Força barra no OP Pro

“As menores ondas no mês de novembro da história de Haleiwa nos últimos 60 anos”, afirmou a National Oceanic & Atmospheric Administration (NOAA), no Hawaii.

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A inauguração da Tríplice Coroa Havaiana continuou como em qualquer praia do Brasil, em ondas de meio metro, boa formação e algumas séries passando de 1 metro de altura durante o domingo ensolarado no Alli Beach Park.

O OP Pro Hawaii vale os mesmos 2.500 pontos do igualmente 6 estrelas Onbongo Pro Surfing realizado na última semana de outubro, na praia de Itamambuca, em Ubatuba, em condições parecidas com as apresentadas até agora no North Shore da ilha de Oahu.

Um total de 20 brasileiros competiu no domingo e nove continuam na disputa da penúltima etapa do WQS, enquanto outros oito ainda vão estrear nesta segunda-feira.

Os brasileiros foram os destaques do dia, com o pernambucano Bernardo Pigmeu estabelecendo um novo recorde de 16,50 pontos para o campeonato, numa dobradinha vitoriosa com o cearense Pablo Paulino, que na mesma bateria achou a ?rainha? para receber a maior nota ? 9,57 ? deste ano em Haleiwa.

Alguns enfrentaram as pequenas ondas do Alli Beach Park duas vezes, com o carioca Simão Romão sendo o único a passar invicto pelas triagens.

Além dele, mais quatro já avançaram para enfrentar os principais cabeças-de-chave do OP Pro Hawaii e outros sete ainda vão disputar classificação na segunda metade da quarta e última rodada das triagens, que vai abrir a segunda-feira no Hawaii.

O cearense Heitor Alves ganhou seu primeiro confronto e depois completou a segunda dobradinha verde-amarela do domingo, com o gaúcho Rodrigo Dornelles passando em primeiro lugar. Os dois estão na briga direta pelas últimas vagas na lista dos 15 surfistas que o WQS classifica para o WCT.

Só que agora vão começar a estrear as principais estrelas da competição e Dornelles já terá pela frente o vice-líder e o terceiro colocado do ranking, o australiano Michael Campbell e o sul-africano Ricky Basnett, além do norte-americano Mike Todd, que ainda tem chance matemática de brigar por um lugar entre os 15 do WQS.

A missão de Heitor Alves é ainda mais ingrata: vai ter de encarar os havaianos Andy Irons e Sunny Garcia, sempre candidatos ao título da Tríplice Coroa Havaiana, com a sensação da África do Sul, Jordy Smith, completando a bateria. O sul-africano já foi derrotado pelo cearense na terceira fase, mas o maior desafio é enfrentar os ídolos locais na casa deles.

O potiguar Marcelo Nunes e o catarinense Jean da Silva completaram a lista dos cinco surfistas que passaram pelas triagens, dobrando o número de brasileiros para a estréia dos cabeças-de-chave do OP Pro Hawaii, quando começa a ser distribuida a premiação de US$ 125 mil oferecida nas etapas com nível 6 estrelas.

Fazem parte deste grupo de 32 privilegiados, que já entram disputando vagas para as oitavas-de-final, o atual campeão mundial do WQS, Adriano de Souza, Raoni Monteiro, Pedro Henrique, Yuri Sodré e o campeão brasileiro Jihad Kohdr completa a relação dos cinco cabeças-de-chave do Brasil na competição que é decisiva para muitos surfistas que estão na briga pelas últimas vagas que vão completar a elite mundial do WCT no ano que vem.

Vagas no WCT – Apesar da eliminação de Neco Padaratz logo no primeiro dia, ele deve permanecer nesse grupo. Agora, quem está mais próximo de ultrapassar a barreira dos 9.000 pontos no ranking, que garante matematicamente a classificação, é o carioca Leonardo Neves. Ele vai estrear no segundo confronto desta segunda-feira no Hawaii e tem de passar três baterias para chegar às quartas-de-final, quando atinge 9.015 pontos.

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O primeiro desafio terá seu companheiro de equipe, o jovem catarinense William Cardoso, o havaiano campeão mundial Pro Junior, Kekoa Bacalso, e o já confirmado no WCT 2007, Ben Dunn, da Austrália.

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Para o gaúcho Rodrigo Dornelles, que defende a 15a colocação no WQS, a marca de 9.000 pontos só é alcançada se ele for um dos quatro finalistas do OP Pro Hawaii.

