
Março de 2002. No litoral paulista as ondas começavam a melhorar e o tempo a esfriar. As praias mais vazias indicavam que estávamos no fim do verão brasileiro, e próximos do começo de mais uma temporada na Indonésia.
Nesta época começa a correria para deixar as coisas prontas para uma viagem de cinco meses, agilizar remédios, tomar vacinas, comprar vitaminas, etc. Uma trip onde faltará comida descente e conforto material, mas sobrarão paz de espírito e ondas de verdade!
Depois de tudo agilizado, o passo seguinte é escolher o primeiro pico a ser visitado, no meu caso Nias, na ilha de Sumatra. Ali é o local onde deixo grande parte do meu equipamento durante o ano, trancado no barraco de um local que me jurou ser seguro. Acreditei no cara.
Após seis dias saindo de São Paulo, com escalas na África do Sul, Hong Kong e Cingapura, cheguei em Nias, e lá estava aquela direita com 6 pés clássicos. Do mesmo jeito que estaria quebrando durante um swell de sul há 30 anos. Como gostaria de ter estado lá nos anos 70!!
Reparei que algo de novo acontecia este ano. Os locais cresceram e apareceram. Estão simplesmente detonando no quintal de suas casas. Outra novidade é o primeiro estacionamento para barcos na baia de Lagundri, onde fica a tão famosa direita. Pois é, agora os nativos estão cobrando uma taxa para os barcos que por ali aportam. Mesmo que a paradinha seja só para fazer uma session. Medida polêmica que não agradou o pessoal dos barcos.
Os nativos de Nias argumentam que tais ‘turistas’ em nada contribuem para o desenvolvimento da comunidade local. Não pagam hospedagem nem comida. Em terra pode-se perceber dois sentimentos distintos. Um vem dos locais que, ao saberem que cada turista no barco está pagando cerca de U$ 150 por dia, não entendem porque os donos das excursões nada querem lhes pagar para ali ancorar.
O segundo vem dos surfistas de fora que, após pegarem horas de ferry boats, vans, ônibus e taxis, se hospedarem em condições precárias, aguentar dias de flat sob o sol equatoriano, ficam irados quando no primeiro dia de swell vêem chegar uma embarcação e dela pularem 12 caras na água.
Após dois dias de diversão o inevitável acontece. Nias pode ter uma das melhores direitas do mundo, mas com exceção de julho e agosto, o pico costuma ter longos períodos de flat total. A ausência de ondas pode não ser uma catástrofe se você está no Guarujá, no Hawaii ou mesmo em Bali. Porém, em Nias flat significa NADA para se fazer.
Após uma semana de NADA, decidimos ir para a ilha de Bawa, bem mais constante e com ondas normalmente maiores que Nias. No dia que acordamos o mar tinha subido em Nias e eu não quis escutar o aviso de um amigo, que dizia que com esse tamanho em Nias, Bawa poderia estar assustador. Fomos assim mesmo.
A viagem de cinco horas em um barquinho precário foi tranqüila. Chegando em Bawa, tive de ouvir a famosa frase de meu amigo: “Eu te disse…” O mar estava gigante! Para piorar, muita chuva e vento assolavam a ilha. Após uma hora a tormenta se foi e um barco da ilha veio dar uma força para a gente poder entrar no pequeno porto natural da ilha.
Bawa, juntamente com a ilha de Asu, é considerada “5 star malaria” e todo cuidado é pouco. Os únicos turistas na ilha eram um japonês e dois havaianos. No dia seguinte acordamos e o mar tinha realmente subido para cerca de 12 pés. Na água estava o Indies Trader, barco que costuma levar os melhores surfistas naquela área e também nas Mentawaii.
Nesta leva estavam Gery Lopes, Darrick Doerner e seus amiguinhos havaianos se divertindo naquelas morras. Apesar de não estarem fazendo tow-in, o jet-ski ajudava em caso de apuros.
Um deles perdeu a prancha e nós a pegamos na praia, era uma 8’8″, vermelhona e dura como uma porta. Seu dono logo nos contaria que tinha tomado uma vaca numa onda e quando viu que iria tomar toda a série soltou a cordinha e ficou para ser resgatado pelo jet. Não tínhamos equipamento muito menos coragem para encarar Bawa naquelas condições.
No dia seguinte voltamos para Nias com a certeza de que iríamos pegar um mar clássico, e ali estava mais uma vez aquela direita que parece um desenho, e mais uma vez esperando por nós. Passamos mais um mês por lá, a base de nasi goreng e peixe.
O mês de junho estava se aproximando e tínhamos marcado um encontro com uns amigos para ver a Copa do Mundo nos bares de Bali e aproveitar para surfar aquelas esquerdas.
A minha idéia de passar só um mês se transformou em três meses. A cada hora que o Brasil ia chegando mais perto da taça era possível sentir mais a presença de brasileiros na ilha. Assistimos à final no Tubes Bar, o lugar estava fervilhando e a torcida fazia a maior festa.
Não havia lugar em nenhum bar cerca de duas horas antes do jogo, a galera já estava bebendo e tudo caminhava para a festa que foi o Penta. Apesar de argentino de nascença, moro e, apesar de ser difícil de acreditar, torço muito para o Brasil.
Assim chegou o mês de julho, e a gente não acreditava na constância dos swells. Era só acabar um swell, ir para Kuta checar a internet e ali estava mais um chegando. Era só ver aquelas tormentas de uns 20 pés no oeste da Austrália e saber que em uns dias essa ondulação estaria chegando na Indonésia em forma de perfeitas ondas tubulares e que lá seria recebida por perfeitas bancadas e ventos off shore. Foi assim até a metade de agosto.
Daí para frente o vento na região do Bukit (Uluwatu, Padang, Bingin) vira maral e assim vai até março.
Após ter surfado e fotografado várias das praias de Bali decidi passar as últimas semanas da temporada em Sumbawa, ilha ao leste de Bali, mesmo sendo setembro quase no final da temporada, quando o maral começa a soprar no arquipélago. Ainda assim Lakey Peak nos presenteou com dias de gala, rolou até Periscopes, Nungas, Cobblestones…
De volta a Bali, o vento on shore começando a soprar, menos gente na praia, Kuta um pouco mais tranqüila, tudo indicava que mais uma temporada estava acabando. Era hora de voltar ao Brasil, ver os amigos e passar o verão.
Fazendo sempre uns bicos para quando abril chegar poder ir embora de novo. Bueno já é quase março e logo yo me voi.