
Storm Surf Team – Primeira equipe de tow-in do Rio Grande do Sul, criada com o objetivo de desbravar ondas da região sul do país em dias de condições extremas.
Ilha dos Lobos – Menor reserva ecológica do planeta e única ilha marítima do Rio Grande do Sul, situada a 1.800 metros da costa, na cidade de Torres. Local conhecido e freqüentado há anos por surfistas em dias de ondas pequenas (até dois metros) e esquecido em dias de condições extremas.
A dificuldade de acesso aliada ao power da onda, que quebra em cima de uma rasa bancada de pedra basáltica, colaborou para ela ter ficado tanto tempo desconhecida do surf nacional e internacional.

Durante anos os tubos mais profundos e alucinantes desta onda permaneceram solitários, mas com o surgimento do tow-in as coisas tomaram novos rumos e dimensões.
O surfe começa a ser reescrito e redefinido, os tubos conhecidos como “impossibles” pelos locais, até então insurfáveis em situações realmente grandes, começam a ser desbravados com outros olhos.
A lenda diz que para entubar fundo, o surfista deve se colocar atrás da última bancada. Este teria a honra de fazer o que parecia impossível, mas como nada é impossível…
Poucos registros foram feitos do pico até hoje, pois com ondas acima de um metro e meio a barra do Rio Mampituba, único acesso ao mar para os barcos, fica interditada.

Logo, única solução era a remada, bastante difícil devido ao tamanho das ondas na linha de arrebentação, acima de dois metros.
É aí que entram dois elementos fundamentais: o jet-ski e Rodrigo “Monster” Resende. Junte uma pitada de insanidade, acrescente muita atitude, some a um dos melhores picos de surfe do Brasil e está pronto…
A sessão histórica de tow-in feita na Ilha dos Lobos no último dia 26 de maio pelo campeão mundial da modalidade Rodrigo Resende e pela equipe Storm Surf Team ficará para sempre registrada como um marco do surfe nacional, mas infelizmente foram registradas poucas imagens dessa barca.

No último dia 9 de junho foi feita a segunda expedição de tow-in na Ilha dos Lobos. Desta vez com um time de big riders de primeira, composto por João Capilé, Romeu Bruno, o experiente local Zeca Scheffer, Fabiano Tissot e Flávio “Boca” Oliveira, em ondas de 12 pés havaianos e condições perfeitas.
Para compreender melhor o potencial da onda, confiram as declarações de cada um sobre ela, começando com o monstro do surfe brasileiro, Rodrigo Resende.
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Rodrigo Resende – 26 de maio de 2003
ZECA – Quando foi a primeira vez que você ouviu falar desta onda em Torres?
RR – Foi no Hawaii, numa revista Line Up, com uma matéria onde você, Zeca Scheffer, venceu o campeonato de ondas grandes aqui do sul. Lembro que o pessoal comentava: “Caracas, tem uma onda… uma esquerda gigante lá no sul!”.
ZECA – Qual a impressão da onda nesta primeira sessão de tow-in gaúcho, na Ilha dos Lobos?
RR – Essa onda foi a que mais me impressionou no Brasil. A onda mais forte que eu vi quebrar, não tem Saquarema, Grumari, não tem Cacimba, não tem nenhuma outra onda que se compare a essa. Em termos de peso, tubo e força essa onda é animal. Pôxa, fiquei

emocionado em fazer o primeiro tow-in nela, poder participar deste seu sonho, você já vem há anos querendo surfar lá em um mar gigante… E eu acho que ela nunca foi tão surfada, acho que ninguém pegou tantas ondas em tão pouco tempo, foi animal.
ZECA – Como foi a sua primeira onda?
RR – Eu ia puxar primeiro, mas você falou: “vai lá”. Como a gente fica muito longe do continente, sem nenhum barco de apoio, apenas um jet, e eu não conhecia a onda direito, não sabia se ia fechar ou abrir, se colocava reto, se colocava pra dentro, o que iria acontecer, pensei: vamos começar devagar, pianinho, pegando mais para o rabo, depois vamos atacar ela melhor, e foi… Começamos a chegar cada vez mais para trás, bem lá pra trás. Foi demais, eu acho que essa onda foi feita para o tow-in e o tow-in foi feito para essa onda, já roubando a sua frase… (rs)

ZECA – Você acha que, com isso, Torres pode ser colocada no mapa mundial das ondas grandes?
RR – Lógico, não lembro de ter surfado uma onda tão pesada assim. Também não conheço Teahupoo, considerada a onda mais poderosa do mundo. Olhando, elas são bem parecidas, com certeza é uma das mais pesadas do planeta… A Austrália tem Shark Island, que é uma onda pesada. Existem algumas ondas pesadas espalhadas pelo mundo e ela estaria nesta categoria!
ZECA – Qual a maior onda que você viu no dia 26 de maio e que tamanho você daria pra ela?
RR – No mínimo 10 pés de tubo seco, com baforada e tudo. Tava grande pacas. O caldo é pesado e você tem que estar preparado pra surfar lá.

