Surfista intelectual

Gally discute superação da estética

Miguel Gally durante o ADH Open 2005, Seignosse, França. Foto: Hrvoje Stjepandic.

Neste sábado em João Pessoa (PB), o filósofo e campeão europeu universitário de surf 2004 Miguel Gally faz a abertura dos cursos de Estética do Zarinha Centro de Cultura (ZCC) com uma palestra sobre “Estética: Nascimento e Superação ? Reflexões em Torno da Fundamentação das Artes Visuais”.

 

A idéia central da palestra, segundo Gally, é introduzir o modo como alguns dos conceitos clássicos que fazem parte das reflexões sobre a Beleza, ao longo do século XVIII, foram decisivos para o nascimento da disciplina filosófica chamada Estética.

 

“Embora não haja um consenso sobre quando, de fato, nasceu tal disciplina e que autor criou, efetivamente, alguns desses conceitos, tais como o de ‘desinteresse’, ‘jogo’ ou mesmo de ‘autonomia estética’, há um reconhecimento, grosso modo, de que Alexander von Baumgartem criou o termo ‘estética’ e que Immanuel Kant reuniu aqueles conceitos fornecendo-lhes uma fundamentação vasta e rigorosa para o que viria a ser a disciplina Estética”, ressalta.

 

A palestra de Gally, portanto, nessa fase introdutória, não dará uma ênfase ao contexto artístico, mas sim ao contexto filosófico desse nascimento. Evidentemente que não será difícil para o espectador versado em História da Arte perceber um diálogo contínuo dessas idéias com a produção artística do final do século XVIII, que mesclava a superação do Barroco por um Neoclassicismo na França e por um Romantismo germinando nos países anglo-saxônicos.

 

“A riqueza acumulada de teorias do Belo até o fim do século XVIII na França, na Inglaterra e no que hoje é a Alemanha, tinha uma relação evidente com a riqueza artística da época, mas conceitos como os de ‘jogo’ ou ‘autonomia’ só viriam a ser desenvolvidos plenamente dentro do mundo das artes no Modernismo”, completa.

 

Na opinião de Gally, explorar a origem desses conceitos e entender o nascimento da Estética é muito importante para compreender as propostas de superação da Estética no século XX. “Mostrar o que esteve por detrás do conceito de Belo na sua formação diretamente em Kant e analisar as propostas recentes de superação da Estética ? prossegue o filósofo – são procedimentos importantes para entrar em contato com a arte contemporânea sem pré-conceitos”.

 

Gally afirma, ainda, que poder apreciar, criticar e refletir sobre a produção atual das artes visuais exige um conhecimento da História, mas o que é necessário mesmo é permanecer curioso, é duvidar, é perguntar-se, é deixar-se levar, enfim, é estar preparado e aberto para operar o trabalho de arte. “A palestra de abertura e os cursos de Estética que se iniciam no Centro de Cultura Zarinha terão essa função dupla: fornecer uma introdução crítica ao vocabulário clássico da Estética a partir dos textos originais e provocar uma abertura cada vez mais consistente e produtiva para o mundo das artes visuais”, esclarece.

 

Perfil e outros projetos Miguel Gally nasceu em Louvain, Bélgica, em 1976, ano em que seus pais defenderam suas respectivas teses de Doutorado – eles foram professores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) até o início dos anos 90. Foi criado em Londrina (PR), João Pessoa e Paris. Entrou no curso de Comunicação Social da UFPB em 1995, cursando, ao mesmo tempo, Filosofia a partir do segundo semestre de 1995.

 

Ele abandonou o curso de Jornalismo no terceiro ano para dedicar-se aos estudos de Filosofia. Iniciou o Mestrado em Filosofia na UFPB em 1999, como orientando do professor Guido de Almeida (UFRJ), considerado um dos maiores especialistas no pensamento kantiano do Brasil.

 

Gally também seguiu Guido de Almeida no Doutorado da UFRJ, concluído no ano passado. O tema central do trabalho foi uma releitura da “Crítica da Faculdade de Julgar Estética”, o primeiro livro da “Crítica da Faculdade de Julgar”, de Immanuel Kant, publicado em 1790. A idéia era fazer uma releitura do Belo para investigar em que medida a Estética ainda podia ser interessante para a Filosofia da Arte, ou seja, para uma definição de arte. Gally criou e desenvolveu, então, alguns conceitos para dar conta deste propósito, como os de “ambiente do Belo” e “tensão lúdica”, e “ambiente da arte” e “tensão operativa”.

 

O projeto foi financiado pelo governo brasileiro através do CNPq e pelo governo alemão, através do DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico), que lhe possibilitou uma estada enquanto pesquisador visitante junto ao Núcleo de Estética da Universidade de Münster, dirigido pelo professor Josef Fruechtl, atualmente responsável pela cátedra de Filosofia da Cultura e da Arte na Universidade de Amsterdã, Holanda.

 

Gally trabalhou ainda com o professor Emmanuel Carneiro Leão, filósofo e grande erudito, professor emérito da Escola de Comunicação da UFRJ, uma fonte incrível de inspiração, graças ao Programa de Intercâmbio em Filosofia Antiga, o Projeto Phasis, firmado através da CAPES (2001-2005) entre a UFRJ e a UFPB, representada pela professora Gisele Amaral, e que beneficiou vários estudantes, dando-lhes a chance de um contato aprofundado com a filosofia grega clássica e helenística.

 

Hoje, além de trabalhar na preparação da tese para publicação e de divulgar os resultados da recém concluída pesquisa que lhe ocupou nos últimos sete anos, Gally aguarda o resultado de um projeto inscrito no Edital do Fundo de Incentivo à Cultura do Estado da Paraíba (FIC), do qual faz parte. Trata-se do projeto “Arte Visual: Reflexão & Produção”, de cuja equipe fazem parte, ainda, Marta Penner, diretora do Núcleo de Arte Contemporânea da UFPB (NAC), e outros profissionais do mundo das artes.

 

O evento será realizado neste sábado, dia 5, às 20 horas, no auditório o ZCC, localizado à Avenida Nego, 140, Tambaú, João Pessoa, Paraíba. Os cartões de acesso custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (estudante), e já estão à venda na instituição. Mais informações pelo telefone (83) 4009-5005, ou no site zarinha.com.br .

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