Guarda do Embaú fora de controle

#A praia da Guarda do Embaú, em Santa Catarina, está sofrendo um processo de transformação irreversível, causado pela interminável invasão de turistas que ocorre a cada ano no verão. Sem um plano diretor que organize seu processo de urbanização, a cidade foi invadida por casas por todos os lados, sem um critério urbano nem estrutura sanitária comportasse a demanda.

Não há, por exemplo, uma rede de esgotos decente. O sistema que existe é o de fossas residenciais e todos nós sabemos que essas fossas podem vazar para o lençol freático da região, especialmente no verão, quando a população da cidade aumenta muito. Ainda que não existam estatísticas, estima-se que a população cresça em até 10 vezes nessa estação.

Além do risco ecológico a que a cidade está exposta, os habitantes da Guarda têm se assustado com o tipo de gente que vem para a região. É impossível não reparar que a cidade assume ares de uma ?Amsterdam? tropical no verão, certamente devido à magia do local.

A população vive um conflito interno: de um lado estão aqueles que souberam se aproveitar do crescimento e vêem todo esse problema como um mal necessário.

Estes acham graça, por exemplo, do fato do modelo Paulo Zulu ter trazido um novo tipo de público para sua pousada na Guarda: mulheres das mais diversas idades que fazem de tudo para conhecer seu ídolo. O assédio ao modelo chegou a obrigá-lo a criar horários de visitação a fim de preservar o sossego de seus hóspedes.

Do outro lado ficam os habitantes que vivem da pesca ou que se preocupam com a preservação ecológica da região. Os pescadores já começam a temer que um processo de poluição descontrolado possa inclusive comprometer seu ganha-pão.

Além dos riscos ecológicos, os nativos enfrentam riscos sociais. Os pais temem que seus filhos sofram más influências, estimulados pela badalação nas noites da Guarda.

Lício, surfista local, respeitado salva-vidas e ex-presidente da ASG (Associação de Surf e Preservação da Guarda) explica: ?A galera vem para cá passar um tempo e despejar aqui todo stress da vida nas grandes cidades. Aprontam tudo que têm para aprontar e depois vão embora, voltam para sua vida normal de trabalho e estudo. Os nossos jovens que presenciam todo verão esse comportamento acabam, às vezes, se iludindo e achando que a vida é isso. Se bobear, você acaba vendo talentos locais se perdendo.?

A transformação da Guarda tem assustado a todos, tanto que culminou com a aproximação da associação de pescadores com a associação de surf local em busca de uma solução conjunta que evite a destruição do paraíso catarinense.

Para quem não sabe, devido a pesca da tainha, que proíbe o surf no litoral catarinense no outono-inverno, sempre houve um clima de rivalidade e distanciamento entre os surfistas nativos e pescadores. Agora estes mesmos pescadores perceberam que precisam do apoio dos surfistas, ou melhor, que ambos precisam um do outro.

?Isso aqui virou um Paraguai!?, vaticina Frank, lendário pioneiro da Guarda que presenciou todo processo de transformação social que a cidade passou nas duas últimas décadas. É claro que toda essa invasão tem também seu aspecto positivo. É com o dinheiro da temporada que seus habitantes garantem uma renda que servirá para o ano todo.

Foi esse dinheiro que fez diversas famílias locais prosperarem e trouxe maior conforto para todos. Porém, esse crescimento não foi suficiente para, por exemplo, a cidade ter um posto de saúde decente.

Por outro lado, a galera local convive com surfistas de alto calibre de todo país, o que permitiu aos locais ganharem um forte senso crítico do que seja alta performance. Afinal, a cidade respira surf. A Associação de Surf e preservação da Guarda (www.embausurf.adm.br) se aproveita desse clima para formar, ao longo do ano, seus atletas através de campeonatos e surf treinos, entre outras atividades.

A excelente banda local Maluco Consciente ([email protected]) não teria surgido se por ali não passassem todos verões várias bandas de calibre para servir de inspiração aos nativos.

Talvez a Guarda esteja sujeita à sua própria cilada, como um Narciso que se encanta com sua própria beleza refletida na água e acaba por se afogar em si mesmo. O crescimento que viabilizou seu crescimento poderá ser o mesmo que a enterrará se não for tomado um posicionamento a tempo, com medidas sérias de saneamento e infraestrutura básica além de educação ambiental e orientação profissional para novas gerações.

Segue abaixo um posicionamento do presidente da ASG, Marco Aurélio Gungel, enviado por e-mail ao nosso correspondente Fernando Gaspar.

?Como Presidente da ASG (Associação de Surf e Preservação da Guarda do Embaú), entidade que existe há mais de 15 anos, gostaria de salientar que a nossa entidade sempre alertou as autoridades locais, estaduais e até federais, como por exemplo, a Procuradoria Geral da República, sobre o que ocorre na praia da Guarda. Sejam fatores ambientais ou de qualquer outra ordem.

Infelizmente o suposto progresso (aquele que traz construções e pessoas e esquece da qualidade de vida) tem sido mais forte. Mas já não estamos mais sozinhos na luta pela preservação do local. Surgiram outras associações, como a Associação dos Canoeiros da Guarda, Associação do Barraqueiros Comerciantes da Guarda e o CAEP da Igreja.

Mas, o que mais chama a atenção nisso tudo é a própria falta de consciência das pessoas, que preferem o fator econômico à qualidade de vida.
A ASG realizou algumas ações neste verão (janeiro e fevereiro), buscando o equilíbrio entre a comunidade, o surf e o local. O projeto “Amigo da Guarda” foi realizado com sucesso, onde executamos surftreino, corrida de canoa, aulas práticas de yoga, projeto golfinho (para criaças até 14 anos), surf resgate e mutirão de limpeza na praia.

Vale lembrar o Corpo de Bombeiros de SC, que foi de grande importância para que nossas atividades fossem concretizadas e os nossos patrocinadores: STComp, Bad Boy e Surf Maniac.

Por último, arrecadamos mais de mil assinaturas num abaixo assinado que será entregue às autoridades, onde solicitamos a mudança do plano diretor com relação ao número de pavimentos (de quatro para dois), a fiscalização das ligações clandestinas na rede pluvial e a implantação urgente de sistema de saneamento básico.

Por outro lado, gostaria também de acrescentar que a mídia tem nos ajudado em alguns momentos, ms na maioria das vezes, quando a praia é exposta ao público com matérias distorcidas e sem motivos aparentes (como por exemplo no caso Zulu), os fatores maléficos são maiores do que os benéficos.
É isso aí, a luta ainda nem começou.?

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