ZECA – O tow-in dá uma nova visão de surfe na quebra dos limites conhecidos. Mas, por outro lado, qualquer um pode comprar uma máquina e praticar o dito tow-in, mas não o verdadeiro tow-surf. O que você tem a dizer a respeito disso?
RR – Tem muita gente praticando tow-in. Durante o SuperSurf em Maresias (SP) tinha muito jet na água, tava uma febre, muita gente fazendo. Um lance que eu não acho legal é praticar no meio de surfistas. O surfe tem sempre prioridade, se tiver neguinho remando você não deve fazer, tem que ficar longe. O surfe veio primeiro e deve ser respeitado. Outra coisa, a Ilha dos Lobos é uma onda muito perigosa, se os caras começarem a se arriscar… Porque de jet você consegue chegar até ela, na remada é bem mais difícil varar a arrebentação e chegar lá pra se matar. É uma onda que onda não permite erros.
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Romeu Bruno – 9 de junho de 2003
ZECA – Qual sua impressão do pico e a sensação de ver uma onda assim no Brasil?
RB – Fico muito feliz de saber que há uma onda assim no Brasil. Na costa havia, no máximo, 8 pés de onda, enquanto lá fora havia 12 pés havaianos, sólidos. Outro tipo de onda, muita intensidade e muito barulho. Eu já cheguei ouvindo o estrondo da onda quebrando, aquele spray e, logo de cara, o Tissot pegando o maior tubão, internacional, alucinante! Nunca imaginei que houvesse uma onda dessa qualidade no Brasil, e com essa força também. Tem umas lajes por aí, mas não como essa. Eu ainda não havia visto nada igual.

ZECA – Qual foi a maior onda que tu viu nesse dia?
RB – Com certeza 12 pés havaianos e se bobear uma série de 15.
ZECA – O que mais te impressionou na onda?
RB – Ela só sobe mesmo quando bate na bancada, aí parece que ela anda pra trás… Pra trás e pra baixo ao mesmo tempo. Quebra abaixo do nível do mar. Impressionante! E o lip, pela grossura. O deslocamento de água é muito grande, parece Teahupoo, The Box…
ZECA – Você acha que podemos considerá-la uma das melhores ondas do Brasil?

RB – Sem dúvida é a melhor onda do Brasil… Maior e mais pesada.
ZECA – E você colocaria a Ilha dos Lobos no mapa das grandes ondas?
RB – Cara, eu colocaria. Penso que é possível pegar uns 15 ou 18 pés lá. E chega uma hora que é como Teahupoo, a onda não cresce mais para cima, ela cresce em grossura de lip. Pra mim não deve nada a nenhuma onda internacional, está entre as melhores do mundo. É uma onda pesada, grossa e buraco. Eu tomei umas baforadas que só tinha visto em Pipeline. Está iniciando uma revolução no surfe brasileiro.
ZECA – O que você pensa de surfar essa onda na remada em condições extremas como

esse dia?
RB – É uma onda muito difícil, não é pra qualquer um. Eu acho quase inviável. De repente vai um louco ali e pega uma, você mesmo já pegou. Mas é muito difícil de fazer todas as ondas que você tentar. Na remada ali, meu amigo, vai voar mais que dropar, e as chances de se arrebentar são muito grandes.
ZECA – Qual a impressão que você teve de Torres?
RB – Claro. Pra começar a cidade é linda, tens bons hotéis, restaurantes… Tem o Morro do farol com um visual alucinante da Ilha dos Lobos. Se você tiver um binóculo pode ver o cara dentro do tubo, é uma arquibancada natural. Um campeonato de tow-in aqui seria maravilhoso,

algo que o Brasil nunca viu. Eu comentava com minha esposa que, do alto do Morro, a visão lembra muito Jaws, no Hawaii. A onda é muito pesada e não é pra qualquer um, é muito fácil neguinho se machucar, como você se machucou hoje.
ZECA – Então há chances de Torres vir a ser considerada a capital do surfe brasileiro?
RB – Pra mim já é.
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João Capilé – “É uma onda que mexe mesmo com o sentimento do cara que gosta de surfe”
ZECA – Qual o tamanho das ondas nesse dia?
JC – Quando se fala em um mar de 10 pés, é porque ele oscila entre 8 e 12 pés. Esse mar tinha 10 pés havaianos, sendo que no final da tarde eu vi uma série com duas ondas de 15 pés.
ZECA – Tu consegues descrever a onda?
JC – Eu surfei muito em Noronha, passei muitos verões lá. Para mim a Cacimba do Padre era a melhor onda do Brasil. Só que a onda da Ilha dos Lobos mudou completamente meu conceito de onda no Brasil. Quando se falava do Rio Grande do Sul se falava em um litoral com muita corrente e condição de surfe regulares, e agora isso muda totalmente. As duas

