
O argentino Daniel Vivani, 36, é gente boa. Ele tem sido o anjo da guarda dos brasileiros que surfam as mais temidas ondas do Pacífico Norte.
Radicado em Maui, Vivani conserta as pranchas arrebentadas nas pedras de Jaws. Ele instala os pesos e alças, e ainda faz laminação para as principais duplas brasileiras.
Burle, Eraldo, Pacelli, Haroldo, Resende, Romeu, Danilo e eu fomos salvos pelo argentino de uma maneira ou de outra. Na maioria das vezes, nos últimos minutos do segundo-tempo.
Durante um cafezinho matinal, bati um papo com o argentino mais querido pelos brasileiros no Hawaii.

Você já morou no Brasil?
Não morei, mas já visitei muito, Floripa, Santos e Rio de Janeiro.
Quantas vezes?
Pelo menos 10 vezes.
Como você veio parar em Maui?
Em 1990, eu estava em Oahu, o mar cresceu muito e ficou maral. Então, fizemos uma barca para surfar Honolua. E encontrei um amigo argentino que me apresentou tudo aqui. Eu gostei e não voltei mais. Eu já tinha ficado um ano na Austrália. E quando moleque eu sempre viajava para o Peru. Mas quando eu cheguei ao Hawaii foi algo diferente. Todo surfista que gosta de onda grande e água quente vicia aqui.

Como foi sua primeira vez no Hawaii?
Poxa, eu fiquei em Oahu com o Jorge Pacelli e o fotógrafo argentino Daniel Balda.
E como começou a trabalhar com pranchas?
Desde criança eu consertava as minhas pranchas. Depois que vim para o Hawaii, conheci um cara que trabalhava fazia o glass para o shaper Dick Brewer. Ele me ensinou a polir, lixar, colocar quilhas e ele gostou do serviço. Quando vim para Maui comecei a fazer glass para Timpone, Charlie Smith e deixei o trabalho que eu tinha em Oahu. Fiquei em Maui com o Kazuma e os outros citados acima. Meu irmão também trabalha aqui fazendo pranchas de windsurf.
Como é ser o anjo da guarda dos brasileiros?
Eu já conheço os brasileiros há mais de 20 anos e a galera chega aqui para surfar ondas grandes. E as coisas não são fáceis, são caras e difíceis. E sempre que a galera precisa de uma força eu dou uma ajuda.
Quais pranchas de brasileiros você tocou nessa temporada?
Acho que de todas as duplas de brasileiros: Danilo, Rodrigo, Burle, Eraldo, Jorge, Haroldo, Romeu e suas também. Eu coloquei pesos, straps, dei o glass e até ajudei a arrumar os jets-skis do Burle e do Eraldo. Até de mecânico eu ajudei. Eu gosto de mexer com essas paradas. A rapaziada sempre chega um dia antes das ondas e faz como eu fiz na noite do dia 14 de dezembro, até a noite colocando straps e pesos. Sempre rola isso. Eu já estou acostumado. Fiz para o Danilo a mesma coisa que fiz para você naquela noite.
Você gosta do que faz? Eu te acho um perfeccionista.
Eu já trabalhei com muito negócio chato. Passei 10 anos trabalhando duro em construção. Há seis anos só trabalho com prancha. Tenho 25 pranchas só minhas. Eu coleciono, gosto da parada.
Você também faz o shape?
Não, eu não gosto.
E essa rivalidade Brasil e Argentina? No futebol e na rua existe a maior rivalidade.
Para mim, aqui em Maui somos todos latinos. Conheço muita gente gringa e eles
Não vem aqui na minha casa comer e ter um relacionamento. Nós, argentinos e
brasileiros, somos amigos aqui do outro lado do mundo. Futebol é um esporte muito violento, se formos olhar as torcidas. Não acho legal esse lado da modalidade.
Quais são suas ondas favoritas em Maui?
Um secret-spot de esquerda, que lembra Teahupoo e Jaws.
Você pretende morar aqui para sempre?
Eu me casei e estou legalizado. Pretendo ir para a Argentina somente para visitar. Também quero ir ao Brasil no ano que vem.