Masters do Ceará

Galera resgata as lendas

Legends do surf cearense encontram-se em Fortaleza para contar histórias das antiguidades. Foto: Lima Junior / Cearasurf.com.br.

O evento Masters da História rolou na barraca Master Beach, Praia do Futuro, Fortaleza (CE) no último domingo e com certeza a data vai ficar na história do surf cearense.

 

O evento reuniu muita gente que fez história no surf cearense e cada um com muitas para contar, mas como o encontro era de apenas durante uma tarde, os dinossauros tiveram que reduzir as lendas a ser contadas.

 

Personalidades como Odalto de Castro, Waltão, Chaguinhas fotógrafo, Lima Jr., Maninho, Pena, Raul, Diassis, Ricardo Papagaio, Bichinho, Marco Aurélio, Rafaela Bahia, Picolé, Ailton Júnior, Romero Jucá, Amélio Jr., Carlinhos Mahatman, João Carlos o Couveiro, Cardoso Jr., Marcelo Bibita, Alexandre Nocrato, Leopoldo Alberto, Fernando Carvalho, Marcelo Aguiar, Ozório Neto, Quinderé, André Grisa, Cirilo, Fabiano Dias, Alfredinho, Cezinha, Gilberto Gouveia, Cadinho,Wladimir Lobo e muitos outros fizeram parte desta tarde inédita.

 

O encontro deu início ao resgate da história do surf cearense. Confira a seguir o depoimento do legend Odalto de Castro, grande figura do esporte no estado.

 

?Ficamos dentro da água e os mais novos ficam dizendo quem é aquele velhinho…?.

 

?Comecei a pegar onda em 67, com prancha de isopor. Quando fui para São Paulo fazer um tratamento para crescer (e não cresci), virei surfista, aproveitei a viagem e trouxe uma prancha de verdade?.

 

?Surfava no Olho da Pedra, depois seguia para o Jaqueline. Ligávamos uma caixa de som no fusquinha e passávamos o dia surfando e comendo Martinho da Vila?.

 

?A primeira trip que tenho registro foi para Saquarema em uma Brasília e um Fusca. Depois, conhecemos o Paracuru e na época diziam que a onda andava de lado… Em 76 fui para Fernando de Noronha, quando surgiu a primeira revista, a Brasil Surf. Dpois fui conhecer as ondas mexicanas e quando voltei coloquei a Nortão. Em 80 desbravei o Hawaii, onde passei seis meses e na segunda temporada fui capa da revista Surfing Magazine, fato que vou levar comigo para o caixão?.

 

?A Nortão foi o marcador do surf no Ceará, pois grandes eventos aconteceram como o Nortão Beach Park de Surf em 1987?.

 

?Gostaria de citar os nomes de algumas pessoas que deram início ao surf em nosso Estado: André Grisa, Quinderé que fazia as pranchas Titã, Alfredinho, Zorrinho, em memória Sarará, Pena, Waltão e outros?.

André Grisa, outro dinossauro do surf, conta que o primeiro surfista que ele tem conhecimento de ter surfado em Fortaleza foi o carioca Carlos Mudinho. Ele o viu surfando no Titã quando tinha 8 anos de idade e caminhava pelas pedras.

 

Marco Aurélio, irmão de César Picuréia, denominou-se um babyssauro e expressou toda sua felicidade por estar participando do evento. Marco começou a surfar em 78 e relata ter sido muito difícil começar no esporte.

 

?Participei da Copa Beco Surf e fiz uma final sem cordinha, mas não porque eu me achava o tal, mas por medo dos outros atletas da bateria puxassem a minha cordinha… (risos), contou Marco Aurélio, que acabou ganhando este evento.

 

Alfredinho, o big rider da época, comentou que no passado do surf era uma batalha, pois a marginalização e o surf andavam bem próximos na cabeça das pessoas.

 

?Eu morei na beira da praia, surfei em todos os picos do Nordeste. Na Pipa nada existia, um dos picos aqui em Fortaleza que eu ia muito era a Praia do Futuro, logo depois surgiu o surf no Titãzinho que ainda não era como é hoje e havia muita discriminação por parte de nossos pais quando se dizia que o surf era lá…?.

 

?No Ideal rolavam altas ondas antes do paredão, a gente surfava até onde fica o Hotel Marina. O outside do Paracuru quem viu pela primeira vez foi um holandês que só pensava no surf, e disse que lá era uma onda havaiana…?.

 

Ozório, outro Dino, disse que ter participado daquela época do surf foi muito bom para ele e que até hoje tem grandes amigos. Um dos dias mais irados de surf em sua vida foi no outside do Paracuru.

Ozório declarou que ele, Amélio, Cadinho e outros formaram uma equipe para disputar contra a equipe da Nortão, muito forte na época.

 

?Antigamente éramos muito discriminados, mas hoje em dia o surf mudou muito. Sou surfista e vou morrer surfista?, finalizou Ozório.

 

Carlinhos Mahatman, o DJ do surf, agradeceu a toda a galera que deu início ao surf.

