Meu nome é Mateus Andrade, tenho 28 anos e sou free surfer e shaper. Nasci no Brasil, na cidade de São Paulo (SP). Há alguns anos moro em Nova York (EUA). Sempre fui um amante de esportes, surfo e ando de skate desde meus 7 anos.
Praticava cooper quase todos os dias, uma média de 5 a 15 km. Sempre fui extremamente saudável em relação à alimentação e hábitos. Como surfista, viajei o mundo inteiro à procura de ondas, sempre tive um espirito livre, sem me prender muito às coisas materiais e pessoas.
Este ano, em Marrocos, comecei a sentir algumas dores nas costas e, até então, achei que não fosse ser nada de mais. A dor, apesar de ser fraca, persistia. Quando voltei a Nova York, em maio, fui procurar um médico. Foi quando descobri que estava com um câncer raro na coluna.
Como todos que recebem essa noticia ficam sem saber o que fazer, custou para me conformar. Como eu, que sempre fui saudável, poderia ter essa doença?
Minha mãe morreu de câncer de pâncreas e sofreu muito. Faleceu poucos meses depois do diagnóstico. O médico disse que eu tinha de começar a fazer quimioterapia imediatamente, pois o tumor estava em um lugar de difícil retirada. Como a quimioterapia, o objetivo era a diminuição do tumor e evitar uma metástase.
Na semana seguinte comecei a grande batalha. Na primeira sessão já me colocaram um cateter para a realização da quimioterapia, algo que é de extremo desconforto. A quimioterapia é algo indescritível, uma mistura de mal estar em todos os sentidos. Tinha, principalmente, muitas náuseas e dores de cabeça. Conforme as sessões passam, a sensação é que você não vai conseguir chegar ao final. A cada semana você se sente mais e mais debilitado. Ao total, foram 10 sessões em junho e julho. No final, tinha emagrecido 4 quilos e estava extremamente debilitado.
Depois do tratamento, tive a notícia de que o tumor ainda era inoperável e que teria retornar a fazer a quimioterapia. Tive um intervalo de 1 mês do tratamento anterior para me restabelecer um pouco.
Voltei em agosto e fiz ao todo seis sessões, encarando de uma forma melhor emocionalmente e tendo fé que o tumor ia diminuir.
Foram seis longas sessões, com idas e vindas ao hospital com infecções entre outras coisas. Para piorar a situação, meu pai teve um infarto fulminante durante esse período, o que também ajudou a me debilitar bastante.
Chegando ao fim do tratamento, o médico me deu a seguintes opções: o tumor tinha diminuído, mas ainda era de grande risco a retirada; podia fazer a cirurgia e não conseguir retirar o tumor; morrer na mesa cirúrgica ou poderia continuar com a quimioterapia até o tumor diminuir.
A opção estava em minha mão. Na minha mente eu não ia aguentar a quimioterapia por mais alguns meses; se continuasse eu ia morrer. Então, tomei coragem de fazer a cirurgia mesmo sabendo que não era a opção mais indicada.
Com todas as forças, fui encarar essa cirurgia de 5 horas na qual poderia morrer ali mesmo, ou acordar e ainda estar com aquilo dentro de mim. Tive muito medo, mas em todo momento mantive a fé que Deus iria me curar.
A última coisa que me lembro de pensar antes da anestesia foi que era grato pela vida que tinha tido e que se eu fosse embora era porque meu tempo tinha acabado, mas que se fosse para viver iria aproveitar cada segundo como se fosse o último. Quando você está em uma situação desta, entre a vida e a morte, passa um filme na sua mente, como um flashback da sua vida.
E a sensação é de impotência total, nós não somos nada e não existe controle – poder, dinheiro, etc; só algo que todos nos esquecemos do quanto é importante que se chama fé, acreditar naquilo que não vemos, trazer a existência daquilo que não existe.
Foi um sono profundo e quando acordei estava dopado e assustado. Queria falar com o médico, saber como tinha sido. À noite, já conseguindo raciocinar, o médico me disse que tinha conseguido extrair todo o tumor. Naquele momento tudo parou como se eu tivesse renascido e eu perguntei se não tinha mais câncer. Ele disse que não, “extraímos tudo”. Eu chorei e dava risada ao mesmo tempo. O médico continuou dizendo que seria uma recuperação muito difícil e que não sabia se eu ia conseguir voltar a andar novamente sem muletas.
Naquele momento nada disso importava, porque para mim eu tinha renascido e ia lutar cada segundo da minha vida e dar graça a Deus por cada dia.
Realmente a recuperação está sendo ainda muito dolorosa, ando com muletas e ainda tenho muitas dores. Há alguns dias, quando já estava fazendo fisioterapia, acabei caindo, me enrolando com as muletas, e tive que passar por uma nova cirurgia na coluna, mas graças a Deus tudo correu bem e estou novamente me recuperando.
Os médicos me disseram coisas negativas e positivas durante o tratamento, tive meus momentos de depressão e desespero, mas sempre soube e sentia que minha vida não ia terminar desse modo e que eu ainda poderia ajudar muitas pessoas com meu testemunho.
Apesar de estar em plena recuperação, eu estou livre do câncer e essa é a maior vitória que poderia ter. Eu estou vivo, respirando, meu coração bate, minhas células são saudáveis. Posso rir, chorar, sonhar, amar, estou vivo.
Sei que, apesar de todos dizerem o quanto é difícil eu voltar a fazer tudo que fazia como surfar, correr entre outras coisas, tenho uma fé inabalável que me motiva a superar todos os obstáculos.
Para vocês que estão lutando contra essa doença maldita, só posso dizer para ter força, fé e persistência. Sei o quanto sofremos durante todo esse tratamento, mas está tudo na nossa mente e sempre levo comigo essa frase: “Trazer à existência aquilo que não existe”. Esse foi o que motivou durante todo meu tratamento. Todos não acreditavam em mim e aqui estou curado e sei que ainda vou me recuperar de todas as sequelas que o câncer deixou.
Meu irmão e irmã, traga você à existência aquilo que não existe. Você pode, é só levantar a cabeça e crer que o milagre pode ser realizado.
Tudo é possível para aquele que crê. E na minha concepção, todos que passam por isso são pessoas especiais, seres humano únicos, porque só nós sabemos o quanto é preciso superar todos os limites para vencer o câncer.
Seja forte e lembre-se que você é uma pessoa única e que pode superar tudo, acreditando e lutando até o fim. Creia, meu irmão, eu sou apenas um caso de muitos que já venceram essa batalha.
Quero agradecer os surfista profissionais Bruno Santos, Raoni Monteiro, Jadson André, Jean da Silva, Sylvio Mancusi, Gabriel Adiska, Pedro Scooby, Jano Belo e aos fotógrafos Henrique Pinguim e Pedro Felizardo.





































