Soul surf

Gerações II

Nos anos 60 e 70 bastava ser surfista para não ser aceito socialmente. Era difícil entrar na casa da namorada. Hoje acontece o contrário: você não será aceito se não for surfista.

 

Não ter ligação com o mar pode alienar você do convívio humano e causar sérios estragos à sua vida sexual. As menininhas o olharão de cima a baixo como se estivessem diante de um ser alienígena travestido de oráculo de Delfos.

 

Para muito garoto que se considera ?inteirado?, bacana é matar aula na quarta-feira, fumar um ?beck? e fazer ?bate-e-volta? no Guarujá. Os tempos realmente mudam, e rápido!

 

Senão, vejamos a contextualização abaixo:
 

Surf anos 60 – quase uma contravenção;
Surf anos 70 – contestação (ligado ao movimento hippie);
Surf anos 80 – aceitação (via sucesso econômico do surfwear);
Surf anos 90 – incorporação no tecido social/popular;
Surf anos 00 – massificação (todo mundo é).
 
Na década de 60 já havia os famosos playboys, que apesar de nunca terem colocado a pele macia de seus pezinhos na areia, compravam uma prancha e um rack, botavam em cima do Simca Chambord envenenado e subiam a Rua Augusta com o escapamento aberto.

 

Hoje em dia só mudou o modelo do carro e da prancha, a atitude é a mesma, só que mais disseminada. O escapamento continua aberto. Entrar na água tornou-se supérfluo para a percepção das pessoas. Parecer é igual a ser. É a ditadura da imagem. Acredito, talvez ingenuamente, que se envolver com o ambiente mar, no entanto, é o ideal.

 

Na Roma antiga dizia-se que ?a mulher de Cézar não basta ser virtuosa, tem que parecer virtuosa?. Hoje a regra se inverteu: não é necessário surfar, basta parecer que surfa (não que todo mundo que esteja dentro da água saiba com real consciência o que está fazendo ? e eu me incluo nessa categoria, às vezes…).

 

Numa sociedade em que a informação visual e superficial atropela a palavra e a profundidade (qualquer analogia com o oceano é mera coincidência), o que há de se esperar? Na verdade, o acesso à substância das coisas depende cada vez mais do indivíduo, não espere que lhe seja dada pelo mundo ao redor. A essência é cada vez mais uma conquista.

 

Velocidade x conteúdo

 

É o ciclo maldito das ideologias revolucionárias, dos lugares secretos (Bali anos 80, praia da Guarda anos 70, Oeste americano séc. XVII, China anteontem), das mentes originais (dos amores puros?): nascem e morrem com cada vez mais presteza. É o tsunâmi humano, geométrico, que arrasta tudo na sua voracidade.

 

Os conceitos são consumidos feito batata frita do Mac Donald?s, com rapidez, frieza e ausência de nutrientes. Há 40 anos havia 50 surfistas no Brasil, hoje só o site Waves recebe mais de 50 mil acessos/dia.

 

O mundo devora, engole e devolve já contaminado o que nasceu ideal. Vide Revolução Cubana, Revolução Russa, PT, movimento hippie, rock & roll pesado do Black Sabbath dos anos 70, samba de raiz, ensinamentos dos mestres de todas as religiões e o próprio conceito de surfar.

 

Não desanimemos (digo isso para mim mesmo!), alguns baluartes de consciência e resistência ainda permanecem inalterados, embora à margem da massa (alguns serão, também e eventualmente, assimilados).

 

Do universo eletrônico/passivo e semi-passivo: computador/Tv/Ipod/celular/Vídeo-Game, ao acústico/ativo: livro/instrumentos musicais/pintura/surf/conversa/brincar com o cachorro, com os filhos, a distancia é de apenas uma intenção.

 

Que faz, realmente, uma grande diferença. Não estou falando para não utilizar o moderno, mas da atenção exclusiva/corrosiva a esse departamento de bytes alucinados e vibes fragmentadas.
 
O que perdemos e o que ganhamos não nos exercendo ativamente, apenas recebendo informação e delegando o ato de agir para outros que vivem as nossas vidas, por nós, na TV?

 

Ainda existem universos dentro e fora de nós. Não desistam (não desista, Peregrino!)! O que se apresenta não é tudo que existe. Aliás, o que se apresenta é o que não existe, é a ilusão, diriam os hindus, diria Buda, sinto eu. O invisível dentro dessa carroceria orgânica/high-tec chamada corpo é que é a realidade.

 

Por que é tão mais fácil acreditar no Faustão, na Copa do Mundo, nas mulheres peladas da Playboy, na Coca-Cola e não em si? A mídia valida as coisas? ?I don?t think so?. Tudo isso não é você, ao contrário, te tira de quem você é.

 

Por que estamos cada vez mais distantes de nós? Da límpida essência que nos criou? Quem for capaz de ver e ouvir através da estática do mundo estará vivo, quem não acessar o sutil virará estática/estatística. Alerta geral: a vida está passando fantasiadas de prazer tosco. Vai pegar?

 

Entre e além do anátema (a maldição) e da utopia (o sonho), existe o Homem. Que inclusive contém os dois. Que Homem é esse, hoje?

 

Obs: Agradecimentos à Chloé, 19 anos, linda e inteligente, amiga da minha filha Isabella e um raio de luz da nova geração, que me deu a idéia para essa coluna.
 

 

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