Por que não gostamos de dividir uma onda?
Mais adequado, talvez, seja começar com outra pergunta, quando foi que deixamos de dividir as ondas?
Até os meados dos anos 50 era normal dividi-las com um ou até vários outros surfistas. Além do prazer de compartilhar, o desafio era ver quem conseguia deslizar em pé por mais tempo na onda, critério que foi por um certo tempo o principal nas competições de surf.
Dividir não parecia incomodar ninguém e o motivo mais óbvio é que o surf praticado era outro e também o tipo de onda ideal para a prática.
De Wakiki a Malibu, apesar do tamanho e peso elevado das pranchas, a performance era limitada a poucas partes da onda, muitas vezes mal a parede era aproveitada, o que tornava a divisão mais mais segura.
A evolução da performance e das ondas surfadas parece o motivo mais óbvio para que o surfista tenha se tornado tão egoísta quanto a onda. Claro, tentar compartilhar um tubo perigosos como Teahupoo ou alguma marola com um surfista com a velocidade do Medina não é apenas insensatez, é insanidade.
Mas não foi bem, ou somente este, o único motivo para tal egoísmo. Antes, o surfista se tornou um cara individualista e depois parou de dividir as ondas e não o contrário. É bom lembrar que o surf nasceu em uma sociedade com outras crenças e morais em que, por exemplo, os deuses eram muito mais importantes que o homem. O surf, como ritual coletivo, se focava em coisas externas ao indivíduo e pegar uma onda junto com vários outros não era problema, era uma obrigação.
Somente alguns séculos depois do primeiro contato do europeu com o havaiano, o surf começou a ser praticado com outras finalidades. De ritual foi se tornando diversão. E em Waikiki, onde os surf clubes e os Beach Boys entraram na moda, que a prática começou a ganhar fortes influência da cultura ocidental, como o próprio povo havaiano, que já era praticamente todo mestiço.
Mas ainda naquela época era normal dividir as ondas e o surf era encarado muito mais como uma exibição do que qualquer outra coisa. Aos olhos do estrangeiro, era uma prática exótica, jovem, selvagem e com um que de sensualidade, nada mal para mexer com a curiosidade de turistas e aventureiros.
Somente na Califórnia pós-primeira guerra e pré-grande crise, o surf entrou na “modernidade”. Foi aí quando começamos a odiar dividir as ondas. Malibu, uma direita longa e com sessões suaves, tornou-se o pico favorito dos surfistas, que cresciam em número espantoso.
Em pouco tempo, o crowd começou a surgir. Foi um cenário propício para a aparição de algumas figuras interessantes. Pertencente à segunda geração de surfistas do pico, Miki Dora foi uma, e provavelmente a mais importante, delas.
Marco na história do surf, tanto por seu estilo na água quanto pelo que fez fora, Dora não só não tinha o espírito de aloha como se comportava ao oposto dele. Era um cara malicioso fora d’água e surfando chegava a ser agressivo, quando distribuía empurrões e pranchadas nos que ousassem entrar em sua onda.
Atitude que não era apenas uma questão de performance ou de tentar aproveitar a onda, era parte de seu show derrubar o adversário sem perder o estilo. Dora, como muitos grandes surfistas, era meio anarquista, portanto os surfistas que ele derrubava onda após onda representavam para ele partes do sistema que ele ia destruindo.
Esse era o seu principal inimigo, o sistema, e toda a mídia e status criados em sua pessoa nunca foram bem digeridos pelo próprio. Motivos que o transformaram em um ídolo. E quando seu comportamento se tornou padrão a ser seguido, o surf revelou, pela primeira vez, seu lado individualista, tanto no sentido da prática em si quanto no sentido da curtição.
Chega de confraternizações, Dora queria experimentar outras sensações que somente o surf poderia proporcionar. Ele entrou na água e, ao mesmo tempo, deu as costas para o mundo, não sem antes mostrar um belo dedo para todos.
A partir de então, a individualidade do surfista ganhou diversas conotações sem perder a essência. Do estilo espiritual de Gerry Lopez à busca sem fim de Wayne Lynch, sem esquecer da genialidade esquizofrênica de Michael Peterson, e por aí vai.
Dividir uma onda tornou-se quase um crime, até ganhou uma definição própria, como se fosse uma manobra: uma rabeada. Mas fica claro que não foi apenas uma necessidade do desenvolvimento da prática mas também o comportamento do praticante que transformou, nós surfistas, em caras, no fundo, bem egoístas.
Dividir a onda ainda pode ser bem divertido e até memorável. Impossível esquecer o canudo em OTW de Shaun Tonsom e Mark Richards, ou Jamie Obrien e Rizal Tanjung em Padang, até mesmo a bomba de Shane Dorian e Mark Healey em Waimea.
Ninguem pareceu triste ou saiu prejudicado em tais situações e o drama ainda se intensificou mais naquele instante. Mas, mesmo que estes momentos possam parecer mágicos, nunca vamos querer compartilhar aquela série animal que subiu com seu nome escrito.
Vivemos uma mistura do misticismo das crenças polinésias com o etnocentrismo e individualismo europeu. Se surfar já foi parte de um ritual sobrenatural, hoje em dia nada mais é do que a busca do indivíduo pelo prazer através dos benefícios de suas próprias ações. Algo menos religioso, mas ainda bastante existencialista. Estranho fosse se continuássemos a descer todos juntos na onda e rezássemos olhando para o céu, ia dar merda!
Luiz Blanco é fotógrafo de surf e um pensador do esporte.