Um dos desertos mais áridos do mundo se encontra na região norte do Chile, cercado de um lado pela Cordilheira dos Andes e do outro pelo Oceano Pacífico, na região raramente chove.
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Devido a isto, Arica e Iquique ao norte, são bem mais quentes que a fria e gelada Piche Lemo, ao sul de Santiago. Embora a temperatura da água seja fria, dá pra ficar até de camiseta na rua, devido ao clima árido. Foi bom não sentir mais o frio que estava fazendo no Peru.
Cheguei de noite em Tacna, se você estiver viajando para a fronteira nunca faça isso, principalmente sozinho. O último horário permitido para passar pela fronteira é às 22 horas. Aqui a primeira roubada da
trip.
Há uma diferença de fuso horário entre Peru e Chile de uma hora a mais para o Chile. Então, eram quase dez da noite no Peru e no lado do Chile, já estavam fechados o posto de imigração e a fronteira.
Eu bastante cansado, com quatro pranchas, roupa de borracha, uma sacola pesada, outra sacola pesada com todo meu material de fotografia, no meio de uma rodoviária, que mais parecia um enbaralhado entre a guerra do Iraque e uma feira do interior, com direito a galinha viva e tudo mais, ainda cheio de malandro na área, querendo fazer um trocado a qualquer custo.
Mas como todo bom brasileiro safo, fiz amizade com um cara de crente, que me levou para um hotel de quinta categoria ao lado da rodoviária para pela manhã me colocar no seu Landau 1970 e me levar rumo à fronteira por 10 dólares.
Os carros táxis que fazem esse percurso são todos banheiras velhas, ou a outra opção são os ônibus super lotados, onde suas pranchas e bagagem vão em cima, em um bagageiro que carrega de tudo, até armário de cozinha, amarrado de corda.
Chegando ao posto de imigração do Chile, o ?baculejo? é de praxe. Aqui é rota de passagem de bolivianos e também colombianos. Já sabe né! Desarrumam tudo, botam minha mala de cabeça pra baixo. Abrem sua capa de prancha, mochila, colocam tudo no raio-x, deixam o cachorro cheirar e só depois você pode seguir viagem.
Depois de uma hora de carro cheguei finalmente em Arica. Antes mesmo de me alojar peguei um táxi para conhecer a famigerada onda de El Gringo.
Os chilenos já aguardavam as próximas três semanas inquietos, pois o circuito mundial iria aterrissar em Arica para a etapa Rip Curl em El Gringo. Entre uma série e outra, dava pra ver as massas d´água, a direita do pico, quebrando bem lá fora, em El Buey.
Mas voltando ao Gringo. Essa onda é casca-grossa no maior dos termos. Um lip grosso, uma base reta, numa bancada muito rasa, infestada de ouriços que cortam como navalha, ou seja, faixa-preta como diria meu amigo Lawrence.
Fui logo fazendo amizade com um surfista local, o Totô. Já tinha colocado minhas bagagens numa pousada próximo da Isla de Alacran e fui experimentar o Gringo.
Quando tava colocando a roupa de borracha e tirando fotos ao mesmo tempo, coisa que só surfista-fotógrafo entende, vi e registrei Diego Medina dropar uma bomba de tow-in, botar pra dentro na craca e não aparecer mais. Depois de certo tempo ele boiou, foi resgatado pelo jet e saiu do mar, aliviando a todos que assistiam.
Aquilo me deixou adrenalizado e em dúvidas se devia cair, pois a fama do Gringo era de pesadelo, e o mar não estava pequeno, eu cansado da trip e tudo, mas impulsionado por Totô fui provar a besta.
A entrada no pico é outro detalhe arrepiante, numa vala entre as pedras, por um canal estreito, você se joga na água gelada e rema que nem um condenado para não tomar uma guilhotina daquelas na cabeça, bem em frente às pedras.
Aquilo ali, só de botinha por causa dos picorocos (ouriços), embora vi vários ?loucais?? caindo sem! É, lá você aprende a respeitar os bodyboarders, os caras são insanos e dropam numas ondas que não dá nem pra imaginar dropar de prancha.
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Aqui registro a segunda roubada da trip. Tentei remar em umas três ondas que vieram, mas o vazio se formava e não deu para dropar. Mesmo estando com minha 7?6? a massa d´água não deixa você ficar em dúvida, ou é ou não é.
Se você gosta de drop na ponta dos dedos, terceiro andar ao térreo em segundos, El Gringo é bacana para você surfar.
Logo na primeira onda que consegui fazer o drop, coloquei no trilho e ela me encobriu, estava indo tudo bem, eu lá dentro, em pé no tubo, me sentindo o Kelly Slater, quando a força da onda torceu meu corpo lateralmente e eu cai de barriga pro alto em cima da prancha, com o lip bate-estaca fechando por cima.
