Uruguai 1978 - Panamá 2012

Impressões de um surfista – Parte II

Sem ondas, Uruguai frustra expectativas do surfista peregrino. Foto: David Nagamini.

Uruguai, 1978

Meu pai ia jogar no Cassino San Raphael, em Punta Del Este, com os amigos. Um antigo, bonito, com arquitetura medieval e / ou renascentista e / ou barroca, não esses modernosos horríveis que hoje assolam a paisagem e plastificam o horizonte.

Não me caiu a ficha. Eu ia procurar as ondas que quebravam ao lado do barco afundado na praia, entre os biquinões e as raquetes de frescobol. O sonho da geração deles era “quebrar o cassino”, o sonho da nossa era “surfar no Hawaii”. Foi a única vez que fui até lá, abaixo da fronteira extremo Sul do Brasil, tchê.

O Uruguai é o nosso priminho. Só que fala outra língua e nos derrotou na Copa de 1950. Pequeno e ardido. Sempre se medindo com o grandão. “Cuidado com os baixinhos!”, dizia meu pai. “Sabe para que servem?”, perguntava, já reiterando a velha piada: “Para duas coisas: arrumar confusão e mandar recado prá mulher da vida”. É um povo educado, simpático e orgulhoso. Não cheguei a ir aos picos mais ao Norte da bela cidade.

Naquela época não tinha ouvido falar que existiam. Bastava-me saber que Punta tinha praia, embora não tivesse onda naqueles dias de verão. Sempre foi um pouco frustrante visitar um país novo e não surfar nele. É como
beijar uma garota e não conversar ou fazer amor. Falta algo fundamental na relação. Uma dolorosa incompletude.

No Uruguai senti-me como os turistas que, preconceituosamente, sempre desprezei quando morava no North Shore da ilha de Oahu, Hawaii. Nos finais de semana os enormes ônibus da Greyhound despejavam os gordos e coloridos “turkeys” (perus, termo pejorativo com que os locais denominavam os turistas) que corriam para fotografar tudo, inclusive nós, enquanto, entre uma e outra caída em Sunset Beach, fumávamos o cachimbo da paz descontraidamente deitados nas areias quentes ou sobre nossas pranchas gun do Barry Kanaiaupuni, Tom Parrish ou Bill Barnefield.

Japoneses, americanos da mainland, suecos, franceses, até brasileiros. Todos queriam ver nossas cicatrizes, ouvir nossas histórias, queriam viver e gozar através das nossas experiências.  Todos eles querendo desesperadamente um pedaço daquela liberdade, só que talvez não soubessem que não é com dólares, yens ou fotos que se compra ou se vivencia esse item na prateleira da vida. Ele só vem de presente. Não tem código de barra. Vem de nós para nós mesmos. É uma espécie de conquista. Ou reconquista, de algo que nos é inerente.

Reunião de negócios no Panamá. Foto: Rommel / ISA.

Panamá, 2012

Tive uma reunião de negócios em Panamá City que durou quatro dias (!). Depois de muito suor, lágrimas e ranger de dentes, fiz uma Ashtanga Yoga no quarto do hotel com a janela virada para o mar, às 6 da manhã, e, em seguida, tudo ficou resolvido.

“Deu, amigos? Agora: onde é que tem onda por aqui?”. “Bocas Del Toro”. Ok, fui. Avião local, uma hora até o Norte, encostada na Costa Rica. Do outro lado da fronteira uma velha conhecida, do ano 1990: o pico de Salsa Brava, vilarejo de Puerto Viejo, detonada alguns anos depois por um terremoto que, pasmem, elevou a bancada de coral ao nível da pele (!). Uma das ondas mais casca que já surfei (meu amigo Dôdo, que mora no Hawaii, antes de eu ir, já recomendava “quando você vir a série chegando, rema antes, bem antes do que está acostumado no Brasil”).

Já Boca é uma ilha dentro de um arquipélago. Tem onda para todos os gostos a poucos minutos de barco, embora numa janela bem pequena de ondulações durante o ano. Fundos de coral cortantes e desafiantes. São picos que variam de principiante para alta performance. No pequeno vilarejo senti o gosto caribenho. “Esses caras são especialistas em não fazer pôrra nenhuma”, pensei. É uma forma de arte. Não é para qualquer um. Requer talento específico e uma certa dose de DNA formatado por gerações de sossegados. Mas tem onda, e alegria, e festa, e simpatia. Para que mais?

Peguei um bote a motor que em dez minutos me jogou no meio de uma baía de águas cristalinas com umas ondinhas translúcidas e enfezadas. Me senti bem. A ondulação iria entrar em uma semana, diziam, mas só de estar lá surfando, naquele momento, aquela transparência, já me colocou de volta à minha psique peregrina. Um certo estado de graça baixou.

Na volta dei uma bicicletada longa circundando as lindas praias e casas de madeira que emolduravam a costa. Atolei num areião e tive que puxar a bike um bom tempo, enquanto gurias locais passavam sorrindo, num misto de simpatia e escárnio. Suave humilhação. As panturrilhas chiaram, mas não esmoreceram. Ralei nas pedras e conchas e vi o sol se pôr atrás da península. Então, finalmente pude suar. Junto com as gotas saíram algumas tristezas do passado que agora habitam as areias panamenhas e o tempo perfeito a que pertencem.

Sidão Tenucci é escritor e diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Publicou o livro Almaquatica (Fnac), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o designer gráfico David Carson, e o livro de aventuras zen “O Surfista Peregrino” (Livraria Cultura). Lançará em setembro o seu terceiro trabalho “Poentes de Amor”, ilustrado por 55 artistas plásticos. Viajou 52 países e levou mais impressões do que deixou.

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De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.

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Doutor Guilherme Vieira Lima, explica como a estabilidade do core define a potência das manobras e protege o corpo de lesões crônicas.