melhores ondas do país, na minha opinião, estão nos dois extremos, nas duas fronteiras, na Ilha dos Lobos e na Ilha de Fernando de Noronha. Só que a onda da Ilha dos Lobos é muito mais forte que a da Cacimba do Padre. É uma onda oceânica que faz um lip no meio do próprio lip e forma um degrau animal. Nenhuma onda no mundo, nem Pipeline, se assemelha tanto à Teahupoo. Se você puser as fotos dessas duas ondas lado a lado, parece que são da mesma família, são irmãs. Deus fez uma lá e uma aqui.
ZECA – Quais são os perigos dessa onda?
JC – Falando do leigo, de uma pessoa que tem um poder aquisitivo alto e pode comprar um jet-ski, de repente o amigo dele pode ser um excelente surfista, mas quem estiver pilotando faz 80% da onda, e ainda tem que resgatar. Tem que ter no mínimo três anos como piloto de tow-in. Essa onda é a mais radical do Brasil e uma das mais radicais do mundo.

Toda pessoa que vier surfar aqui tem que respeitar muito. Eu gostaria de ver um Andy Irons ou um Kelly Slater surfando aqui, pois na minha concepção essa onda é quase impossível de ser surfada na remada, pegar uma onda no pico mesmo, é quase impossível. É algo que eu nunca tinha visto no Brasil, a única onda que já vi que se assemelha a ela é Teahupoo, nem Pipeline quebra assim, é um rolo compressor. Você vê a onda vindo, sugando toda a água da bancada e quebrando no mesmo lugar.
ZECA – De que forma essa onda deve ser trabalhada e quais benefícios ela pode trazer para a cidade de Torres, e até mesmo para o Brasil?
JC – Essa onda tem de ser trabalhada com muita sabedoria, de uma forma responsável. O surfista pra ir lá tem que ser de alto nível técnico. Não falo nem de nível de competição e sim de experiência em bancada de pedra… Ondas tubulares como no Hawaii e Tahiti.

De repente, um desavisado pode vir a comprometer toda a estrutura que nós queremos manter, de pessoas que fazem a coisa com conhecimento para não causar nenhum dano, tanto ao surfista como ao meio ambiente. Enfim, toda a estrutura que nós devemos respeitar como cidadãos e como atletas também.
ZECA – Então, Torres pode ser conhecida por abrigar uma das melhores ondas do Brasil?
JC – Com certeza. Torres é Torres. A Ilha dos Lobos passou a rasteira em todas as ondas do Brasil, não tem nada que chegue nem perto.
“A Reserva Ecológica da Ilha dos Lobos é de extrema import ância para a vasta fauna marítima que depende dela, a qual encontra-se sob cuidado permanente do Ibama. O desembarque no local é expressamente proibido bem como a pesca no raio de 500 metros, a pena varia de multa à prisão por crime ambiental. O surfe é permitido, se praticado esporadicamente e com cautela. O conhecimento do pico é fundamental para que nosso esporte não prejudique essa estrutura natural de sobrevivência que permanece em

harmonia há milhões de anos. Responsabilidade ecológica é fundamental e será cobra da com rigor pelos órgãos competentes, comunidade local e pelo Storm Surf Team. A primeira intenção na divulgação dessa onda é justamente encaixar o surfe de uma forma ecologicamente correta e trazer para a cidade de Torres e sua comunidade benefícios proporcionais às suas belezas naturais e ao carinho com que a população cuida delas. Daqui a algum tempo, nós não estaremos mais aqui e nos resta batalhar para que fique como herança, para as futuras gerações, uma consciência condizente com a verdadeira proposta de integração do surfe, que não tem nada a ver com comércio e autopromoção, e sim com a espiritualidade humana. Qualquer sessão de surfe deve ser sempre comunicada ao Ibama para se ter certeza de que os animais não serão perturbados. Lembre-se que o surfe é, acima de tudo, um estado de harmonia com o oceano, portanto, nós surfistas, devemos ser os primeiros a respeitar a natureza e cuidar dela. “
Equipe Storm Surf Team [email protected]
(Imagens capturadas e extraídas pela Maloca Video).
Confira estas ondas em nossa página de vídeos.
