Espêice Fia

Batismo no tow-in

No último feriado, fui convidado mais uma vez por Luciano Burin para participar das gravações do documentário “A Pedra e o Farol”. Com grande ondulação em alto-mar, a turma do surf de ondas grandes do sul de Santa Catarina já estava a postos e antenada no que poderia ocorrer. É sempre muito gratificante a hospitalidade da galera da Atow-inj, que tem sua base em Jaguaruna, em frente à famosa laje de “Jagua”.

 

Na quarta-feira, Thiago Jacaré já havia trocado vários telefonemas com Burin, e por volta da meia-noite e meia, chegamos a Jagua para encontrar André Paulista, que nos aguardava para receber baterias extras para as câmeras que captariam as imagens no dia seguinte.

 

A previsão era de ondas grandes, mas o vento sul forte estaria presente para talvez complicar nossa empreitada, segundo Paulista. Madrugada fria, deitamos ansiosos sob o forte barulho das ondas. O amanhecer estava bonito, sol raiando, mas vento apertando e estragando as condições. Fomos atrás de outras ondas e essa session será contada em outro capítulo. Quando cheguei da última temporada havaiana, confeccionei uma gunzeira 10’4”, pois queria aproveitar aquela sensibilidade de ter usado pranchas grandes para poder fazer um bom trabalho. A prancha seria para a temporada 2014 / 15, mas iria passar primeiro pelo teste na laje de Jaguaruna.

No dia seguinte, aquele “ventoso” amanheceu ainda mais frio, no entanto com uma ótima brisa de terral. Na serra marcava temperatura abaixo de zero. Bem-vindos ao inverno que, aliás, trazia o aniversário do dia do surf! Sol raiando, mais uma vez lindo! Luciano quis captar o visual de cima das dunas que ficavam logo atrás das casas. No horizonte avistávamos a laje da Jaguá, cerca de 5 quilômetros e meio da costa. O mar havia baixado, mas espumeiros espaçados poderiam ser vistos facilmente. Diferente do dia anterior, as ondas pareciam mais emparedadas e, é claro, mais perfeitas. Mas isso era o que nós tentávamos deduzir, pois nossos olhos não nos proporcionavam uma visão nem minimamente exata, pois o negócio é longe!

 

Já na base da Atow-inj, encontramos uma galera já se preparando quando Thiago Jacaré sai pra encher os galões de combustível para botarmos autonomia nos jets. Encontrei ali João Capilé, figura carimbada na laje quando as condições prometem. O caldo era engrossado por  Luis Sapão, Marcos Cabral, pelo videomaker Lucas Barnis e Julinho.

 

“Galera, vamos agilizar, pois aqui na frente baixou, mas lá fora pode ser tudo diferente”, relata Jacaré. Estava bem ansioso. Botei meu long e um colete flutuante, já que a turma ali só cai toda inflada. Pra mim tudo é novidade e não via a hora de estar remando e tentando pegar aquelas ondas grandes. Depois de todo o ritual de arrumar as parafernálias, já estava eu sendo levado por Capilé em seu jet para esperar o resto da turma ser transportada para depois da arrebentação do beach break.

 

O big rider Fabiano Tissot já estava ali esperando a turma em seu Stand Up Paddle onze e sei lá mais quantos pés. Pedi emprestado seu remo para ver se conseguia remar com minha gunzeira. Mesmo com 22 polegadas e meia, com 3 e meio de flutuação, não consegui transformá-la em um SUP.

 

Desisti quando a turma toda com os quatro jets chegava para sair em caravana rumo à laje. Depois de cerca de 20 minutos, íamos nos aproximando quando avistamos algumas embarcações e suas redes montadas a poucos metros do pico, afinal estamos em plena temporada de pesca da tainha. Rondamos a área enquanto esperávamos ansiosos por uma série. Para a nossa sorte, os pescadores pareciam estar recolhendo as redes e teve um entendimento mútuo. Da última vez que fui à laje, não consegui ficar muito tempo no jet, pois ali se enjoa bem mais que em qualquer outra trip que tenha feito em embarcações.

 

O volume de água se mexendo é grande e o melhor mesmo era ir pra água, até porque Fabiano Tissot já estava remando com seu “navio” rumo ao meio do oceano. Uma série na direita entrou com uma onda pequena na frente e uma maior atrás que rodou um tubo. “Ôpa, parece que tem umas ondas, galera. Vamos passar pro lado da direita pra analisar melhor”, dispara Thiago Jacaré.

 

Fabiano buscava as esquerdas e uma série maior entrou no momento em que eu buscava me posicionar pra remar nas direitas. Umas duas ondas passaram com bastante volume, mas eu estava perdido e não conseguia um bom posicionamento ao mesmo tempo que esperava ver qual o real tamanho do swell. As séries iam aumentando quando uma de uns 6, 8 pés dobrou em cima do “cabeço” de pedra. O lip jogou longe e tentei remar ao lado, mas não consegui entrar. Esperava que Thiago ou qualquer outro da turma viesse a remar junto comigo, mas naquela ocasião a direita estava mais propícia mesmo era para o tow-in.

