O cheiro do mar atiça quem vem de muito longe. Do alto, enamorados com a prancha no colo, vêem ondas. O mar está bem em frente, e bem pertinho.
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Na praia, dezenas de pessoas bebem, conversam, reclamam com crianças que jogam areia, se bronzeiam, dançam e observam também um cardume de surfistas, que disputam uma única e tão rara onda.
Seis horas da manhã é o horário de quem acorda no outro lado da cidade. Hoje é domingo, dia de descansar, mas descansar dentro de um ônibus, entre Periperi (Subúrbio ferroviário de Salvador/BA) e Jaguaribe (bairro da orla marítima de Salvador). A maior dificuldade destes surfistas com certeza é o desgaste.
?Pegar trem e ônibus todo domingo, gastar R$ 8 de transporte pra ir surfar do outro lado da cidade, num mar que nem sempre tem onda, é problema!?, afirma André Lima, surfista e presidente da Associação dos Surfistas do Subúrbio e Cidade Baixa (ASSCB).
Mas, quem disse que só surfa quem mora perto do mar? Aliás, há uma praia bem perto, que contorna o Subúrbio ferroviário, mas essa não dá onda.
São quase duas horas sacolejando: buracos e músicas agitam a galera do surf suburbano por toda a viagem. Cerca 10 homens se reúnem toda semana, mas às vezes aparece gente nova, até quem não surfa.
O ponto de encontro é no Paredão do Surf, na Praça da Revolução, na verdade, um muro de pedras de uma casa linda, cor de creme e bem grande, uma das poucas no bairro. Dali, eles seguem para a Estação Ferroviária de Periperi. No trem, o passeio é rápido, em 10 minutos eles já estão em Paripe, mas ainda muito longe das ondas.
Por último, pegam um ônibus Paripe / Aeroporto, por sorte, aos domingos, sempre vazio. A galera gasta pelo menos R$ 4 para ir e, às vezes, o dinheiro para a volta não aparece, mas sempre rola o empréstimo com os amigos. O lanche, pelo menos, já está garantido, o cream cracker e a banana já estão dentro da mochila.
Na praia, a barraca D´Oxum é o lugar de encontro daqueles que vêm de carro, de carona, e dos que saem mais tarde de casa. Mas, na beira do mar, é a Iemanjá que os surfistas pedem proteção antes de se jogar naquela água sempre fria, e hoje, mais ainda.
?Tem gente de Periperi que vem só para se bronzear?, declara Rodrigo Jordão, surfista. Geralmente as garotas aparecem por lá, ficam numa mesa bem perto do mar para ver o surf da galera. Se for assim, a ?mala? da viagem fica com elas.
O sol incendeia a areia branquinha. Por aqui passam vendedores de amendoim, de côco, caldo de sururu, óculos escuros, bronzeador, cangas, bonés, salgadinhos, ovos de codorna, brincos, pulseiras, colares, roupas, pipas, bolas. Enfim, vende-se. As pessoas não compram muito, pelo menos as que estão por perto. É assim o dia todo.
São 16h e o mar está começando a ficar escuro. É hora de partir para quem quer chegar em casa já no início da noite. O frio bate agora, aquele corpo molhado junto àquele vento de beira de praia só dá nisso.
Juntam tudo e se não conseguirem uma carona para voltar, é para o ponto de ônibus que eles seguem novamente. Desta vez, o ônibus passa bem cheio, e o jeito é ir em pé, com a prancha entre o corpo e a cadeira mais próxima, e com o bico apoiado no chinelo. De lá até Periperi são mais 1h:40, não tem essa que a volta é mais rápida, mas com certeza mais cansativa.
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Quem dá sorte, senta no meio da viagem. Mas a descida não é perto de casa, afinal, a linha é Paripe, lembra? Para tentar agilizar, a galera desce em Vista Alegre, bairro próximo a Periperi, e lá aventuram uma carona. ?Se não aparecer, desce a pé mesmo?, afirma Rodrigo.
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São aproximadamente 4 quilômetros de andança até chegar em casa, e já são 18h. Quem não desembarca aqui, só desce em Paripe. De lá, o caminho se repete de trás para frente e agora só falta esperar pelo trem.
A união faz a força: Passam-se sete anos desde que André organizou seu primeiro campeonato. Em 2002, ele resolveu reunir a galera para organizar o surf do subúrbio e da Cidade Baixa, e surgiu, então, a Associação de Surf do Subúrbio e Cidade Baixa.
Hoje, nove pessoas dividem o trabalho e organizam campeonatos que acontecem quatro ou três vezes ao ano e premiam os melhores colocados com roupas. Participa gente de todo lugar, mas quem não deixa de ir mesmo é o pessoal de Periperi, são aproximadamente 50 surfistas.
Durante todo o ano, acontece também o ?Surf Treino?. Em 2005 ocorreram cinco edições, em 2006, seis e, deixando a coincidência de lado, este ano serão 12 edições, número recorde. Mas não tem essa de ser só um aquecimento, não, a galera manobra como se surfasse pela última vez.
Em dias de campeonato não são só os surfistas que disputam um lugar. Um ônibus de transporte urbano, daqueles com chão sujo, bancos rabiscados e estofados rasgados, leva a turma do bairro até a praia da Terceira Ponte, em Jaguaribe. Quem vai competir, vai de graça, quem vai assistir, paga R$ 4.
Cinco horas da manhã e a galera já ta levantando. Nesses dias é preciso estar na praia às 7h. A Terceira Ponte enche e os barraqueiros adoram. A galera que está na areia torce mesmo por quem está surfando, faz de tudo para impressionar os jurados.
No mar, não onde nós banhistas costumamos ficar, mas lá dentro, onde eles surfam, a sensação é inigualável. Pelo menos é o que André diz. ?Uma sensação de estar em harmonia com a natureza, de sempre ir em busca da onda perfeita?, declara, super entusiasmado. Mas não é só essa onda que rola lá dentro não, a galera não esquece, entre uma vaca e outra, de tentar aprimorar e superar o nível técnico.
Esses surfistas são muito conhecidos na praia da Terceira Ponte. Afinal, quem agüenta enfrentar esta maratona toda semana? Moram no subúrbio, surfam na Orla e ainda organizam campeonatos, ?Temos humildade, dedicação e garra para crescermos cada vez mais?, declara André.
A associação já acumula cinco circuitos, 21 campeonatos e uns 15 surf treinos. Já revelaram dois atletas profissionais que tiveram destaque no surf baiano. Nos anos 80, para você ter uma idéia, cinco surfistas de Periperi surfavam em uma prancha só, revezando a cada 30 minutos. Hoje, como o próprio André conta, junto com toda a ASSCB, a galera do surf deu um drop nas dificuldades e uma batida de exemplo a qualquer atleta.
A ASSCB continua manobrando em busca de patrocínios. E para ajudar a manter os surfistas em cima da prancha, você pode entrar em contato com André Lima, presidente da associação, através do e-mail [email protected]


