Tem gente que surfa e tem quem pega onda…
Certamente não sou o cara mais qualificado para comentar estes livros, apontar o que há de melhor: existem dragões que conhecem mais e melhor do que aqui se fala…
Daí procurei enfatizar o valor deste movimento de ver o passado como um elemento vivo, a memória como um instrumento ativo, que nos faz entender melhor o presente e compreender que no olhar, em cada momento, em cada ato nós também estamos construindo uma história e que depende de nós que esta seja preservada e assim ser presente uma vez mais.
História e Cultura aos nossos pés…
Poucos esportes têm uma cultura tão ampla; poucos veneram e amam seu passado tão verdadeiramente como nós surfistas. Estas afirmações são evidênciadas, materializadas, em dois lindos albuns que acabam de sair.
O GREG NOLL, The Art Of The Surfboard, do Drew Kampion, com fotos de Jorge Salas e Jean-Paul Van Swae, arte e capa de Steven Rachwal, edição Gibbs Smith Publisher; capa dura, 260x260x22 mm, 176 páginas. US$19,77 novo e a partir de US$17,99 usado, mais US$17,98 de remessa na Amazon ou aqui, nas livrarias; não tendo, muitas aceitam encomendas.
E o THE SURFBOARD: Art, Style, Stoke do querido Ben Marcus, com fotografias das pranchas pela descoladíssima fotógrafa e jornalista gaúcha Juliana Moraes, prefácio do Gary Linden com fotos históricas do decano Jeff Divine; edição de Michel Dregni e arte de Sara Holle, publicação Voyager Press.
Capa dura, 223x313x23 mm, 256 páginas. US$23,10 novo e a partir de US$23,09 usado, mais US$24,97 de remessa na Amazon ou aqui por R$99,90. Na rede Livraria da Vila tinha e acabou, agora só encomendando.
Houve Uma Época em que Todo Surfista Shapeava…
The Art Of The Surfboard é sobre o lendário, mitológico big-wave rider e shaper Greg Noll para quem este livro “é sobre a viagem que vai de quando fiz meu primeiro shape, de madeira balsa, em 1949, com 12 anos, até as que eu faço hoje, de balsa, espuma, de redwood e koa. Tem sido uma longa viagem e eu devo cada passo dela aos havaianos da antiguidade.”
É um panorama da história da prancha – e do Surf, lembrando um tempo em que quase todos os grandes surfistas também eram shapers. São 14 capítulos com a historia dele como atleta, das viagens, os prêmios, como começou a shapear, sua icônica loja em Hermosa Beach, a fábrica – “A maior do mundo”-, os shapers que nela trabalharam.
O show continua com uma coleção preciosa de suas criações, as quilhas, os modelos especiais, as gunzeiras, a história do dia 4 de dezembro de 1969, as mini-guns, as “Da Cat” licenciadas pelo nosso moderno par excellence, Dora, e as réplicas, re-edições de pranchas que marcaram época, impressas na nossa memória emocional, produzidas com os mesmos materiais, com os mesmos shapes, com o mesmo acabamento.
Passado Presente
É o espetáculo das “re-criações” do Greg que vai das mais queridas pranchas de espuma até as especialíssimas Olos e Alaias, mostrando os cortes das árvores cuidadosamente, amorosamente preservados, a preparação… e para finalizar, um capítulo dedicado aos colecionadores, estes malucos siderados pelo que muitos vêem como velharias sem utilidade alguma.
Um Argentino mais que brasileiro
Daí o livro do Ben e da Juliana baseado em uma coleção única, maravilhosa – que tive a honra de ver na ‘Villa Sur Mer’ em La Jolla, residência do brasileirissimo argentino Fernando Aguerre, da Reef Brazil.
O espetáculo começa com as antigas havaianas em duas versões: as originais e as recriações cuidadosas do Greg Noll: show ! As de Tom Blake e outras da época, as maravilhas de Bob Simmons – minhas preferidas, como Porsches pré 356 -, as balsas dos anos 40 e 50 e as de espuma contemplando shapers históricos – Quigg, Lynden, Velzy, Kivlin, Weber, Hobie, Noll, Curren, Linden, Brewer e muitos mais, o que neste caso não é uma expressão, é a real. É muita raridade, é disneylandia de surfista no seco.
Além das fotos das pranchas, (segundo a Ju deram um trabalhão…), Ben foi buscar uma série de imagens únicas, algumas que nunca vi em outros lugares, desde logos até uma foto da tchurma, em 1940, com uma tal de Norma Jean, meio de lado, como se tentasse ser aceita… e anúncios de época, capas de brochuras dos shapers, adesivos, um show que não para até chegar aos nossos dias, com direito a fotos famosas e sempre lindas de se rever do Divine, ondas e pranchas lendárias.
São livros fundamentais para se viajar na história da prancha e do esporte. Se voce tiver que escolher um e conhece pouco, vá de Ben; se conhece mais, as recriações do Greg.
Futuro Presente
O melhor de tudo é que nós brazucas também temos um passado igualmente lindo e memorável. Inspirado por estas edições consegui convencer um dos nossos melhores fabricantes a voltar aos anos 70 e shapear uma réplica de suas famosas Lightning Bolts. Ficou linda e já está adornando meu barraco no Moreira, na rua do Surf, para admiração dos queridos.
Boa hora para a gente começar a olhar para os nossos legends, para o nosso patrimônio e pensar em como podemos preservar nossas memórias. Os exemplos – e os caras – estão aí.
