star malaria?, com a simples proteção de um repelente. Tomando as pílulas diárias e passando repelente todas as noites, nos sentíamos quase imunes.

Depois de surfarmos esquerdas de sonho em Asu, voltamos a Bawa felizes da vida e de cabeça feita, só pensando nas ondas da manhã seguinte. Foi nessa manhã que a realidade bateu como um banho de água fria. Um inglês que surfava com a gente tomou uma vaca pesada e ficou paralisado. A suspeita era de que ele tinha fraturado a coluna. Robin, outro excelente surfista inglês e conhecedor das ilhas, saiu em busca de ajuda, e por três longos dias não tivemos notícia e nem sabíamos o que iria acontecer com seu compatriota paralisado.

Percebemos então como estávamos vulneráveis naquele lugar, onde não há luz elétrica nem telefone, e o hospital mais próximo fica a dias de viagem. Finalmente, no terceiro dia, uma equipe de para-médicos chega de helicóptero, pousa na areia, entre a mata e o mar, e coloca o inglês machucado na maca, e em cinco minutos vão embora. As palavras de Glenn, um ótimo surfista australiano, vieram imediatamente na minha cabeça: ?Sumatra can be heaven and hell? (Sumatra pode ser o céu e o inferno).

Na semana seguinte retornamos à Nias, pois havia rumores de um swell grande chegando e queríamos surfar a direita de Lagundri como no famoso swell de 89. Chegamos dois dias antes do swell, que foi de gala, mas não chegou nem perto dos famosos 12 a 15 pés surfados por Rob Bain em 89.
Mesmo assim, não houve quem reclamasse, pois ondas perfeitas de 8 pés são sempre um presente dos deuses.

Ficamos em Nias mais alguns dias, durante os quais um australiano e o fotórafo uruguaio Xavier Araña contraíram malária. Xavier acreditava ter contraído a doença dias antes, em Asu, enquanto o australiano adoeceu em Nias. Os dois tiveram que ir embora rapidamente para a capital da Sumatra, Medan, ou para Cingapura. De qualquer jeito, tiveram que viajar no mínimo 48 horas para chegar ao hospital mais próximo, para então receber atendimento médico. De repente, nós não nos sentíamos mais tão imunes assim.

Deixamos Sumatra de cabeça feita e com muitos tubos e ondas de sonho na bagagem, além de muita história pra contar. No barco, olhando o porto de Nias se distanciando na paisagem, comentamos como gostaríamos de voltar, mas sem nunca esquecer das palavras de nosso amigo australiano: ?heaven and hell?…

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