Carlinhos tem milhares de histórias de dino para contar, mas ele resolveu partilhar uma que lhe aconteceu bastante pitoresca. O ônibus que levava a delegação do Ceará para o evento atolou no meio do canavial e eles só conseguiram sair de manhã. Quando enfim chegaram a um lugar para tomar café, o dono se negou a vender e eles jogaram tudo para o alto, mas Pena ficou no banheiro esquecido e só notaram quando já estavam no caminho…

 

Pena, grande personalidade do surf no Estado, foi bastante elogiado por Alfredinho, que relatou que o conheceu quando ele ainda trabalhava em uma sorveteria a caminho da praia. ?O Pena é um exemplo de vida?, falou Alfredinho.

 

Pena confirma o fato e diz que o trabalho na sorveteria foi muito importante em sua vida. ?Todo mundo que surfava na praia do Náutico passava por lá. Eu via as pessoas pegando onda e ficava encantado, principalmente quando vi a Ponte Metálica. Foi quando resolvi comprar minha primeira prancha de verdade, pois a outra que eu tinha era de isopor?.

 

?Logo no segundo surf ela quebrou perto do bico, mas levei para casa e colei todinha com durepox, mas não tinha projeção. Foi então que coloquei massa plástica nela toda. Resultado: a massa plástica corroeu o isopor e a prancha encolheu. Mesmo assim fui fazer o surf, mas a prancha partiu toda e ainda me deixou todo cortado (risos)?.

 

?Gostaria também de deixar aqui meu agradecimento ao Odalto de Castro, que me convidou para trabalhar na Nortão. Para mim foi uma experiência bastante enriquecedora?.

 

?Foi quando surgiram as pranchas biquilha, mas eu só tinha dinheiro para uma monoquilha. Comprei e transformei em biquilha e fiquei muito experiente em fazer essa atividade. Quando certo dia chegou um gringo com uma prancha muito quebrada, dei a idéia para ele comprar uma outra, fiz o jogo com uma de um amigo que o gringo adorou. Acabei ficando com o bloco e com uma graninha (risos)?.

 

?Consertei a prancha e apesar de alguns acontecimentos inesperados ainda surfei muito no Paracuru com aquela prancha?, completou Pena.

 

Amélio Jr, vice-presidente da Federação Cearense de Surf, comemorou junto com o presidente e toda galera os 20 anos de Federação.

 

Amélio agradeceu à imprensa, a todos os atletas, às marcas que acreditam e investem no esporte e a todos que de alguma forma contribuem com o surf.

 

?Se a Federação está onde está é porque algumas pessoas fizeram muito por ela nas antigas?, finalizou Amélio Jr.

 

Waltão, das pranchas Wally, parabenizou o evento e concluiu com uma frase que diz tudo. ?Que o surf se eternize com a união de todos, pois o esporte precisa disto?.

 

Lucio Costa, o Picolé, veterano do surf, continua firme nas competições e corre atrás de um evento aqui no estado para os Masters.

 

Cadinho parabenizou a todos que estão no surf e chamou todos para surfar. ?Surf é estilo de vida?, declarou Cadinho.

 

A equipe Sem Sérebro também compareceu ao evento e os integrantes contaram uma das diversas de suas loucas histórias.

 

?Começo dos anos 90 na praia da Taíba, que na época era uma cidade fantasma. Fizemos um campeonato e à noite organizamos um show com a Banda Surto. Preocupados em não dar ninguém, tomamos todas, mas foi irado e deu uma galera, só que altas horas puxaram o palanque e caiu toda a frente. Pena ainda tentou segurar, mas não deu (risos). Para completar, o Capitão Gancho que dormia na sua rede embaixo do palanque, ficou de cara olhando sem acreditar no que estava acontecendo?.

 

?Éramos muito novos, mas o espírito era o surf, em vários campeonatos armávamos a nossa tenda que era um circo, mas o nosso foco era o surf?, declarou Diassis.

 

Bichinho também marcou sua presença e relembrou junto com a galera da Sem Sérebro as peripécias que armavam.

 

?Sempre estive presente na Sem Sérebro, mas hoje estou com cérebro. Lembro de uma viagem à praia do Francês. Foram 45 dias de muito surf e 20 dias de chuva. Estávamos acampados e dentro da barraca só rolava feijão e macarrão. Para mim foi marcante, mas o melhor que pegar a prancha e ir surfar, era amar o próximo como a si mesmo?, disse Bichinho, grande nome do surf, exemplo de garra e perseverança.

 

?Uma honra muito grande poder estar neste evento. Estou voltando para o surf que tem uma única coisa como base, a onda. Estive em Salvador há pouco tempo e todo mundo elogia o surf cearense. Obrigada por este evento?, confessou Jojó do Açaí.

 

Maninho, da Maresia, parabenizou o evento e lembrou os irmãos Nocrato, que foram patrocinados pela Maresia.

 

?Se eu fosse contar histórias do surf teríamos que ficar aqui três dias?, afirmou Maninho.

Cesinha, vários anos de surf, parou de surfar alguns anos, mas voltou em 2002 influenciado pelos amigos e filhos.

 

?Participei de várias trips malucas a pé com uma galera muito irada, estou feliz da vida, minha alma é surf?, comentou Cesinha.

 

Para finalizar, o idealizador do evento, George Washington, agradeceu a participação de todos e declara que o objetivo foi atingido, pois conseguiu reunir uma galera em um clima de muita amizade e cada um com uma participação na história do surf cearense.

 

 

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