 

Jacaré logo apareceu rasgando o outside, rebocando André Paulista. A sintonia dos dois parceiros é notada logo na primeira onda de responsa que entra. André solta a corda, e dando aquela “estilingada”, faz a curva por trás do pico. Acompanho a ação a poucos metros dali e só vejo aquele lip grosso dobrando seguido dos urros da galera no canal.

 

Consegui um bom drop ao lado da pedra, e o tubo que foi rodado por ela em minhas costas jogou um forte spray. Neste momento, Capilé já estava puxando Sapão e o trânsito no curto line up aumentava. Não consegui me concentrar muito pra tentar um posicionamento melhor pro drop e fazer a onda que eu queria, mesmo com a dificuldade da cabeça de pedra que faz a o lip jogar à frente em questão de segundos. Mas segui tentando os drops, quando Capilé veio em seu jet a milhão em minha direção. O Sol ofuscava sua vista, e por via das dúvidas aceitei logo o alerta enviado por Tissot para que saísse dali.

 

Já tinha visto umas duas paredes de Tissot para a esquerda. Seu big “SUP” funcionava como uma enorme gunzeira e sua facilidade era incrível. Cheguei a vê-lo se posicionando e remando forte para uma da série que deveria ter uns 10 pés de face. A onda era verde e no mesmo momento já mudei a atenção para mais uma onda quadrada de André Paulista. O cara tem a manha. Vem bem de trás com um ótimo posicionamento. A brincadeira parece muito fácil. Sapão também veio na de trás fazendo uma bela curva, mas, como na maioria das vezes, só escutava os urros da galera nos outros jets, já que a onda passava por mim em fração de segundos. Minha primeira investida na esquerda foi divertida. Um intermediária com um drop confortável. Mas logo entrou na parte funda e encheu.

 

Fabiano Tissot veio na de trás manobrando bem, apesar do tamanho do seu SUP. Voltamos remando juntos quando ele seguia me dando muitas dicas. E eu atentamente ia escutando e pensando nas sessions que já vi em fotos e vídeos dessa galera dropadora de morras. Eu e Tissot na esquerda e a turma solta no tow-in nas direitas. A cada série apontada, a aceleração era acionada e a turma passava voando ao nosso lado. Em uma dessas, Thiago Jacaré, que já havia trocado o posto com André Paulista, pega uma grande direita. Capilé puxa Sapão, que vem na mesma ondulação, e como a prioridade era de Jacaré, ele veio para a esquerda quando Tissot já estava dropando atrasado.

 

Por pouco a turma não colidiu, e logo depois deste episódio acabei perdendo a melhor onda que poderia ter pego na caída. Uma esquerda grande veio atrás e já dobrando, mas, pra minha infelicidade, Fabiano vinha voltando rente à zona de impacto e possivelmente iria soltar seu SUP no meio da parede. Freei nas últimas e ainda bem que não fui, pois também iria correr o risco de colidir. Outras ondas vieram, Julinho também foi puxado e só via ele engatando em seu backside no trilho da direita.

 

Peguei outras boas, em especial uma que correu um pouco mais e deu pra dar um viradão na base seguido de uma boa curva acima da parede. Mesmo com uma 10’4”, o jogo de quadriquilha facilitava a virada. Luciano Burin, que estava posicionado para as direitas, teve de abandonar a session e voltar pra praia, pois Marcos Cabral, que movimentava o jet, enjoou bastante e não aguentou nem fazer o tow. 

 

Mas Lucas Banis, videomaker habitual da turma da Atow Inj, estava ali pra seguir documentando. Capilé acabou apenas puxando seus parceiros, pois acho que não se instigou. Na real, o mar apesar de estar com um tamanho nas maiores séries, estava pequeno para os padrões da laje e da turma. Thiago e André sempre me pilharam para que eu pegasse umas ondas no tow, e eu, pela resistência de nunca ter feito, ficava sempre na desculpa de que não queria aprender em um lugar casca-grossa, com uma pedra no meio do caminho. Resisti à primeira chamada e acabei voltando atrás quando a galera disse que partiria, pois, segundo eles, as ondas ali na direita já não estavam tão boas.

 

Queria ter ficado remando mais, queria ter pego uma onda tal como a que eu perdera no começo da session. Mas de certa forma já estava de cabeça feita, amarradão de estar ali. André assumiu o outro jet e Jacaré me trouxe uma “lâmina” modelo Jorge Pacelli. No primeiro momento estranhei muito o posicionamento das alças com a base bem aberta, mas Jacaré emendou dizendo que tow in era desta forma mesmo. Rodamos algumas vezes para que eu tivesse uma noção do line up visto de cima, e em poucos minutos lá estava eu deslizando em uma marola. “Essa daí foi fraca, só pra tu conhecer”, dispara Jacaré. “Agora vou te botar numa melhor”, disse ele, quando minhas pernas, mesmo com a pouca ação, já estavam reclamando.

