Galera de Garopaba faz barca dos sonhos

Muitos amigos que passam por Bali durante o ano, indo ou voltando de expedições, sempre trazem histórias interessantes que usamos como fonte de informação para futuras incursões.
 
Desta vez, amigos de Garopaba fizeram uma expedição para Sumatra e agora passo aos que acompanham o Waves/Indonésia, para que sintam mais uma vez, o feeling de aventurar-se no mar em busca de ondas remotas e perfeitas.
 
Com narrativa de Beto Muller, um dos integrantes da barca, saiba como foi a Expedição Mormaii Surf Bar Sumatra North 2003 (Darcy).


 

Parecia mentira, mas quase um ano já havia se passado e estávamos prontos para iniciar mais uma expedição.
 
Eu, Zumba, Renato, Silvio e o surf repórter Marco.
 
Ano passado fomos abençoados com Mentawai e Hinako de gala.
 
E neste ano junto com Renato, fiel parceiro e idealizador da trip, pensamos em ir mais para o norte da ilha de Sumatra
 
Queríamos chegar até a ilha de Simelui passando por vários secrets points no caminho. 
 

Chegando ao aeroporto de Padang foi com muita alegria que reencontrei Jorge Barrios, figura folclórica do surf internacional.
 
Ele é capitão, dono, mecânico e faz-tudo do Irish Mist, veleiro de 50 pés que seria nossa casa por 18 dias.
 
O plano era seguir direto até Telo, mas como tinha um certo swell, resolvemos matar a saudade das Mentawai e rumamos para Telescopes.
 
O mar havia baixado, mas 3 pés perfeitos sem ninguém esperavam a galera naquela água quase morna de tão quente.
 
Dormimos ancorados por ali mesmo e no outro dia caímos cedo em Iceland.
 
Na companhia de dois barcos surfamos a manhã toda.
 
Menos o Zumba que foi garantir o almoço da galera.
 
E que almoço!
 
Um red snaper de 6 quilos matou a fome de todos.
 
Era hora de ir para o Norte.
 
Depois de passarmos por Playgrounds e curtir um fim de tarde inesquecível em Karamanget Island, seguimos até Bojo.
 
Em Sumatra o tempo muda rapidamente.
 
Uma tempestade castigou o barco toda noite e na manhã do terceiro dia da trip.
 
Inclusive rasgando nossa vela, o que aumentou o tempo da viagem.
 
Mas o astral era tão alto que ninguém passou mal e chegamos em Bojo depois de 18 horas balançando muito.
 
Estava maral e chovendo muito.

 

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Mas como milagres acontecem, por volta do meio dia o vento parou, o sol abriu e direitas alucinantes de 4 a 5 pés quebravam sozinhas num pico sem nome, na ilha de Tanah Bala.
 
Como sempre, fui logo caindo na água e o visual era surreal.
 
Nenhuma pessoa em volta e uma bancada bem perto da praia quebrando perfeito. Minha primeira onda foi especial, não sabia o que viria pela frente e cada vez a onda ficava melhor e mais cavada, com uma seção tubular no inside, onde a profundidade não devia passar de 40 centímetros. 
 

No meio do banho apareceu um nativo que ficou

 

curtindo o surf, depois fui trocar umas palavras com ele no meu rudimentar bahasa e ele falou que seu nome era Bongo e assim batizamos o pico, Bongo’s Point.
 
Viagem de barco é assim, às vezes temos que partir deixando um lugar quebrando altas ondas.
 
Mas ainda tínhamos muito mar pela frente.
 
À noite seguimos para Telo em mais sete horas de navegação.
 
Vale ressaltar que nosso capitão Jorge é um dos

poucos que viajam a noite.
 
Assim, chegamos a Telo com o dia amanhecendo.
 
Estava maral.
 
Resolvemos descer e conhecer uma pequena vila local.
 
Impossível descrever a alegria dos nativos em nos receber, até um jogo de futebol rolou.
 
Com o vento parando, resolvemos checar uma ilha ao lado de Telo e fomos recompensados com uma bela direita que terminava perigosamente sobre um coral exposto.
 
Surfamos até a noite e depois de mais um pôr do sol alucinante, cruzamos o Equador rumando para Lagundi, ilha de Nias.
 
