Há 20 anos na Association of Surfing Professionals (ASP), uma das principais entidades do surf mundial, o catarinense Renato Hickel tem total respaldo quando o assunto é surf.
Em entrevista concedida durante o Quiksilver Pro em Snapper Rocks, Hickel comenta as mudanças na ASP e os novos planos da entidade.
De acordo com o catarinense, o Tour pode ganhar três novas etapas em 2010 – uma na Ilha da Madeira, outra no Norte da Califórnia e uma terceira em local ainda não definido.
Não é segredo que os promotores da etapa brasileira do World Tour estão tentando levar o evento para Fernando de Noronha. Porém, existe o problema do calendário, já que a época de ondas em Noronha é no verão e dificilmente os australianos abririam mão de inaugurar o circuito. Qual a solução?
Realmente a primeira etapa é e foi um dos maiores problemas, porque a abertura do circuito é aqui, quando acontece o banquete com a entrega dos prêmios do ano passado e toda a exposição na mídia, além de ser o lançamento do circuito. Então, realmente é um problema. Apesar disso, já se conversou, a nível de mesa executiva e de administração da ASP, em encaixar um evento em Fernando de Noronha talvez como segunda etapa.
No passado, o problema maior foi a inconsistência de swell em Noronha depois de fevereiro. Pensou-se em fazer em março, depois do Quiksilver Pro e esse foi o maior problema. Não havia, e não há até hoje, uma confirmação de que seria consistente o suficiente pra gente fazer o evento nessa data. Então, qual é a única opção? É fazer antes. A respeito disso, a única coisa que tenho a dizer é que é possível. Existe condição, mas não é a prioridade agora da mesa executiva e da parte administrativa da ASP.
A gente está tentando introduzir três eventos novos no ano que vem, provavelmente um na Ilha da Madeira, um no Norte da Califórnia (EUA) e outro em lugar ainda não definido. Mas, a possibilidade existe e obviamente a gente tem de conversar, se reunir, estabelecer como esse projeto vai seguir adiante junto com os interessados no Brasil em fazer desse evento a primeira etapa no WCT.
Especula-se, nos bastidores do Quiksilver Pro, que o motivo da saída de Wayne “Rabbit” Bartholomew da presidência da ASP tenha sido por motivos financeiros. O australiano geraria um custo anual em torno de US$ 250 mil com salários, viagens em primeira classe, entre outras despesas. É verdade?
Sem dúvida a crise atingiu e está atingindo a ASP como qualquer outro segmento do mercado e do esporte em geral. A gente tem notícia aí de que várias empresas tiraram seus patrocínios das Olimpíadas de Londres e estavam praticamente assinados. Então, se de Olimpíadas tem gente pulando fora, imagina do resto? Mas esse não foi o motivo. A ASP teve de demitir funcionários, sim, mas numa escala menor, e o motivo principal da saída do Buggs foi porque ele recebeu uma proposta boa para trabalhar numa empresa de proteção ambiental, que é uma das paixões dele. O Rabbit está por trás também desse projeto de bombeamento de areia no Superbank e ele achou que era a hora. Com o lançamento do filme Bustin’ Down The Door ano passado e o encaminhamento do Dream Tour, o nível em que o circuito está hoje em dia, ele achou que era a hora. Uma das muitas frases clássicas que ele fala foi que, assim como Mark Richards parou de competir quando ele estava por cima, ele está querendo fazer o mesmo na administração. São 36 anos de carreira na ASP, né? Então, se é isso o que ele queria, ele tem essa opção de pendurar as chuteiras e tentar outras fronteiras na vida.
A ASP pode ficar sem presidente?
Não. A possibilidade que foi contemplada é a de o título de presidente, como era anteriormente à presidência do Buggs (Wayne Bartholomew), ser uma posição mais figurativa. Ou seja, a pessoa não ia ter um trabalho remunerado, nem um trabalho de escritório, como foi o Gary Linden, por exemplo, no passado, ou o George Stokes, o Peter Bournes, da África do Sul, que foram presidentes da ASP e não tinham salário. Era uma posição mais figurativa, eles iam atender às reuniões, aos banquetes, alguns eventos, e representavam a ASP quando necessário. Existe a possibilidade disso acontecer e a direção que a mesa executiva apontou é para escolher um ex-campeão mundial, alguém como Barton Lynch ou Martin Potter, o próprio Mark Richards, obviamente se eles aceitarem.
A etapa havaiana costuma sofrer muitas críticas devido às mudanças no regulamento. É a única prova do World Tour em que diversos locais entram direto no evento, sem precisar de triagem. Por que a ASP abre essa exceção?
Eu entendo as pessoas reclamarem, também já reclamei no passado. Gostaria que o circuito tivesse um modelo uniforme ou, como a gente está agora, direcionando para opções de formatos. Temos dois, três formatos na mesa. Temos esse que está sendo aqui, Bells vai ser um novo formato, sem round de perdedores, temos o dual heat system que pode ser implementado tanto em um como no outro. Então existe esse direcionamento para que o circuito não precise ser disputado sempre no mesmo formato, aí, estou confortável com o Hawaii se essa for a opção. O que acho errado, achei no passado, é a gente ter 11 campeonatos num formato e aí, sim, mudar no final do ano. A regra mudou quatro anos atrás, ela não muda todo ano, é a mesma de quatro anos atrás. Realmente ela mudou e eu entendo as críticas. Em relação à mudança, o que eu sempre falo quando a mídia me pergunta é que essa opção foi dos surfistas; não foi de comitê técnico, não foi da mesa executiva, não foi da administração da ASP. Foi da WPS (World Professionals Surfers). Os 45 surfistas que votaram, com a condição de ter homem-a-homem com o dual heat system no Hawaii. Essa era a troca. Eles estavam cansados de competir em baterias de quatro homens no Hawaii, os havaianos se aproximaram com a Hawaiian Professional Surfing Association, que fez a proposta para a WPS e disse ‘olha, nós conseguiremos, na prefeitura de Honolulu, mudar isso, mas se a gente ganhar essas vagas. Essa foi a troca.
Você está satisfeito com a sua carreira e a vida na Gold ou tem novos planos?
Estou satisfeito, estou bem aqui e ainda tem muita coisa a ser feita na ASP. A entidade está engatinhando ainda em termos de esporte profissional e a gente ainda tem muita coisa a desenvolver no Dream Tour, com todos esses formatos e mudanças que estão sendo implementados, tem também a opção do ranking unificado (WCT e WQS) em 2011, quem sabe… Enfim, estou bem satisfeito aqui, adoro o Brasil, morro de saudade. Sempre que posso, visito de três a quatro vezes por ano Floripa, que é de onde venho e adoro, mas os planos por enquanto são de ficar onde estou.