 

É aquela coisa, um tipo de exercício que não estou acostumado a fazer e o “bicho acaba pegando”.  Uma maiorzinha veio e  o “jaca” acelerou. “Calma, não solta a corda agora, não”, dizia ele calmamente, enquanto ia em baixa velocidade. “Vamos, vou acelerar, é agora! Dá aquela estilingada e solta!”, disse ele.

 

E foi o que fiz: puxei, soltei e disparei! A onda dobrou, e quando olhei, o tubo estava lá atrás das minhas costas. A velocidade era tanta que passei longe do tubo e da pedra. “Vamos, Fabinho, é só o começo”, gritava a galera do canal me dando a maior força. E eu já estava era amarradão, querendo ir até embora de tão feliz mesmo com apenas duas ondas.

 

As séries começavam a melhorar e veio outra muito boa. Consegui soltar a corda em um bom momento e fazer uma linha melhor. Era adrenalina misturada com uma felicidade que só me fazia rir. Completei mais uma! A brincadeira tá boa! “Vamos esperar uma maior”, disse Jacaré. E eu pensava: “Agora lascou, vou ter que ir!”. (risos).

 

E a ondulação veio. A onda era da série, quando Thiago acelerou. Acabei não entendendo seu comando, e quando soltei a corda percebi que tinha feito rapidamente em momento errado. Não dei aquela estilingada, e quando vi que não ia passar aquele tubo quadrado que ia começar a virar em minha frente, virei pra esquerda. Na minha frente ia o Tissot em seu SUP, então desacelerei e botei reto, esperando a espuma chegar e rapidamente tratar de me livrar das alças. Recém-recuperado de uma contusão no joelho, não queria me machucar.

 

Assim que subi do espumeiro, Jacaré já vinha num pau da bexiga com uma alça pendurada para fazer meu resgate. Apesar de ser o procedimento de praxe, nada demais tinha ocorrido no caldo. Mas achei engraçado, pois o bicho parecia um “vaqueiro” atrás de laçar um “garrote”. Fiquei rindo da situação, mas ia vendo o que era fazer o tow-in com todos os apetrechos, incluindo os de segurança, muito mais importantes do que se imagina, pois com o oceano, com a natureza, mesmo em momentos não tão extremos, não se brinca.

 

Nesse momento, a cada onda surfada percebia que ia pegando os macetes, e a onda seguinte já fiz com  mais confiança, apesar de ter ficado ainda à frente do tubo. Sabendo que a galera queria voltar à praia, não quis abusar e pedi para fazer a minha última onda. Mais uma vez a ondulação veio grande, mas talvez ela não tenha quebrado direito na bancada. Só sei que fui em alta velocidade procurando conhecer a prancha, tentando traçar uma linha para sentir o equipamento. Achei interessantíssimo, pois minha base dianteira estava posicionada muito à frente do que eu estou acostumado, e quando achava que aquele “sk8” iria embicar, muito pelo contrário, o negócio parecia que ligava um turbo e aumentava a velocidade.

Saí dali muito amarradão e totalmente agradecido àquela  turma de surf de ondão, pois mesmo diante do atual momento na minha carreira, dei um passo na evolução do meu surf e do meu conhecimento em equipamento. Mesmo tendo sido poucas ondas no tow, aquilo foi marcante, novos horizontes abriram-se em minha mente. A volta pareceu mais rápida, mas não menos longa. Aproveitei para pegar uma onda com o gunzeirão no beach break, que, aliás, estava bem divertido. Peguei umas duas direitas longas com cerca de 1 metro e mexendo bem a prancha.

Ao sair, dei a pilha pra Luciano Burin dar uma remada, pois ele disse nunca ter remado em uma 10’4”. E constatei que ele se divertiu ao mesmo tempo em que André Paulista puxava Capilé ali na frente. Só via um aguaceiro depois que sua lycra amarela passava em meu campo de mira. Ao sair da água, Sapão e o resto da turma já tinham organizado uma assada de carne ali mesmo na praia, sob os comandos do escudeiro Fabrício Gaivira – diga-se de passagem, muito divertido, uma comédia. No momento em que a turma fazia o procedimento de guardar pranchas, lavar os jets, eu e Luciano nos despedimos, pois era hora de pegar a estrada de volta a Floripa, onde o trânsito na entrada da ilha era intenso.

 

Enquanto batíamos muitos papos sobre a session e o documentário “A Pedra e o Farol”, até que nossa volta passou de certa forma despercebida, tamanha era a minha felicidade da trip que acabara de se concretizar. Vendo algumas imagens depois, vi a dificuldade que é de se registrar os bons momentos ali. O oceano se move em um alto e baixo frenético e fica difícil captar e transparecer o tamanho real das ondas. Mas no mínimo foi um treino bom também para Luciano, pois, diferentemente de Lucas Barnis, tem pouca quilometragem em captação de imagem na Laje. Como a session que ele busca gravar para o documentário precisará ser épica, quanto mais treino, melhor.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.