O cearense Heitor Alves também precisa chegar à final e ainda ficar entre os três primeiros colocados para entrar na relação dos 15 do WQS.

Mas crava seu nome nos tops do WCT se vencer o campeonato, pois alcança 9.235 pontos com os 2.500 pontos que valem a vitória em Haleiwa.

O paranaense Jihad Kohdr igualmente atinge essa meta se for campeão da primeira prova havaiana, título que também pode colocar Simão Romão na briga direta pelas últimas vagas. E o carioca passou invicto pelas triagens, vencendo as duas baterias que disputou no domingo.

?Eu queria vir aqui competir em ondas de 10, 12 pés (3 a 4 metros), mas fazer o quê, não tem onda!?, lamentou Simão, 39o colocado no ranking.

?Pra mim está até bom. Sou do Arpoador e lá é só esquerdinha perfeita que nem essas que estão hoje aqui, mas está um pouco difícil porque as séries estão demorando muito para entrar em algumas baterias?, disse Simão Romão, logo após sua segunda vitória.

Na mesma bateria, o único brasileiro que já venceu uma etapa da Tríplice Coroa Havaiana – o paraibano Fábio Gouveia (em Sunset Beach) – acabou eliminado no confronto direto entre Brasil e Hawaii que terminou empatado, com Nathan Carroll ficando com a segunda vaga e Evan Valiere em último.

Além de Fabinho, o alagoano Marcondes Rocha e o carioca Marcelo Trekinho foram outros brasileiros que entraram direto na rodada final das triagens e não passaram das suas primeiras participações. Trekinho perdeu a briga pela segunda vaga na sua bateria para o catarinense Jean da Silva, na disputa vencida pelo australiano Dayyan Neve.

Apenas metade da última fase das triagens foi realizada no domingo e sete brasileiros ainda vão disputar classificação para tentar aumentar o número de dez brasileiros já confirmados na rodada de estréia dos cabeças-de-chave.

Só que três acabaram escalados na mesma bateria e entre eles está o recordista do OP Pro Hawaii, Bernardo Pigmeu, que somou 16,50 pontos com notas 8,83 e 7,67 na dobradinha com o cearense Pablo Paulino. A segunda apresentação em Haleiwa do pernambucano que já confirmou sua entrada no WCT 2007 durante o Onbongo Pro Surfing em Ubatuba, será na quinta bateria desta segunda-feira, com os ubatubenses Odirlei Coutinho e Hizunomê Bettero e o carioca Eric Rebiere, que representa a França, onde mora há muitos anos, no Circuito Mundial da ASP.

OP Pro Hawaii

Baterias pendentes da quarta fase

9 Nic Muscroft (Aus), Nathaniel Curran (EUA), Hira Teriinatoofa (Tah), Asher Nolan (EUA)
10 Leonardo Neves (Bra), Kekoa Bacalso (Haw), Willian Cardoso (Bra), Ben Dunn (Aus)
11 Gabe Kling (EUA), Danilo Costa (Bra), Teppei Tajima (Jap), Rhys Bombaci (Aus)
13 Odirlei Coutinho (Bra), Eric Rebiere (Fra), Bernardo Pigmeu (Bra), Hizunomê Bettero (Bra)
14 Royden Bryson (Afr), Chris Ward (EUA), Flynn Novak (Haw), Pablo Paulino (Bra)

Quinta fase

1 Joel Parkinson (Aus), Raoni Monteiro (Bra), Leigh Sedley (Aus), Jean da Silva (Bra)
2 Adriano de Souza (Bra), Dustin Cuizon (Haw), Dayyan Neve (Aus), Marcelo Nunes (Bra)
3 Tiago Pires (Por), David Weare (Afr), Simão Romão (Bra), Jay Thompson (Aus)
6 Bruce Irons (Haw), Pedro Henrique (Bra), Kai Otton (Aus), Sean Moody (Haw)
7 Michael Campbell (Aus), Ricky Basnett (Afr), Rodrigo Dornelles (Bra), Mike Todd (EUA)
8 Andy Irons (HAV), Sunny Garcia (Haw), Jordy Smith (Afr), Heitor Alves (Bra)
9 Mick Fanning (Aus) e Tom Curren (EUA) aguardam os adversários das triagens
10 Jeremy Flores (Fra) e Roy Powers (Haw)
11 Dean Morrison (Aus) e Yuri Sodré (Bra)
15 Jake Paterson (Aus) e Jihad Kohdr (Bra)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.