Flea quer tocar no Bee Gees

Em 93, aos 16 anos, saí do interior de paulista para o Hollywood Rock, no Morumbi (SP). Lembro de minha imagem discreta ao lado de meus primos, rumando para São Paulo.

 

Lembro da entrada triunfal de um moleque bêbado no ônibus da excursão.

 

Duas horas depois, sua cabeça descansava os olhos esbugalhados no chão, após um empolgante vômito na terra batida.

 

Ele ficou num hospital no caminho, mas nós chegamos lá para ver os Red Hot Chili Peppers tocarem o repertório de “Blood Sugar Sex Magik”, um dos melhores discos de rock?n?roll que já ouvi.

 

Quase 10 anos depois, “By the Way”, o novo trabalho dos caras, salta da caixa para o meu som. A canção título abre as cortinas. O refrão perfeito, o baixo detonador e os vocais harmônicos parecem sinalizar uma boa seqüência para “Californication”. Mas o disco é atípico, para ser politicamente correto.

 

É como se a banda tivesse pedido comida na mansão dos Bee Gees. Ok, vamos dar a eles as músicas que não vamos usar!, teria dito um dos irmãos.

 

Flea, Kiedis, Smith e Frusciante só tiveram o trabalho de adapta-las a algo que lembrasse o estilo dos Peppers. Não funcionou muito bem.

 

“Universally speaking” é um grande nome para uma canção, mas fica suspeita quando apresenta o verso “Come on baby ‘cause there’s no name for, give it up and I got what I came for”, com backing vocals exagerados.

 

“Dosed” é ainda mais sintomática. “Way upon the mountain where she died All I ever wanted was your life”, choram Kiedis e Flea com todos agudos possíveis.

 

Em “I could die for you”, chega-se a recorrer aos efeitos dramáticos de um teclado parecido com aqueles que Renato Russo, vez por outra, introduzia nos piores discos da Legião Urbana.

 

Com direito ao som de um vento longínquo e misterioso, parecido com aquele da novela O Clone, direto do deserto das lamentações malaguetas. Mas de todas, “Tear” foi aquela em que a banda menos trabalhou para nos convencer de que, de fato, ela não foi composta pelos Bee Gees.

 

É nesse ponto que Flea exercita toda sua voracidade vocal. É nesse ponto que temos certeza de que algo está errado.

 

Estou aqui me policiando para não recorrer ao lugar-comum, eles envelheceram. Acho coisa de aborrecente descerebrado clamar pelo argumento que celebrizou Belchior, mas é fato: ou os quatro estão mais sensíveis aos problemas afetivos ou brigaram feio com a gravadora.

 

O pior de tudo é que a banda conserva um carisma absurdo tão grande que você se obriga a escutar o CD de novo e de novo.

 

De tanto escutar, você acaba gostando de ver seu baixista favorito transformar seus gritos em refrão na animada “Minor Thing”, ou de sentir que Anthony Kiedis se imagina no Depeche Mode ao cantar “Warm Tape”.

 

Acaba curtindo “Throw away your television”, uma das melhores do álbum, e achando simpático ouvir Gloria soletradas em “Venice Queen”, que fecha o álbum. Mas ainda não ouvi o disco suficiente para digerir “Cabron”, uma das piores coisas já gravadas pelos Peppers ao lado de “Behind the Sun”.

 

É tudo questão de tempo. Ainda conservo uma juventude de espírito levemente exagerada, o que atrapalha um pouco.

 

Quando ficar uns anos mais velho, possivelmente passe a acreditar na máxima do poeta Gabriel Fatscarov, que diz que sentimos a maturidade aflorar quando o Bee Gees toca mais fundo na alma de quem já curtiu Black Sabbath. É por isso que “By the Way” em nossos ouvidos é refresco.

 

 

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