Fiquei tonto com a porrada! Não sabia onde estava, no Brasil, Peru ou no Chile! Acho que o Totô viu a seriedade da coisa e veio me auxiliar,
a sorte é que não vinha outra, ele me puxou para a direita, onde dá para ficar fora da zona de impacto e eu levei um tempo ainda para recobrar o ?quem eu sou?.
Devido à força da pancada eu ia ficar no trauma e sair, mas depois de um tempo no canal resolvi curar a ressaca, entrei, peguei mais duas e sai.
Tempos depois vendo as várias pranchas quebradas e os comentários dos pros após a etapa em El Gringo, posso entender melhor porque os top 45, se declararam todos impressionados com a força de El Gringo.
E olha que no campeonato as ondas estavam pequenas se comparadas com os swells anteriores. Na verdade as fotos mostram muito pouco da força dessa onda.
Vários brasileiros são respeitados e mencionados nas conversas entre os locais, que são quase todos cheios de cicatrizes do Gringo, que exibem com orgulho e honra, dentre eles o Pato e meu conterrâneo e brother Junior Sampaio, de Itacaré (BA), que tem no pé direito uma recordação da afiada bancada de El Gringo.
Depois da estadia em Arica rumei para Iquique, 6 horas de ônibus e encontrei o Lawrence, que já é local na região, respeitado e conhecido por todos.
Nosso guia e amigo inseparável foi o Miguel Mexicano, big rider local, que morou um tempo em Puerto Escondido, por isso herdou o apelido.
Iquique é um local peculiar, cercado por uma cordilheira, onde existem três grandes minas de cobre, com um cheiro característico, misto entre cheiro de peixe e terra seca.
Depois do almoço é difícil resistir a uma ?siesta?, não tem quem não fique com sono devido ao clima local, não é a toa que os índios batizaram o local de Iquique, que significa ?lugar de descanso?.
Aqui vários picos classudos, que dá até pra descrever pra galera. Um do lado do outro, dá até pra ir remando de um para o outro. La Piscina é uma esquerda bastante manobrável que fica na frente de um Hotel.
Hurracas também é esquerda e quando o swell está de pequeno para médio, é um bom lugar para cair. La Punta Dos é uma direita tubular sobre uma rasa bancada de pedras. Intendência é o Teahupoo local, uma onda forte e tubular, que suga tudo na bancada.
Mas o pico clássico é mesmo El Colégio, que ganhou esse nome por ficar em frente ao Colégio Salesiano. A onda de El Colégio é uma direita larga, forte e com altos tubos que quebram numa bancada rasa, que chama a atenção pela formação de coral branco.
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Parece que alguém bateu uma laje debaixo d´água, a bancada é branca, lisa e bem rasa nessa parte e chama a atenção, com a transparência da água (diferente do Peru, onde a água é escura e raramente você vê o fundo).
Aqui uma onda boa paga a viagem toda. A onda de El Colégio tem um drop sensacional, com um lip massudo, onde muitas vezes a única opção é passar por dentro.
Tem também a onda de El Bajo como é conhecida pelos locais, ou La Bestia como é divulgada na mídia, que é uma das maiores e mais perigosas ondas do Chile (junto com El Buey), que só começou a ser surfada com o aparecimento do tow-in.
Hoje já tem alguns poucos loucos que se aventuram no braço, mas eu
não recomendo. As histórias de terror aí nesse pico são muitas, segundo nos narrou Miguelito Mexicano, que já dropou a besta no braço, é só olhar nas fotos para conferir a atitude dele.
Em Iquique concentramos nossas energias no pico de El Colégio, uma onda fascinante. A onda não é nenhuma disneylândia, mas dá pra se divertir legal.
O Lawrence dropou várias de cabeça pra baixo e antes de voltar para Itacaré na Bahia, se empapuçou com os tubos do Colégio.
Dodô foi uma revelação na trip, o gaúcho raçudo, mesmo com poucos anos de surf, munido de sua 7?2? amarelinha, botou pra baixo com atitude.
Dá pra ver que o negócio no norte do Chile são os tubos e ondas fortes, isso se dá por um oceano bastante profundo (6 mil pés) que vem de encontro a uma bancada rasa.
Surfar é sempre uma aventura no Chile, um lugar cheio de energia revigorante, relíquias indígenas e um povo amigo, onde é bem comum encontrar ondas acima de 10 pés que rodam sobre bancadas rasas.
Chile é um lugar perfeito para viajar, pois o povo é bem educado e bastante honesto, e de quebra, se você quiser fazer umas comprinhas, Iquique é uma zona franca, tudo muito barato e original, nada de pirata por aqui.
Tem um shopping chamado Zofri que é coisa de louco, tem tudo de tudo, principalmente em vídeo, imagem e informática. Andando pela ala de lojas, você toma susto com os preços tão baratos e quer levar de tudo um pouco.
Cuidado, você pode se endividar seriamente por aqui e demorar bastante para fazer outra surf trip!
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