Soul Surf

Hawaii, 33 anos depois

Harold `Dodô´ Von Sydow em Ala Moana Bowls, South Shore de Oahu, Hawaii. Foto: Rambo.

Voltando ao Hawaii! A visão idílica da vida nas ilhas vendida pela propaganda turística? é a pura verdade em tons de azul e verde. Tenho que admitir. Ninguém parece tanto com o seu próprio cartão-postal quando o Hawaii.

 

Vendo aquela água verde-cristal habitada por points perfeitos, canoas cruzando os canais, pássaros marinhos coaxando mantras, e algum jet-ski destoando da natureza ainda surpreendentemente selvagem, enquanto transitávamos pela Kapiolani Boulevard rumo ao East Coast, passando o vulcão Diamond Head, me localizou no tempo, no espaço e na minha (falta de) sanidade. Como pude ficar tanto tempo fora daqui? A verdade é que evitei o Hawaii, assustado e deprimido com as notícias de violência dentro da água, crowd impossível e vibe tão pesada a ponto de mastigar e moer com poi e hula-dance-hip-hop, o “aloha spirit”. Tinha dúvidas da sua sobrevivência.

 

Lars Von Sydow e Sidão Tenucci, North Shore de Oahu, Hawaii. Foto: Arquivo Pessoal.

No mesmo dia fui apresentado ao Lars. Filho de Dôdo e Helena, 8 anos, sarado, havaiano e surfista fissurado. Quis me lever para surfar o seu pico predileto, o?Bowls?. Na hora não me liguei, com a mente ainda afetada pelo jet-leg viscoso, mas assim que chegamos lá, só eu e ele, já que os pais tinham que trabalhar, me dei conta de que era nada mais nada menos que o histórico pico de Ala Moana.

 

Escola para grande parte da nata havaiana de todos os tempos, desde Duke Kahanamoku, depois Gerry Lopez, até Buttons. Lars me mostrou o caminho pelo parque até o estacionamento, o lugar de enrustir a chave do carro, aconselhou-me a usar as sandálias para não ser surpreendido pelos espinhos no gramado que leva até o point, o buraco nas pedras de corais para esconder as mesmas sandálias, o melhor caminho para entrar numa prainha quase paralela do ponto onde as ondas quebravam lá fora, e, remando através do canal até o line-up, me orientou ficar na intersecção entre “aquele prédio com

Sandy Beach, local onde Barack Obama, candidato à presidência dos EUA, costuma praticar bodysurfing. Foto: Sidão Tenucci.

tôpo de pirâmide e o outro mais alto logo ao lado esquerdo, e as duas pedras no fim do pier de pedra”.

 

?Se conseguirmos manter essa posição?, disse Lars, no seu inglês suave, quase sussurrado, assim que entrasse a série, ?we are good?.

 

Contei 330 remadas para chegar da prainha até o line-up. Sentei e fiquei calmamente esperando em meio aos locais.

 

Lars tinha razao. Estávamos no lugar certo. Em meio a um crowd de sómente quinze cabeças a primeira série havaiana que eu via em quatorze anos veio em nossa direção. Deixei passar, para não parecer fominha, ainda me ambientando com o local e com a galera, no que, imediatamente, levei uma dura do Lars. Estava 3 pés + plus/5 de face, havaianos, nada impressionante do ponto de vista do tamanho, mas com certeza impressionante do ponto de vista da magnífica vibração circundante, – com o pico de Kaiser´s quebrando mais para o outside -, da qualidade da formação e do vento suave que penteava a crista da ondas, deixando-as lisas e perfeitas até o canal.

 

O excesso de aloha pode entupir de felicidade uma mente urbana que tenta manter o precário equilibrio entre o Bem e o Mal ? e não consegue. Acontece. As dúvidas perniciosas, no entanto, ainda aparecem: “seriam os sorrisos havaianos um reflexo do sol constante e da sua história de almas puras, – quase dizimadas pela sífilis, gripe e gonorréia importadas pelos marinheiros do Capitão Cook -, ou seria algo que vem de dentro, com a simplicidade, a autenticidade e a força dos trade-winds?”.

 

Ficamos duas horas dentro da água. Toda a vez que eu remava para uma onda Lars remava com seu chaveiro 5?4?? ao meu lado, me incentivando e querendo porque queria surfar uma comigo. As pessoas em volta sorriam talvez achando que fôssemos pai e filho, ou garoto e “Tio Sidão”, como o Lars me chama. Uma garota havaiana bem morena, cabelo moreno escorrido até as costas, dotada de um poder gracioso na sua remada tão feminina quanto decidida, veio em nossa direção.

 

Os músculos definidos reluziam ao sol e todo aquele ser rimava com o ambiente, como se sempre estivesse existido ali, no outside de Ala Moana. Parou ao nosso lado e sentou-se no seu pranchão escuro, de shape tradicional, talvez uma 9?6??, sem nenhuma marca ou logo no bico. A única marca legível no quadro gauguiano era o seu nome (eu imaginava) tatuado no cóccix logo acima da marca do bikini de pano, em letra cursiva : Apaolani. Sorria.

 

“Nada como criança e cachorro para atrair as mulheres”, pensei. Nesse instante, enquanto eu viajava na maionnese visual, ela viu algo atrás de mim. Seu semblante ficou sério de repente, deitou na prancha e remou com rapidez para a zona de impacto. Vi quando ela, quase sem esfôrço, dropou a primeira onda. Nesse momento surgiu a “Rainha”.

 

Remei com vontade, agora já mais enturmado (pelo menos era o que eu esperava), e o Lars remou junto. Entramos os dois quase ao mesmo tempo, eu mais no pico. A formação impecável de Ala Moana mostrou a  sua face mais acolhedora e disponível, como um tigre inesperadamente manso. A onda práticamente pedia que a surfássemos. Fui juntando o longboard na parede, de ôlho no Lars logo acima de mim. Me sentindo um pouco desconfortável com aquele biquinho afiado perto da minha cabeça, dei uma acelerada e o ultrapassei por baixo.

 

Ao perceber o meu movimento o moleque deu um cutback, cruzou comigo por cima da onda e foi até a espuma, voltando e surfando agora atrás de mim. Colocamos os dois as mãos na parede e passamos umas três sessões com velocidade e alegria. Suaves ups and downs, ups and downs, ups and downs até o final.

 

Saímos finalmente lá embaixo, no canal, rindo e brincando de surf, como sempre foi e sempre deveria ser o espírito do esporte. Nesse momento lembrei de ter feito uma manobra exatamente igual com o pai dele, meu irmãozinho Harold Von Sydow, 30 anos atrás, em Maresias, quando ainda era um lugar mítico e isolado, cruzando nossas pranchas numa esquerda forte para dentro do Moreira.

 

Constatei mais uma vez que o tempo é uma brincadeira de Deus, e que eu fui mais uma vez abençoado, com mais um presente, mais uma vez, mais uma onda, mais um amigo, mais uma herança do surf.

 

Ao voltarmos para o pico, para buscar outro seriado, Apaolani, que tinha sido a única que tinha presenciado a nossa estrepolia enquanto retornava da sua onda, pelo canal, abriu um sorriso ainda maior e disse : “That wave was fun, guys!”. Rápidamente puxei o Lars para perto de mim, quase derrubando-o da prancha, e sorri de volta.

 

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