
“Deus ajuda a quem cedo madruga” é um ótimo ditado popular. Mas nem sempre podemos levar essas frases na ponta do lápis.
Acordei tarde e fui checar Pipeline. Ondas de 8 a 12 pés bombavam na bancada mais famosa do mundo. Duas séries quebraram no Banzai e, na hora que atingiam a bancada era um Deus nos acuda para quem estava na onda.
A forte influência de Norte deixou a onda perigosa. O vento maral tornou o visual nada apetitoso. ”Tem bons momentos fotográficos, mas para falar que está bom falta muito”, comentou comigo o bodyboarder e fotógrafo Duda.
O paulista Caju, nosso representante no Mundial de Surf de Peito, acrescentou: ”Era para o evento rolar hoje, porém, essas condições com muito Norte não estão boas para o bodysurf e a organização adiou o campeonato para amanhã”.
Corri para Sunset. Ainda no carro, vi uma linda série quebrar no outside e decidi cair mesmo com o vento maral entrando.
Altas ondas. Sunset é o tipo da onda é alucinante mesmo com um pouco de vento maral. Antes de cair na água, um local me viu sacando uma 7’10 e falou: ”Irmão, pegue sua prancha maior. A bóia bateu 12 pés e essa prancha não vai agüentar”.
Peguei minha 8’10 e saí a milhão para o fundo. Surfei quatro ondas excelentes. Na última, ela formou um lip duplo no inside e notei a cabeça da minha amiga Silvia Nabuco bem embaixo, no pior lugar possível.
Como eu não podia fazer nada, coloquei a prancha no trilho do tubo e saí com a pulga atrás da orelha procurando por ela. Foi um supercaldo, mas a garota mostrou estar em forma ao exibir um sorriso no rosto depois de um caldasso. Eu também a vi pegar uma bonita onda.
Morongo, com um gorro de borracha, também deslizou por boas paredes. Ele se sente à vontade em Sunset. Silveira é uma excelente escola.
Entrou um forte vento maral e fui para casa. Minha mente programava um sessão de kite em Sunset. Na noite anterior, Ryan Rawson, com kites novos, pediu eu telefonar se o vento bombasse. Mas, fui checar as condições com ele e o vento não soprava com força suficiente para a sessão.
Mais tarde, depois de uma soneca, às 16 horas percebi que o vento tinha mudado de direção. Botei a prancha no carro e fui para a praia.
A realidade era vento soprando de lado (East/North/East, nordeste) e séries de 12 pés
quase fechando o canal. Havia somente um surfista no inside.
Olhei para o céu e agradeci a Deus. Corri para a água e, quando passei pelo dito cujo, ele acenou e berrou amarradão em ver mais alguém para dividir as ondas. Como minha prancha era grande, remei para o fundo.
Surfei sozinho durante hora e meia. Olhava ao redor, ninguém. Uma paz infinita.A
onda um pouco ”bump”, mas as paredes longas eram um sonho real.
Às 17 horas notei que o vento tinha virado totalmente para terral. Algumas séries
Ameaçavam fechar todo o canal. Numa delas, dropei atrasado e o terral segurou o bico da minha gun. Pelo tamanho, a onda foi um pouco cheia depois do drop, com trajeto por onde normalmente funciona o canal.
Ao entrar na bancada ela dobrou e ficou pesada com dois lips. Corri para o bico da prancha e peguei um tubo verde. Quando subo do caldo, vejo o “pássaro indomável”, Carlos Burle com seu tipico sorriso no rosto.
Fomos remando juntos pelo canal, pasmos por estar em três num mar daqueles. Naquela hora, um SNI dropou uma onda linda e apreciamos forte o momento.
O crowd comeca a aparecer. Cerca de dez surfistas dividiam o line-up entre o inside e o outside. Evaristo aparece amarradão. “Caramba, meu amigo disse para não entrar. Eu tinha acabado de sair do trabalho, só havia uma hora de surf, mas eu não consegui agüentar e saí correndo para água”, disse o big rider carioca.
Ele pegou uma onda verde e grande. Foi punk o contraste da imagem dele com o sol do final de tarde, deixando tudo alaranjado, a onda e o véu do terral. Muito visual. Ele dropou atrasado e deu o bottom com um bonito estilo e disparou a milhão para o inside.
“No inside, ela encavalou e eu peguei um tubaço. Quando eu saio feliz no canal, vejo Burle dentro de outro salão. Caramba, alucinante. Isso é Hawaii”, sorriu Evaristo.
Enquanto isso, duas duplas de tow-in surfavam o outside de Backyards com lindas paredes. Os caras estavam pegando altas. Tubos, manobras, tudo que tinham direito.
Saí do mar e apreciei com calma todo o visual. Hoje eu não madruguei, mas fui abençoado. Aliás, todos que curtiram esse final de tarde ímpar. Amanhã tem mais.
Aloha