Chegamos com o dia nascendo. Estava muito pequeno, então resolvemos seguir direto para a ilha de Bawa e valeu a pena: direitas muito power de 5 pés quebrando sozinhas. Logo toda toda galera caiu e surfamos o dia inteiro.
 
Acordamos no dia seguinte e o vento tinha mudado, o que significava que Asu podia estar bombando.
 
Sem esperar muito, rumamos para Asu e, ao chegar não acreditamos, séries perfeitas de 8 pés quebravam sem parar, uma mais perfeita que a outra, tinha onda em que dava para pegar dois tubos, muito clássico.
 
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Asu resolveu “estragar” nossa trip e bombou durante sete dias sem parar.
 
Ancoramos por ali mesmo e nossa rotina era surfar e surfar.
 
Quando voltávamos para o barco, “chef” David preparava as melhores delícias da culinária  indonesiana, de lagosta a sushi, passando por pescados na hora.
 
O mar variou entre 3 e 8 pés, sempre constante e com um leve vento terral.
 
Nossa intenção era subir mais ao Norte, mas a província de Banda Aceh, onde fica Simelui e

outras ilhas, está em guerra civil e o governo indonesiano resolveu endurecer e saiu matando os guerrilheiros do grupo radical islâmico GAM. (que significa Liberdade para Aceh)
 
Nenhum barco podia passar da ilha de Nias e quem tentou até tiro levou.
 
Como ninguém queria levar tiro, ficamos em Asu mais que o esperado e a sorte nos acompanhou.
 
A única nota triste foi que lá pelo décimo dia de viagem, um brazuca sofreu um terrível  acidente, que por pouco não lhe tirou a vida. 
 

O gaúcho Alema estava filmando quando entrou uma série e o barco dele não conseguiu passar. O barco voou e Alema voou junto. Quando aterrissouou, Alemã bateu a cabeça no barco e caiu inconsciente no mar.

A sorte foi um australiano ter visto e salvá-lo.
 
Galera, a cabeça do cara era só sangue, com fratura do malar e a testa toda aberta. Se não houvesse um dentista na ilha, ele teria morrido.
 
O cara costurou legal e logo ele estava indo para Medan para ser operado de emergência. O mais incrível e que na hora em que estava sendo costurado, ele me dizia: “Beto, tenho altas ondas filmadas tuas. Vai lá no fundo do mar e recupera minha câmera!”.
 

Só um “real soul surfer” para falar uma coisa assim naquela hora. É claro que isso baixou o astral um pouco, mas como a vida segue e o mar não parava de bombar, resolvemos checar Afulu, na ilha de Nias.

A onda é muito perfeita e surfamos sozinhos o dia inteiro. Pena que no meio do dia entrou um vento e a onda ficou um pouco mexida.
 
Já estava chegando a hora de voltar e, na saída das Hinako Islands, ainda pegamos Bawa com sólidos 6 pés.
 
Tentamos pegar as mesmas ondas da ida, mas Netuno resolveu nos presentear com um outro pico – por decisão da galera resolvemos mantê-lo em segredo.
 
É uma esquerda em frente à uma ilha que parece selva fechada, habitada por kijangs, animal indonesiano parecido com um alce.
 
Daí apelidamos o lugar de Kijang Point, onde surfamos o dia inteito ondas perfeitas de 5 pés só para nós, no penúltimo dia de viagem. Fomos embora de alma lavada e uma lua cheia nos acompanharia no caminho.
 
Ainda surfamos Nipussy e Little Nias, nas Mentawai, e voltamos para Padang de cabeça feita .
 
Já estamos com planos de voltar no ano que vem.
 
Desta vez a expedição vai se chamar Mormaii Surf Bar Expedição Norte do Norte de Sumatra.
 
Agradecimentos especiais a toda tripulação do Irish Mist: Jorge, Daniah, Hendra e David, pessoas muito especiais e que fizeram nossa trip ser nota 10 em todos os aspectos.                                                 
 
Às nossas companheiras Cynthia, Monica, Leslie, e filhos: Thomaz, Roberta, Marcela, e João, que sempre seguram a onda quando a saudade aperta.
 

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